Ueslei Marcelino / Reuters
O presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, durante coletiva de imprensa sobre o novo coronavírus. Ueslei Marcelino / Reuters

‘Foi um divórcio consensual’, diz Bolsonaro sobre demissão de Mandetta

Segundo o presidente, na conversa em que comunicou o ministro de sua demissão, Mandetta se colocou à disposição para auxiliar na transição

Jussara Soares e Vinícius Valfré, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2020 | 17h21

BRASÍLIA - O presidente Jair Bolsonaro afirmou nesta quinta-feira, 26, que a demissão do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, foi um “divórcio consensual”. Em pronunciamento no Palácio do Planalto ao lado do escolhido para assumir a pasta, o oncologista Nelson Teich, o presidente afirmou que Mandetta não tratou a crise relacionada à pandemia do coronavírus da forma como ele gostaria.

“É direito do ainda ministro defender o seu ponto de vista como médico. E a questão de entender também a questão do emprego não foi da forma que eu achava, como chefe do executivo,que deveria se tratada. Não condeno, não recrimino e não critico o ministro Mandetta. Fez aquilo que como médico achava que tinha que fazer", disse Bolsonaro, com um semblante abatido e falando de forma pausada.

Segundo o presidente, na conversa em que comunicou o ministro de sua demissão, Mandetta se colocou à disposição para auxiliar na transição. “Foi realmente um divorcio consensual”, disse o presidente.

Bolsonaro afirmou que a preocupação do governo é uma volta “à normalidade o mais breve possível”. O presidente  destacou que o governo não tem como manter o auxílio emergencial de R$ 600 reais para informais e outros medidas econômicas de socorro durante a pandemias por muito mais tempo. Ele disse que conversou com Teich para que a volta ao trabalho ocorra de forma gradativa.

“E o que eu conversei  com o doutor Nelson é que, gradativamente, nós temos que abrir o emprego no Brasil. Essa grande massa de humildes não tem como ficar presa dentro de casa, e o que é pior, quando voltar, não ter emprego. E o governo não tem como manter esse auxílio emergencial ou outras ações por muito tempo. Já se gastou aproximadamente R$ 600 bilhões, e podemos chegar a R$ 1 trilhão”, disse.

No fim do discurso, Bolsonaro voltou a reclamar sobre medidas de isolamento adotadas por governadores e prefeitos para evitar a propagação do vírus. O presidente tem defendido a flexibilização de restrições, contrariando o que dizem especialistas e autoridades sanitárias de todo o mundo. "Jamais cercearemos qualquer direito fundamental de um cidadão. Quem tem poder de decretar estado de defesa ou de sítio, depois de uma decisão obviamente do Parlamento brasileiro,  é o presidente da República, e não o prefeito e o governador. O excesso naõ levará a solução do problema. Muito pelo contrário, se agravará", afirmou o presidente. A declaração é uma referência ao governador de São Paulo, João Doria (PSDB), que na semana passada falou da possibilidade de mandar prender quem descumprisse a orientação de isolamento social.

Demissão

Em mensagem no Twitter em que anunciou sua demissão, Mandetta agradeceu a oportunidade de gerenciar o Sistema Único de Saúde (SUS) e planejar o enfrentamento da pandemia do coronavírus. “Agradeço a toda a equipe que esteve comigo no MS e desejo êxito ao meu sucessor no cargo de ministro da Saúde. Rogo a Deus e a Nossa Senhora Aparecida que abençoem muito o nosso país”, postou.

Desde o início da crise do coronavírus, Mandetta e presidente vinham se desentendendo sobre a melhor estratégia de combate à doença. Enquanto Bolsonaro defende flexibilizar medidas como fechamento de escolas e do comércio para mitigar os efeitos na economia do País, permitindo que jovens voltem ao trabalho, o agora ex-ministro manteve a orientação da pasta para as pessoas ficarem em casa. A recomendação do titular da Saúde segue o que dizem especialistas e a Organização Mundial de Saúde (OMS), que consideram o isolamento social a forma mais eficaz de se evitar a propagação do vírus.

Os dois também divergiram sobre o uso da cloroquina em pacientes da covid-19. Bolsonaro é um entusiasta do medicamento indicado para tratar a malária, mas que tem apresentado resultados promissores contra o coronavírus. Mandetta, por sua vez, sempre pediu cautela na prescrição do remédio, uma vez que ainda não há pesquisas conclusivas que comprovem sua eficácia contra o vírus.

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Após demissão de Mandetta, São Paulo e Rio registram panelaços

Protestos incluem gritos contrários a Bolsonaro, que tinha uma visão divergente do ministro sobre a resposta à pandemia do novo coronavírus

Redação, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2020 | 17h07
Atualizado 16 de abril de 2020 | 17h39

Depois de confirmada a demissão do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, nesta quinta-feira, dia 16, em meio à pandemia do novo coronavírus, as cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília registraram panelaços contrários à saída do titular da pasta.

Na capital paulista, houve manifestação pelo menos nos bairros Bela Vista, Vila Madalena, Praça Roosevelt, Bela Vista, Barra Funda e Pinheiros. Foram registrados também alguns gritos no bairro Jardins. No Rio, houve panelaço e gritos de protesto em Copacabana, Botafogo, Cosme Velho, Flamengo, Glória, Laranjeiras e Santa Teresa. Entre os xingamentos, houve quem chamou o presidente da República Jair Bolsonaro (sem partido) de "genocida". Alguns poucos manifestantes gritaram em apoio a Bolsonaro. Em Brasília, foram registrados panelaços na Asa Norte.

Desde o início da pandemia, houve panelaços quase que diários dirigidos contra o presidente. No entanto, eles em geral ocorreram às 20h30. Já a manifestação frente ao descontentamento com queda de Mandeta aconteceu por volta das 16h30, logo depois de o médico comunicar sua demissão pelo Twitter.

Mandetta e Bolsonaro protagonizaram uma série de desentendimentos após a chegada do novo coronavírus ao Brasil, já que cada um defende uma abordagem diferente em relação a como combater a pandemia. Enquanto o ministro e a maioria dos médicos e epidemologistas defende medidas de fortes restrições sociais para evitar a disseminação da doença, Bolsonaro gostaria de implementar o que chama de "isolamento vertical", estratégia que procura isolar apenas pessoas que pertencem a grupos de risco, mais sucetíveis a desenvlver quadro grave.

Levantamentos mostram que a maioria da opinião pública era favorável à permanência de Mandetta na Saúde. No contexto do combate à pandemia do novo coronavírus, a popularidade do ministro começou a aumentar a partir de meados de março. Tracking da Atlas indica que, ainda no mês passado, Mandetta ultrapassou o ministro da Justiça, Sérgio Moro, e se tornou o quadro mais bem avaliado do governo.

Segundo fontes do Planalto, o presidente deu início ao processo de substituição do médico depois de considerar uma provocação a entrevista do ministro ao programa Fantástico, no domingo, na qual cobrou uma “fala única” do governo quanto às medidas de controle da pandemia.

O cargo será agora assumido pelo oncologista Nelson Teich, que se reuniu com Bolsonaro pela manhã. O médico foi consultor da área de saúde na campanha de Jair Bolsonaro, em 2018, e é fundador do Instituto COI, que realiza pesquisas sobre câncer.

Em seu currículo, o oncologista também registra ter atuado como consultor do secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde, Denizar Vianna, entre setembro do ano passado e março deste ano. Teich e Vianna foram sócios no Midi Instituto de Educação e Pesquisa, empresa fechada em fevereiro de 2019.

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Quem é Nelson Teich, novo ministro da Saúde do governo Bolsonaro

O oncologista Nelson Luiz Sperle Teich deixou o cargo menos de um mês após sua nomeação; médico e presidente Bolsonaro divergiram sobre uso da cloroquina

Bruno Nomura, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2020 | 16h24
Atualizado 15 de maio de 2020 | 15h00

Menos de um mês após sua nomeação, o oncologista Nelson Teich deixou o comando do Ministério da Saúde do presidente Jair Bolsonaro após divergências sobre a administração da cloroquina, substância que não tem eficácia comprovada contra o coronavírus. A cloroquina já pode ser utilizada em pacientes internados, mas Bolsonaro defende a mudança de protocolos para incentivar a utilização da substância mesmo em pacientes com sintomas leves. O médico substituiu Luiz Henrique Mandetta, que deixou a pasta após semanas de embates públicos com o presidente e discordava dos mesmos pontos que Teich na condução da pandemia.

Nelson Luiz Sperle Teich é formado em Medicina pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e especialista em oncologia pelo Instituto Nacional do Câncer e em Ciências e Economia da Saúde pela Universidade de York, no Reino Unido.

Fundou e presidiu o Grupo Clínicas Oncológicas Integradas (COI) entre 1990 e 2018. Foi consultor da área de saúde da campanha de Bolsonaro à Presidência em 2018. Chegou a ser cotado ao Ministério da Saúde à época. Atualmente é sócio da Teich Health Care, uma consultoria de serviços médicos.

O oncologista inicialmente contava com o apoio da classe médica e mantinha boa relação com empresários do setor da saúde.

"Ele tem uma ótima reputação e ouvindo o que ele já falou parece que começou bem. Ele tem um enorme desafio pela frente e sucede um ministro que sempre teve nosso apoio. Todos queremos que ele tenha um desempenho tão bom ou ainda melhor que o do Mandetta. Quando ele enfatizou a importância de continuar baseado em evidencia cientírica e critérios técnicos já responde as expectativas que nós todos temos", disse à época Rubens Belfort Jr, presidente da Academia Nacional de Medicina.

Em um artigo publicado em 3 de abril no LinkedIn, Teich criticava a “polarização” entre a saúde e a economia. “Esse tipo de problema é desastroso porque trata estratégias complementares e sinérgicas como se fossem antagônicas. A situação foi conduzida de uma forma inadequada, como se tivéssemos que fazer escolhas entre pessoas e dinheiro, entre pacientes e empresas, entre o bem e o mal”, escreveu. 

Teich não é defensor do isolamento vertical, em que apenas idosos e pessoas com doenças graves são colocadas em quarentena. O modelo é defendido por Bolsonaro e foi um dos principais fatores de desgaste entre o presidente e o ministro Mandetta, que apostou no isolamento horizontal.

Teich tinha o apoio do ministro da Economia, Paulo Guedes, e dos militares para ser ministro logo no início do mandato. Na ocasião, Bolsonaro acabou optando por Mandetta, que era, na verdade, um perfil mais político. Desde antes de assumir o posto, Teich era visto por colegas médicos como alguém que dificilmente vai se dobrar a decisões de Bolsonaro que não se amparam em critérios técnicos.

Qual é a opinião de Nelson Teich sobre o isolamento vertical?

Nelson Teich publicou três artigos sobre o coronavírus em sua página pessoal no LinkedIn. No texto mais recente, de 2 de abril, o oncologista defende o isolamento horizontal como a “melhor estratégia no momento” no combate à pandemia. 

“Diante da falta de informações detalhadas e completas do comportamento, da morbidade e da letalidade da covid-19, e com a possibilidade do Sistema de Saúde não ser capaz de absorver a demanda crescente de pacientes, a opção pelo isolamento horizontal, onde toda a população que não executa atividades essenciais precisa seguir medidas de distanciamento social, é a melhor estratégia no momento. Além do impacto no cuidado dos pacientes, o isolamento horizontal é uma estratégia que permite ganhar tempo para entender melhor a doença e para implantar medidas que permitam a retomada econômica do país”, escreveu Teich.

Teich vê “fragilidades” no isolamento vertical, modelo defendido por Bolsonaro em que apenas idosos e pessoas com doenças graves ficariam em quarentena. O médico ressalta, no entanto, que nenhum dos modelos seria o ideal e defende um “isolamento estratégico”.

“Estamos falando aqui do uso de testes em massa para covid-19 e de estratégias de rastreamento e monitorização, algo que poderia ser rapidamente feito com o auxílio das operadoras de telefonia celular”, afirmou.

Qual é a opinião de Nelson Teich sobre a cloroquina?

Em um dos textos no LinkedIn, o oncologista menciona a cloroquina como uma esperança no tratamento da doença, mas não se posiciona sobre a forma como a substância deve ser usada.

Em 2016, em entrevista ao site Medscape, Teich criticou a liberação da venda da fosfoetanolamina, que ficou conhecida como a “pílula do câncer”, mas disse que o uso de substâncias sem eficácia comprovada é um direito do paciente.

“É uma decisão política e populista que quebra um processo estruturado de avaliação de medicamentos. Uma coisa, porém, precisa ficar clara: você, como médico, está lá para orientar o paciente. Se ele quer fazer uso da substância é um direito dele. (...) Usar algo que não tem comprovação científica é uma escolha individual”, afirmou o oncologista.

Teich, no entanto, defende que o custo da aquisição de um medicamento sem comprovação científica deve ser arcada pelo paciente.

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Associação Médica divulga apoio ao novo ministro da Saúde

Oncologista Nelson Teich foi visto como técnico e com experiência em gestão pelo oncologista Paulo Hoff e pelo cirurgião Sidney Klajner

Giovana Girardi e Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2020 | 17h03

O oncologista Nelson Luiz Sperle Teich recebeu o apoio de médicos renomados e da Associação Médica Brasileira (AMB), após ser indicado como novo ministro da Saúde. Ele é visto como alguém com perfil mais técnico e experiência em gestão, segundo médicos ouvidos pelo Estado

O oncologista Paulo Hoff, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e presidente da Oncologia D’Or, diz que Teich sempre demonstrou ser um profissional preparado, com formação específica na área.

“A comunidade médica em geral estava satisfeita com a condução da crise pelo Ministério da Saúde e é claro que, como todos os brasileiros, ficamos um pouco preocupados com uma mudança no meio do furacão. Mas considerando que ela já foi feita, considero Nelson extremamente preparado para a gestão pública, um empresário médico de sucesso, respeitado nas suas opiniões e uma pessoa bastante serena”, afirmou Hoff, que, por ser colega de especialidade de Teich, diz já ter convivido com o novo ministro em palestras e congressos.

“O que é importante nesse momento é que o ministério tenha uma condução técnica e baseada na ciência. Se quisermos pensar em uma modificação futura das medidas de distanciamento social, são necessários dados”, completou.

Presidente do Hospital Israelita Albert Einstein, o cirurgião Sidney Klajner também destacou a formação acadêmica do novo ministro. “É uma pessoa extremamente capaz, com currículo bastante sólido em termos de gestão, com formação no exterior”, declarou. Teich fez especialização na Universidade de York, na Inglaterra.

Klajner também afirmou que considera Teich um quadro mais técnico. “O fato de ele ser médico e ter boa formação é algo positivo. Acredito que as diretrizes gerais de controle da epidemia não devam mudar. Pelo discurso dele, ele deverá se pautar em fatos e dados”, afirma.

Logo após o anúncio da demissão de Luiz Henrique Mandetta do Ministério da Saúde, a Associação Médica Brasileira (AMB) divulgou uma nota de apoio à escolha do oncologista

A AMB participou de uma audiência, entre a manhã e o início da tarde desta quinta-feira, 16, com o presidente Jair Bolsonaro e com Teich, quando o oncologista teria causado uma boa impressão no presidente e foi decidido que ele assumiria o cargo após semanas de desavenças entre Mandetta e Bolsonaro.

Em nota a AMB disse que “os problemas da saúde no Brasil e os impactos do coronavírus foram abordados” e que Teich recebeu o apoio da associação por “seu perfil altamente técnico, importante para o momento atual”.

O presidente da AMB, Lincoln Lopes Ferreira, declarou que Teich tem o total apoio e simpatia da associação. “Respeitado na classe médica, eminentemente técnico, gestor e altamente preparado para conduzir o ministério da Saúde", disse na nota.

A Associação Paulista de Medicina também se manifestou, dizendo que "reconhece e agradece o excelente trabalho" de Mandetta e que "deseja os melhores votos" a Teich. "De personalidade muito discreta, Teich deixa boas referência por onde passa e pode contar com a APM para o que for necessário", afirmou em nota o presidente da APM, José Luiz Gomes do Amaral.

A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que se posicionou nas últimas semanas contra o afrouxamento das medidas de isolamento, quando o presidente Bolsonaro começou a defendê-lo, não quis opinar sobre a troca do comando, mas defendeu a manutenção das políticas.

"A SBPC se pronuncia sobre as políticas de enfrentamento da pandemia. Por isso, irá aguardar o que o novo ministro irá propor e implementar. Mas defende como essencial neste momento a medida de isolamento social horizontal, assim como a OMS, a equipe anterior do Ministério da Saúde e muitos governadores e prefeitos", disse em nota. "E defende também o aumento significativo no número de testes diagnósticos e melhoria das condições de trabalho e segurança dos profissionais da saúde."

Já o presidente do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems), Wilames Freire, agradeceu o trabalho de Mandetta e desejou "boas vindas" ao novo ministro. 

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Mídia internacional repercute demissão de Mandetta

Jornais destacaram conflitos entre ministro da Saúde e Bolsonaro

Redação, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2020 | 17h43

Veículos estrangeiros repercutiram a demissão do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, comunicada pelo presidente Jair Bolsonaro nesta quinta-feira, 16.

Com o título Bolsonaro demite popular ministro da Saúde após disputa sobre resposta ao coronavírus, o jornal britânico The Guardian afirmou que, enquanto o ministro defendia o isolamento social, o 'presidente de extrema-direita' minimizou o impacto do coronavírus. Para a publicação, a demissão de Mandetta tem ‘potencial para causar uma grande revolta pública’. 

O americano Washington Post também destacou a disputa entre Mandetta e Bolsonaro. Na matéria Bolsonaro despede o ministro da Saúde, Mandetta, após diferenças sobre a resposta ao coronavírus, o jornal narra os embates entre ministro e presidente — destacando a declaração de Bolsonaro de que o vírus seria apenas “uma gripezinha”. “O esforço (de Bolsonaro) para reiniciar a economia  iniciou um confronto direto com Mandetta, que se tornou uma voz de resistência dentro do governo”, afirmou o jornal. 

Na matéria Bolsonaro demite ministro da Saúde após conflito em política sobre vírus, o Bloomberg afirma que Mandetta 'com treinamento médico, se recusou a se curvar às exigências do líder brasileiro'. A matéria firma que Mandetta ganhou destaque durante os briefings diários do Ministério da Saúde e das inúmeras entrevistas que deu para veículos de comunicação. 

O argentino Clarín considerou a medida ‘esperada’, já que o presidente vinha mantendo ‘curtos-circuitos’ com Mandetta ‘há várias semanas’. “A medida era esperada, mas envolve enormes riscos políticos e de saúde”, diz a publicação, “já que se espera que o país entre no momento mais agudo da pandemia de coronavírus em breve”.

O jornal também destacou reações locais, com panelaços em diferentes cidades do Brasil. 

 

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‘Não façam um milímetro do que acham que não deveriam fazer’, diz Mandetta

Na despedida de servidores da Saúde afirma que equipe fez ‘bom combate’ em meio à pandemia do coronavírus

André Borges e Julia Lindner, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2020 | 17h37

BRASÍLIA – Em um discurso emocionado, Luiz Henrique Mandetta se despediu do Ministério da Saúde na tarde desta quinta-feira, 16. Recebido por aplausos de servidores da pasta, Mandetta fez um agradecimento a uma série de parceiros de trabalho no ministério, citando nome a nome o trabalho desempenhado. 

Aos funcionários do Ministério da Saúde, deu um recado direto: “Não tenham medo, não façam um milímetro do que acham que não deveriam fazer”, afirmou. “Tenho a mais absoluta certeza que nós fizemos o bom combate até aqui. Vocês sabem que ministros passam, o que fica é o trabalho do servidor do Ministério da Saúde do Brasil.”

Anteriormente, Mandetta sinalizou que, se deixasse o cargo, a sua equipe iria embora junto. Hoje, no entanto, ele orientou a todos que continuem na pasta se forem solicitados. “Façam o possível para ajudar, é minha última ordem”, orientou..

Mandetta ainda agradecia ao trabalho da imprensa na cobertura da pandemia do coronavírus, quando o presidente Jair Bolsonaro deu início ao seu discurso no Palácio do Planalto, para anunciar a chegada do novo ministro, o oncologista Nelson Teich.

“Não posso medir o tamanho do meu agradecimento pelo que aprendi com vocês. Saio daqui com uma experiência simplesmente fantástica”, disse Mandetta, que citou Raul Seixas para mencionar sempre esteve aberto a mudar de opinião, quando esta mudança estava cercada de embasamento técnico e científico. “Quantas vezes mudei de posição porque tinha que mudar de opinião. Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo.”

Mandetta disse, ainda, que deixa o ministério “com gratidão ao presidente” e que sabe deixar para trás a melhor equipe. Ele afirmou que teve uma conversa “amistosa” com Bolsonaro na tarde de hoje, mas que o presidente precisava formar uma equipe com “outro olhar” . O ex-ministro também disse que deseja boa sorte ao novo ministro. “Trabalhem para o próximo ministro como vocês trabalhavam para mim”, disse ex-ministro, ao minimizar o impacto de sua saída.

“Não vai ser esse problema (sua demissão), que é insignificante. Isso não tem mais significado que uma defesa intransigente da vida, do SUS e da ciência. Fiquem nesses três pilares. A ciência é a luz, o iluminismo. É através dela que nós vamos sair. Que essa transição seja suave, profícua e que tenhamos um bom resultado ao término disso tudo.”

Mandetta também fez um agradecimento ao trabalho da imprensa, que “sempre foi parceira da verdade estampada nesse auditório”. “Sem vocês, com certeza o País não teria chegada nessa primeira etapa.”

Religioso, ex-ministro disse vai rezar pelo País para que tudo passe da melhor forma possível. “Ficarei nas minhas orações, em minha devoção inabalável em Nossa Senhora Aparecida.”

Ele concluiu a fala dizendo que, no minuto em que encerra a trajetória como ministro, ele segue “trabalhando o dobro como cidadão”. Em meio a especulações de que pode assumir cargo na Secretaria de Saúde de Goiás, o destino de Mandetta ainda é incerto.

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