Fome provoca protesto no sertão da Paraíba

Carregando sacos vazios - símbolo da fome e da lavoura perdida - cerca de dois mil agricultores rurais fizeram um protesto hoje de manhã no centro de Cajazeiras, no alto sertão paraibano, a 480 quilômetros de João Pessoa. O comércio fechou as portas, temendo saques. Cerca de 100 policiais militares protegeram a feira, fazendo um cerco para impedir a aproximação dos manifestantes.Em assembléia realizada em frente à prefeitura, após discursos condenando o descaso dos governos estadual e federal com a situação de miséria dos flagelados da seca, os agricultores decidiram interditar a BR-230 por tempo indeterminado, a partir do próximo sábado, até a chegada de alimento. "Se não tivermos resposta, a gente vai pegar comida", avisou Sinésio Alves de Oliveira, morador do sítio Patamuté, que não conseguiu colher uma só espiga de milho nem um grão de feijão da sua plantação. "O prefeito, o vice-prefeito e os políticos que vieram aqui dar apoio ao protesto estão de barriga cheia, mas nós estamos com fome".O protesto foi o último aviso e o último movimento pacífico realizado pelos agricultores, segundo o vice-prefeito de Cajazeiras, padre Francivaldo Nascimento de Albuquerque (PSB), que integra o movimento dos trabalhadores ao lado de associações comunitárias e sindicatos. Ele afirmou que muitos dos agricultores estavam dispostos a saquear, mas foram convencidos a dar mais um prazo para que o governo tome providências. "Se nesta semana não houver uma resposta efetiva à necessidade de alimento e trabalho, não haverá como impedir as radicalizações", afirmou ele.Cajazeiras tem 54,6 mil habitantes e não enfrenta problema de falta de água para consumo humano. O problema é que a escassez e irregularidade das chuvas provocaram a perda total da lavoura. O município se encontra em estado de calamidade pública e ainda não é reconhecido no âmbito federal. Na emergência de 1998/99, 3,6 mil trabalhadores foram inscritos nas frentes produtivas do governo federal.

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