Flecha de Lima se despede com carta contundente

No último dia à frente da Embaixada do Brasil em Roma, o embaixador Paulo Tarso Flecha de Lima enviou ao Itamaraty um inventário de seus 46 anos de carreira diplomática, em que faz pesadas críticas ao desempenho e às práticas internas do ministério, bem como às decisões de governo que afetam a política externa brasileira.Nos 14 pontos listados em um texto de oito páginas, Flecha de Lima não economizou adjetivos para tratar dos temas que, a seu ver, impedem uma atuação mais eficiente dos diplomatas.O documento foi enviado na última quarta-feira ao Itamaraty. No dia seguinte, o embaixador deixou o Palazzo Phamphili, onde funciona a representação do Brasil em Roma.Considerado um dos cardeais do ministério, Flecha de Lima foi destituído por conta de sua forte relação com um dos mais ácidos opositores do presidente Fernando Henrique Cardoso.O comunicado do Palácio do Planalto foi enviado poucos dias depois de o embaixador ter vindo ao Brasil para prestar solidariedade ao ex-senador Antônio Carlos Magalhães, logo após a sua renúncia.Aposentado e desligado da carreira, Flecha de Lima se instalou na semana passada em sua casa no Lago Sul, em Brasília, onde pretende continuar residindo.Nesta sexta-feira, ele afirmou ao Estado que pretende retomar a advocacia ? atividade abandonada quando ingressou na diplomacia, em 1955 ? e confirmou o envio do ?telegrama de despedida? ao Itamaraty.?Eu me senti na obrigação, depois de 46 anos de diplomacia e de ter exercido todas as funções possíveis no Itamaraty, de dar uma contribuição?, afirmou. ?Mas não quis criticar ninguém.?Depois de elencar todos os postos que assumiu desde 1955, Flecha de Lima começou a desfiar suas críticas ? sempre amenizadas pela linguagem diplomática.As primeiras foram disparadas contra a fatia do orçamento da União destinada ao Itamaraty. Mais adiante, o embaixador acrescenta uma série de lamúrias em relação aos salários dos diplomatas e dos demais funcionários do ministério, às reduzidas ajudas de custo aos que servem no exterior e até às dificuldades dos diplomatas pagarem aluguéis por residências condizentes com a função de representar o Brasil.?A questão do orçamento do Itamaraty demanda urgente atenção estratégica. O orçamento do Itamaraty é claramente insuficiente para as tarefas que nos são confiadas?, afirma ele no texto. ?É isso mesmo. Embora haja auxílio aos diplomatas que servem no exterior, essa ajuda não é suficiente. O diplomata precisa estar bem instalada porque ele representa o País?, defendeu ao Estado.O embaixador também criticou o fato de o Brasil se manter inadimplente em relação às suas obrigações financeiras em organismos internacionais, como é o caso da Organização das Nações Unidas (ONU). ?Reflexo de nosso empenho aos olhos do mundo como multilateralisnmo deve ser a nossa capacidade de honrar compromissos assumidos, rever compromissos que não consideramos importantes e demonstrar internamente que é de interesse do País, e não apenas do Itamaraty, manter em dia as suas contas?, disse o diplomata.Finalmente, seus ataques foram desferidos contra práticas internas do Itamaraty. Entre elas, as avaliações que permitem a promoção dos diplomatas na carreira, atualmente embasadas em cursos e na defesa de teses acadêmicas.Flecha de Lima defendeu no texto a adoção de um modelo mais eficiente, que incorpore ?itens aparentemente esquecidos?. Entre eles, mencionou a aptidão negociadora, a assiduidade, a pontualidade, a civilidade, a representação efetiva e a capacidade de relacionamento social ? com a ressalva de que isso significa dispêndio de recursos ? e outros.

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