FNL invade fazendas em 12 Estados pelo 'Carnaval Vermelho'

Comandos locais da Polícia Militar confirmam ocupações em São Paulo, Mato Grosso do Sul, Bahia, Alagoas, Pernambuco, Sergipe, Mato Grosso e Distrito Federal

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2017 | 20h05

SOROCABA – Integrantes da Frente Nacional de Luta Campo e Cidade (FNL) invadiram cerca de 100 fazendas em doze Estados, entre a madrugada de sábado e a manhã deste domingo (19), na ação chamada “Carnaval Vermelho” pela reforma agrária. O líder da frente, José Rainha Junior, afirma ser “uma das maiores jornadas de luta em ocupações de terra no Brasil”. Segundo ele, para cobrar a distribuição de terras, estão mobilizados mais de 10 mil militantes e camponeses.

Até a tarde, os comandos locais da Polícia Militar confirmavam ocupações em São Paulo, Mato Grosso do Sul, Bahia, Alagoas, Pernambuco, Sergipe, Mato Grosso e Distrito Federal. Em outros Estados, a PM não tinha sido informada das ações. “As ocupações têm como objetivo chamar a atenção do governo para o descaso que vem tratando a reforma agrária, que há muito tempo está paralisada”, informa nota distribuída pela FNL.

Em São Paulo, a reportagem confirmou invasões de 16 propriedades nas regiões de Itapetininga, Andradina, Araçatuba, Bauru e no Pontal do Paranapanema. Só no Pontal, palco dos maiores conflitos agrários do Estado, foram ocupadas dez fazendas. Os sem-terra cortaram cercas e cadeados para entrar nas áreas. Em algumas áreas, a ocupação foi feita por grupos pequenos, com até 20 militantes, segundo a PM.

Em entrevista, Rainha Junior disse que a situação no campo é grave. “A miséria e o desemprego aumentam a cada dia e a política do governo é investir bilhões no agronegócio, enquanto o pequeno agricultor fica à míngua.” Ele cobrou a criação de um ministério para a agricultura familiar. "O governo investe no sistema prisional e esquece a agricultura familiar, que fixa o homem no campo. Estamos voltando ao Brasil Colônia, com nossas terras sendo vendidas a grupos estrangeiros por preço de banana, enquanto milhares de sem terra vivem na extrema pobreza, na beira de estradas, debaixo de lonas pretas.”

O presidente da União Democrática Ruralista (UDR), Luiz Antonio Nabhan Garcia, disse a entidade que representa os fazendeiros vai entrar com representação civil e criminal contra os líderes da FNL. “Invasão é crime e José Rainha já foi condenado a mais de 30 anos de prisão, no entanto continua sua atividade criminosa. Está na hora das autoridades, inclusive do Judiciário, mostrarem que estão aí para serem respeitadas e não sofrerem esse tipo de deboche.” Segundo ele, as invasões causam danos às propriedades e paralisam a atividade produtiva, mas os prejuízos aos produtores rurais não são reparados.

Ex-dirigente do Movimento dos Sem Terra (MST), em 2015, Rainha Junior foi condenado a 31 anos e cinco meses de prisão, em primeira instância, por crimes de extorsão, formação de quadrilha e estelionato, após ser investigado num esquema de desvio de recursos da reforma agrária. Ele conseguiu habeas corpus para esperar o julgamento do recurso em liberdade. Antes, chegou a ficar preso por invasão, depredação de propriedade e porte ilegal de arma. Ele nega os crimes e se diz perseguido por sua militância social.

No ano passado, a FNL realizou o “Carnaval Vermelho” com 80 ocupações no País, entre elas, as sedes do Incra e do extinto Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) em Brasília. Em maio, os militantes invadiram a Fazenda Esmeralda, em Duartina, interior paulista, pertencente a João Baptista Lima Filho, ex-assessor e amigo do presidente Michel Temer. Uma semana após desocupar a fazenda, Rainha foi recebido por Temer no Palácio do Planalto, em encontro intermediado pelo deputado Paulo Pereira da Silva, o Paulinho da Força (SD-SP).

Não havia expediente no Incra ontem e a assessoria de imprensa não tem plantões no fim de semana. Em posicionamentos anteriores, o Incra informou que busca o diálogo com os movimentos sociais e, ao mesmo tempo, executar a nova política para a reforma agrária definida pelo presidente Michel Temer, que inclui a titulação dos lotes já ocupados pelos assentados. Segundo o Incra, o governo definiu formas para reorganizar os assentamentos e que facilitam a aquisição de terras para criar novos assentamentos.

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