Fogo na Amazônia limita discurso dos Bolsonaros

No Primeiro Mundo, não há espaço para depredação ambiental, desprezo por direitos humanos ou preconceitos contra LGBTs; discurso nacionalista do presidente não combina com agenda liberal

Wilson Tosta, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2019 | 12h12

Caro leitor,

A crise pela recente explosão de incêndios na Amazônia marca o fim da “era da inocência” do governo Jair Bolsonaro na cena mundial. Em um mundo globalizado, as polêmicas afirmações do mandatário brasileiro, de seus filhos e de seus ministros, combinadas ao avanço das queimadas pela mata, levaram a um difícil quadro atual do País na área internacional, como você viu aqui.

Nela, o País enfrenta questionamentos por sua política de meio ambiente e ameaças de boicote comercial ao agronegócio e suas exportações. Foram declarações como a do presidente desautorizando a ação de fiscais do Ibama contra madeireiros; pregando a abertura de reservas indígenas à exploração mineral, com possíveis consequências para um terço delas; defendendo a “flexibilização” do acesso a áreas protegidas, como  Fernando de Noronha e Tamoios, em Angra dos Reis (RJ). Ali, Bolsonaro prometeu até implementar a caça submarina e, antes da Presidência, foi multado por pesca ilegal. Tudo isso, somado às chamas espalhadas na floresta, ajudou a queimar nossa imagem ambiental internacional.

Quatro meses atrás, foi o filho Zero Um do presidente, o senador Flavio Bolsonaro (PSL-RJ), que perigosamente indicou desprezo pelo meio ambiente. Em conjunto  com o senador Marcio Bittar (MDB-AC), ele apresentou projeto para acabar com a reserva florestal obrigatória em propriedades rurais. Eles defenderam a proposta em artigo, divulgado pela Coluna do Estadão e criticado até por líderes do agronegócio, que anteviam os problemas internacionais enfrentados agora.

As críticas foram tantas que a proposta foi retirada. Outro filho, o Zero Dois, o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), debochou do aquecimento global opondo senso comum a evidências científicas e foi criticado por essa atitude. Já o Zero Três, deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-RJ), que o presidente quer emplacar como embaixador nos EUA, em projeto que tem rendido críticas até de seus seguidores, repudiou críticas do presidente francês, Emmanuel Macron. Sua atitude foi pouco diplomática para quem se pretende um futuro embaixador: compartilhou um vídeo em que o mandatário da França é chamado de idiota. O ministro da Educação, Abraham Weintraub, também bateu duro no presidente da França, pelo que foi criticado pela deputada estadual Janaína Paschoal (PSL-SP).

Mas não foram só declarações e propostas hostis ao meio ambiente que ajudaram a montar a conjuntura ruim que o Brasil enfrenta agora em suas relações internacionais. Houve também fatos, não só palavras. Uma boa ajuda para este mau caminho foi dada pela ofensiva de  Bolsonaro contra o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), cujo diretor, Ricardo Galvão, acusou de ter ligação com “alguma ONG”, por discordar dos dados desmatamento colhidos e divulgados pela instituição.

Abriu assim uma crise que gerou reação forte de Galvão, em entrevista ao Estado, e levou à demissão do pesquisador, com péssima repercussão na comunidade científica. O presidente já afrouxara multas ambientais e entrara em choque com a Noruega, uma das patrocinadoras do Fundo Amazônia. Levantou então suspeitas contra ONGs, por suposto envolvimento nos incêndios. As organizações reagiram com indignação. Um bom resumo de como o Brasil se meteu na atual crise pode ser lido aqui.

Bolsonaro tentou esquivar-se da crise, minimizando-a, mas as evidências em contrário são muitas. Reagiu às críticas de Macron, acusando-o de colonialismo e apelou para o sentimento nacionalista dos brasileiros. Agradou aos militares, mas não foi muito além disso. O nacionalismo tradicional não se encaixa na agenda liberal adotada pelo presidente e seu ministro da Economia, Paulo Guedes, que prega abertura total do mercado brasileiro.

O novo governo comemorou, por exemplo, a venda da parte mais lucrativa da Embraer - uma empresa criada pela Aeronáutica, durante a ditadura - à americana Boeing, no início do ano. O próprio presidente afirmou querer parceiros internacionais para a exploração mineral que quer promover nas reservas indígenas. Tudo isso é incompatível com a recente pregação neonacionalista do presidente.

A atitude mais forte que Bolsonaro tomou - após a mobilização e as críticas do G-7- , mobilizando tropas, recursos e Polícia para combater o fogo e investigar suas origens dá uma pista dos futuros dilemas que enfrentará o seu discurso, voltado para animar seus adeptos nas redes sociais. Os mesmos países da Europa que não aceitam a destruição da Amazônia repudiam o desrespeito a direitos humanos e preconceitos contra os direitos LGBT.

Diferentemente dos anos de chumbo, a importância internacional do Brasil o torna hoje alvo de monitoramento permanente dos países desenvolvidos - e não só na área ambiental. Bolsonaro tem mais esse motivo para sua confessa nostalgia pelo regime fardado.

Wilson Tosta

Wilson Tosta

Chefe de Reportagem da Sucursal do Rio de Janeiro.

Graduado em Jornalismo pela UFRJ em 1984, sou mestre em História Comparada pela mesma universidade e trabalho no Estado desde 1998. Acompanhei profissionalmente a política brasileira a partir da primeira eleição presidencial pós-redemocratização, em 1989 – e ainda hoje me surpreendo diariamente.

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