FMI deve fortalecer supervisão de políticas cambiais, dizem EUA

Secretário do Tesouro faz crítica indireta à China.

Alessandra Corrêa, BBC

09 de outubro de 2010 | 17h06

Geithner e Mantega (atrás) participam do encontro em Washington

O secretário do Tesouro americano, Timothy Geithner, disse neste sábado que é crucial que as grandes economias emergentes adotem um regime cambial mais flexível e que o FMI (Fundo Monetário Internacional) precisa fortalecer seu sistema de supervisão das políticas cambiais dos países.

"É crucial ver mais progresso por parte das principais economias emergentes rumo a uma taxa de câmbio mais flexível", disse Geithner, em Washington, na reunião do Comitê Monetário e Financeiro Internacional (IMFC, na sigla em inglês, órgão que tem o papel de assessorar do conselho de governadores do FMI e recomendar a adoção de políticas).

Apesar de não ter citado a China, o pronunciamento do secretário americano foi um recado ao país asiático, alvo de críticas por supostamente manter sua moeda, o yuan, artificialmente desvalorizada em relação ao dólar e, assim, beneficiar as exportações chinesas.

"Isso é especialmente importante para aqueles países cujas moedas estão muito desvalorizadas", disse Geithner.

Supervisão

Segundo Geithner, é função do FMI supervisionar o sistema monetário internacional e é necessária uma reforma nesse sistema, fortalecendo a supervisão das políticas cambiais e das práticas de acúmulo de reservas.

"O excesso de acúmulo de reservas em escala global está levando a graves distorções no sistema financeiro e monetário internacional", afirmou.

A China é o país que mais tem aumentado suas reservas, que já estão próximas de US$ 2,5 trilhões.

Em seu pronunciamento, o secretário americano também criticou indiretamente os desequilíbrios da balança comercial com a China.

"Por muito tempo, muitos países orientaram suas economias à produção para exportação em detrimento do consumo doméstico, contando com os Estados Unidos para importar muitos mais bens e serviços do que eles compram de nós", disse Geithner.

"À medida que os Estados Unidos economizam mais, países que dependem demais de exportações para crescer terão de mudar suas políticas, ou o crescimento global vai perder ritmo e todos nós seremos prejudicados."

"Guerra cambial"

O fato de muitos países manterem suas moedas artificialmente desvalorizadas tem provocado desequilíbrios cambiais e é o principal tema da reunião do FMI e do Banco Mundial, que ocorre até domingo, em Washington.

A moeda mais desvalorizada torna as exportações mais baratas e, assim, mais competitivas no mercado internacional.

Na semana passada, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, usou o termo "guerra cambial" para definir o problema. A expressão acabou ganhando atenção mundial.

No Brasil, a entrada excessiva de capital estrangeiro, atraído pelas altas taxas de juros, tem pressionado uma valorização do real, o que preocupa os exportadores nacionais.

Nesta semana, Mantega anunciou o aumento da alíquota do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) para aplicações de estrangeiros no mercado de renda fixa, em uma tentativa de conter o alto fluxo de capital estrangeiro que tem entrado no país e, assim, evitar maior valorização do real frente ao dólar.

No entanto, os ministros de Finanças reunidos em Washington defendem uma solução global e coordenada para o problema, e não ações individuais de cada país, o que poderia agravar ainda mais os desequilíbrios.

Políticas fiscais

No encontro desta manhã, Mantega propôs a retomada das políticas fiscais nas economias avançadas como forma de resolver o problema.

O ministro criticou os países que, ao manter suas moedas desvalorizadas e não estimular o consumo doméstico, acabariam roubando mercados de economias com bom desempenho, como a brasileira.

Nos países avançados, a recuperação econômica pós-crise mundial tem sido mais lenta do que o desejado e o desemprego permanece alto. A situação é diferente nas economias emergentes, que se recuperaram mais rapidamente da crise e vêm apresentando crescimento vigoroso.

"Países avançados estão adotando políticas monetárias expansionárias, agressivas, para estimular o crescimento", disse Mantega, em seu pronunciamento na reunião do IMFC.

"A perspectiva é de que continuem a seguir essas políticas e podem até mesmo decidir intensificá-las, em resposta à fraca recuperação, a persistência de alto desemprego e, em alguns casos, risco de inflação."

Segundo Mantega, muitos países retiraram as medidas de apoio prematuramente. "Nos países avançados que ainda têm espaço fiscal, cortes de gastos públicos ou aumento de impostos deveriam ser adiados até que a recuperação se consolide", disse.

De acordo com o ministro, alguns países importantes ainda têm espaço para expansão fiscal, o que permitiria que recorressem menos a políticas monetárias.

A possibilidade de retomada de políticas fiscais poderia enfrentar resistência já que muitas economias avançadas, especialmente na Europa, foram forçadas a retirar suas medidas de estímulo diante dos altos níveis de dívida pública e déficits no orçamento.

China

O representante chinês na reunião do IMFC, Zhou Xiaochuan, rebateu também indiretamente as críticas feitas a seu país.

Segundo Zhou, de janeiro a agosto de 2010 o superávit da balança comercial caiu 14,7% em relação ao mesmo período do ano passado e o ritmo de crescimento de reservas diminuiu.

"A saúde do sistema financeiro permaneceu estável, e a moeda chinesa teve apreciação moderada", disse, citando ainda recentes reformas na taxa cambial para permitir maior flexibilidade.

Zhou criticou a dependência de políticas de apoio por parte dos países desenvolvidos.

"Os principais problemas no momento são o lento progresso dos países desenvolvidos em reparar e reformar seus sistemas financeiros, e a contínua dependência de políticas de apoio para a estabilidade do setor financeiro", disse Zhou

"Isso não apenas aumenta a carga fiscal mas, ainda mais importante, reduz a eficácia das políticas monetárias de apoio."

Segundo Zhou, o risco soberano (possibilidade de não pagamento das dívidas por parte dos países) ainda é um perigo e pode prejudicar a estabilidade financeira global, e os países devem implementar planos de consolidação fiscal para evitar esses riscos.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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