Ricardo Moraes/Reuters
Ricardo Moraes/Reuters

‘Fogo amigo' testa estabilidade do governo Bolsonaro, diz analista

Polêmicas envolvendo PSL e aliados viraram dor de cabeça para o presidente

Matheus Lara, O Estado de S.Paulo

14 de fevereiro de 2019 | 12h01

As rusgas internas e suspeitas de desvio de recursos dos fundos eleitoral e partidário do PSL na eleição passada, por meio de supostas ‘candidaturas laranjas’, viraram uma dor de cabeça para o governo de Jair Bolsonaro nos últimos dias. Recém-saído do hospital onde permaneceu internado por 17 dias, o presidente terá agora de contornar a pior crise política de seu governo enquanto tem pela frente a difícil tarefa de formar uma base de apoio que lhe garanta a aprovação da reforma da Previdência.

O Estado conversou com o cientista político Kleber Carrilho, da Universidade Metodista de São Paulo, sobre os possíveis impactos da crise que pode ocasionar até a demissão de um ministro – Gustavo Bebianno, da Secretaria-Geral da Presidência corre o risco de ter de  “voltar às suas origens”, como disse o próprio Bolsonaro ontem, após novo embate com o filho do meio do presidente, Carlos Bolsonaro (PSC). O vereador carioca afirmou nesta quarta-feira, 13, que Bebianno mentiu ao afirmar que havia conversado com Bolsonaro por três vezes pelo telefone para tratar dos problemas do partido.

Segundo Carrilho, os fatos recentes mostram que a oposição não tem conseguido causar grandes estresses: “É a situação e aliados que estão testando Bolsonaro", diz. Leia mais abaixo:

Bolsonaro é o principal expoente do PSL. Como as suspeitas sobre o partido o afetam?

Um grupo político existe quando há ideias e pessoas envolvidas. O PSL não existe nesse sentido. Foi só uma estrutura cartorial que deu sustentação ao projeto de Bolsonaro. A eleição de Bolsonaro foi baseada num projeto de poder do qual ele não era exatamente o líder, mas sim o principal personagem. Ele se mostrou como o que tinha mais condições para ser eleito. Mas é lógico que os antigos donos do PSL cobrariam a fatura dele (por ter se tornado a principal liderança do partido).

Qual o significado desta crise para o governo?

É uma instabilidade que envolve filhos, pessoas próximas e aliados do presidente. Estão testando até onde ele vai. Se consegue se manter no governo. Pois se não consegue, a vida como presidente talvez seja reduzida. Há o lado dos fatos - de denúncias envolvendo lideranças do partido -, mas há também muito fogo amigo testando a estabilidade do governo.

Aliados têm trazido mais problemas para Bolsonaro do que a oposição?

Todo mundo diz que nos primeiros cem dias de governo, o presidente está em lua de mel com o Congresso. Por causa dessas polêmicas, Bolsonaro não tem tido direito a isso. Ele está em teste. A oposição não tem conseguido causar grandes estresses. É a situação e aliados que estão testando Bolsonaro. Parte por falta de experiência, parte para ver até onde ele chega enquanto líder político.

Isso demonstra o que do ponto de vista da imagem do governo?

É um governo que tem brigado publicamente, por redes sociais. É um grupo político sem experiência. Quem tem experiência, briga em ambiente interno e não deixa transparecer. É provável que agora toda a culpa seja jogada em cima do Gustavo Bebianno para tentarem tirá-lo do circuito. Mas não acho que ele sairá calado.

Qual a implicação dessas rusgas junto ao Congresso?

O Congresso é fiel a quem demonstra poder e quem mostra controle. Bolsonaro tem tido problema para mostrar controle. É algo necessário para ele. É claro que as primeiras votações ainda não chegaram, mas esses problemas podem dar uma ideia de instabilidade do apoio ao governo no Congresso.

Pode comprometer votações importantes como a reforma da Previdência?

Tudo isso pode fazer até com que deputados que se declararam apoiadores tenham dúvidas sobre o apoio ao governo, se isso pode fazê-los se queimar com sua base. Neste momento, eles pensam nisso. E por isso Bolsonaro quer apresentar nesta quinta o texto da Previdência: para testar logo como ele vai ser recebido.

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