Polícia Civil
Ex-capitão da PM Adriano Magalhães da Nóbrega, apontado como líder do grupo miliciano Escritório do Crime Polícia Civil

Flávio visitava Adriano na cadeia, diz ex-companheiro de miliciano na prisão

Vereador Ítalo Ciba falou ao 'Globo'; senador nega ter relação com miliciano morto em operação policial na Bahia

Redação, O Estado de S.Paulo

20 de fevereiro de 2020 | 12h53

RIO - Ex-companheiro do miliciano Adriano Magalhães da Nóbrega na prisão, o vereador do Rio e sargento da Polícia Militar Ítalo Ciba (Avante) afirmou ao jornal O Globo que o senador Flávio Bolsonaro (sem partido-RJ) visitou os dois “mais de uma vez” na cadeia. A família Bolsonaro tem negado que existia uma relação entre eles e o miliciano morto no dia 9 na Bahia.

O Estado tentou contato com o vereador, mas a assessoria disse que ele não vai mais falar. A equipe dele, no entanto, confirmou as afirmações feitas ao jornal carioca.

Ciba também disse que Adriano frequentava o gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio, a Alerj, quando o senador era deputado estadual. As idas ao local teriam sido feitas a convite de Fabrício Queiroz, ex-chefe de gabinete do filho do presidente Jair Bolsonaro apontado como operador dos desvios de recurso no gabinete. O próprio Adriano seria beneficiado pelo esquema de rachadinha, segundo o Ministério Público fluminense

Ex-capitão do Bope, Adriano teve a mãe e a ex-mulher empregadas na Alerj. Elas seriam funcionárias fantasmas. Além deste vínculo, o então deputado também presenteou o miliciano, em 2005, com a Medalha Tiradentes, maior honraria do Legislativo do Rio. Ele estava preso quando foi homenageado.

O senador afirmou, em nota, que só visitou Adriano na ocasião da entrega da medalha. Ítalo Ciba, contudo, disse que houve mais visitas. Ele e o miliciano ficaram presos juntos em 2003, quando integravam o Grupamento de Ações Táticas (GAT), comandado por Adriano. Foram acusados de homicídio, tortura e extorsão. Foi nesse período, segundo o vereador, que Flávio visitou mais de uma vez a prisão. 

O jornal carioca tentou, via Lei de Acesso à Informação, obter a lista de visitas recebidas pelo então policial militar na cadeia, mas o órgão alegou sigilo. A Alerj disse não ter registros de visitas de Adriano a gabinetes, mas reconheceu que o sistema do prédio anexo, onde ficam os escritórios dos deputados, era falho até o ano passado.

O advogado Frederick Wassef, que defende Flávio, divulgou nota em que diz que o senador "nunca fez visitas a criminosos".  Leia a nota:

O senador Flávio Bolsonaro nunca fez visitas a criminosos. Durante todos os seus mandatos, ele desenvolveu um importante trabalho para garantir Justiça e um atendimento jurídico adequado a policiais que, muitas vezes, enfrentavam acusações infudadas e que não tinham condições de pagar por um advogado. Enquanto deputado estadual, os esforços do parlamentar ajudaram a levar a Defensoria Pública para dentro do Batalhão Prisional, uma medida simples e que corrigiu inúmeras injustiças.

Sobre o ex-policial Adriano da Nóbrega, é fato que não existe relação entre ele, Flávio Bolsonaro e sua família. O ex-oficial, assim como outros policiais, recebeu homenagens, há mais de 15 anos, quando se destacou por feitos heroicos e que garantiram a segurança e a proteção de famílias cariocas. Segurança pública é e sempre foi uma pauta importante para Flávio Bolsonaro.

 

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Corpo de capitão Adriano será submetido a nova necropsia nesta quinta

Objetivo do novo exame é determinar a distância aproximada entre os policiais e Adriano, o trajeto percorrido pelas balas no interior do corpo do ex-PM e o calibre das armas usadas

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

20 de fevereiro de 2020 | 14h31

RIO - O corpo do ex-PM Adriano da Nóbrega passará por um novo exame cadavérico na tarde desta quinta-feira, 20, no Instituto Médico Legal (IML) do Rio de Janeiro. Apontado pela Polícia do Rio como chefe do Escritório do Crime, uma milícia com atuação na zona oeste da capital fluminense, Nóbrega foi morto com dois tiros em Esplanada, no interior da Bahia, no último dia 9.

“Capitão Adriano”, como era conhecido, foi baleado depois que a polícia invadiu o sítio onde ele estava escondido. Segundo a PM, houve troca de tiros. A família de Nóbrega, no entanto, diz que ele foi executado.

A Justiça da Bahia autorizou na noite de terça-feira, a realização do novo exame. O pedido havia sido feito pelo Ministério Público da Bahia e também pela família de Nóbrega. Na decisão, o juiz Augusto Yuzo Jouti determina que o exame seja feito por peritos do IML do Rio, onde o corpo está desde o último domingo. De acordo com a decisão, no entanto, a família e o MP da Bahia podem indicar peritos independentes para acompanhar o exame.

O objetivo do novo exame é determinar a distância aproximada entre os policiais e Adriano, o trajeto percorrido pelas balas no interior do corpo do ex-PM e o calibre das armas usadas. Será possível averiguar também se houve tortura, como foi alegado pelo senador Flavio Bolsonaro (sem partido-RJ).

Segundo os promotores, tais questões não foram devidamente esclarecidas na primeira necropsia, feita no IML de Alagoinha, cidade vizinha à Esplanada. Com esses esclarecimentos, acreditam, será possível determinar se houve, de fato, uma troca de tiros ou uma execução.

A Secretaria de Segurança da Bahia informou que estão pendentes ainda os resultados de exames importantes feitos no Estado. São eles o residuográfico (que determina se Nóbrega, de fato, fez algum disparo de arma de fogo), o das marcas de bala no escudo usado pela PM na invasão do sítio (o que poderia indicar uma reação) e o da perícia da casa onde ele foi alvejado.

Adriano da Nóbrega é investigado no Rio por sua participação no Escritório do Crime, o braço armado da milícia. O MP também apura a ligação do ex-oficial com o esquema de rachadinha (repasse dos salários ao parlamentar)  no gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro. A mãe de Nobrega, Raimunda Veras Magahães, e a ex-mulher Danielle Mendonça, trabalharam no gabinete. O então deputado estadual também assinou projeto que resultou na concessão ao ex-policial da Medalha Tiradentes, mais elevada homenagem do Legislativo fluminense. Na ocasião, Adriano da Nóbrega estava preso, respondendo a processo por assassinato, acusação de que, posteriormente, se livrou.

Nóbrega estava foragido havia cerca de um ano, quando foi localizado na Bahia. O corpo foi trazido para o Rio de Janeiro na terça-feira à noite, em voo comercial. A mãe do ex-oficial pretendia cremá-lo já na manhã de quarta-feira, no Memorial do Carmo, no Caju, mas foi impedida pela Justiça.

Na madrugada de quarta-feira, a juíza Maria Izabel Pena Pieranti, do Plantão Judiciário, sustentou que o pleito da família não atendia aos requisitos da lei. O requerimento, segundo ela, não estava acompanhado de documentos imprescindíveis, como a guia de remoção do cadáver e o registro de ocorrência. Além disso, alegou, a morte não se deu por causas naturais: “acaso fosse deferida a cremação, (...) inviabilizadas estariam eventuais providências a serem levadas a efeito pela autoridade policial”.

Na tarde de quarta-feira, o juiz Gustavo Gomes Kalil, da 4ª Vara Criminal do Rio, proferiu uma nova decisão contra a cremação, desta vez no processo referente à Operação Intocáveis, do Ministério Público do Rio. A ação apura a participação de Nóbrega no Escritório do Crime.

Na quinta-feira pela manhã, a viúva do ex-capitão, Julia Emília Mello Lotufo, pediu a realização de uma perícia particular no corpo. Como o advogado, ela acredita que o marido pode ter sido executado e não quer enterrar o corpo sem tirar isso a limpo. A Justiça do Rio negou o pedido.

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Relembre as declarações da família Bolsonaro sobre a morte do capitão Adriano

Presidente Jair Bolsonaro culpou PM da Bahia; senador Flávio Bolsonaro rechaçou tentativas de vinculá-lo à milícia

Bruno Nomura, O Estado de S.Paulo

20 de fevereiro de 2020 | 05h00
Atualizado 21 de fevereiro de 2020 | 11h50

A morte do miliciano Adriano Magalhães da Nóbrega, o capitão Adriano, tem sido assunto de declarações da família do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). O ex-capitão do Bope e miliciano morto em uma operação policial no interior da Bahia está envolvido em uma investigação que implica o clã Bolsonaro.

Segundo o Ministério Público do Rio, o capitão Adriano se beneficiou de um suposto esquema de “rachadinha” no gabinete de Flávio Bolsonaro, então deputado estadual, na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). A mãe e a ex-mulher dele, Raimunda Veras Magalhães e Danielle Mendonça da Costa Nóbrega, foram nomeadas assessoras de Flávio durante o período investigado. Elas teriam transferido parte de seus salários para Fabrício Queiroz, então assessor parlamentar e considerado o operador do esquema.

Flávio também é o elo entre o miliciano e a família Bolsonaro em outra história. Em 2005, capitão Adriano foi homenageado pela Alerj a pedido de Flávio. O miliciano estava preso à época, acusado de matar um guardador de carros.

Relembre, em ordem cronológica, o que disse a família Bolsonaro sobre a morte do capitão Adriano:

09/02 - Capitão Adriano é morto em Esplanada, na Bahia

Ex-capitão do Bope e apontado como chefe da milícia Escritório do Crime, Adriano Magalhães da Nóbrega foi morto em uma operação do Batalhão de Operações Policiais da Bahia, com apoio do setor de inteligência da Polícia Civil do Rio. Capitão Adriano, como era conhecido, foi localizado na área rural do município de Esplanada, no interior da Bahia. Segundo a polícia, houve troca de tiros e Adriano foi atingido por dois disparos.

12/02 - Flávio Bolsonaro quebra o silêncio

Três dias depois da morte do capitão Adriano, Flávio se manifesta publicamente sobre o caso nas redes sociais. É a primeira vez que alguém da família do presidente fala do assunto.

 

15/02  - Presidente Bolsonaro sai em defesa do filho

Em um evento no Rio, o presidente Bolsonaro defendeu a homenagem ao capitão Adriano solicitada por Flávio em 2005 e disse que foi ele quem pediu a condecoração. “Naquele ano (2005, quando o então policial estava preso e era processado por matar um civil), ele é um herói da Polícia Militar”, disse o presidente.

Bolsonaro acusou a polícia da Bahia pela morte de Adriano.

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Quem foi responsável pela morte do capitão Adriano foi a PM da Bahia do PT. Precisa dizer mais alguma coisa?
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A menção ao PT é uma referência ao governador da Bahia, Rui Costa, filiado ao partido.

Nas redes sociais, Bolsonaro relacionou a morte de Adriano ao assassinato do então prefeito petista de Santo André, Celso Daniel, em 2002. 

 

15/02 - Flávio se manifesta novamente

Flávio publicou um vídeo gravado no mesmo evento ao qual o presidente compareceu no Rio. Em entrevista a jornalistas, o senador aparece ao lado do pai e diz que a condecoração ao capitão Adriano é um fato antigo. “Não adianta querer me vincular à milícia”, criticou.

 

15/02 - Bolsonaro x Rui Costa

No fim da noite, Bolsonaro voltou a criticar Rui Costa em uma nota publicada nas redes sociais. O governador da Bahia respondeu aos ataques de horas antes e sugeriu que o capitão Adriano mantinha “laços de amizade com a Presidência”. Bolsonaro rebateu e afirmou que é Costa que mantém “fortíssimos laços de amizade com bandidos”, mencionando a relação do governador com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ambos do PT.

Bolsonaro voltou a justificar a condecoração do capitão Adriano pelo filho Flávio, defendendo que o homenageado não tinha nenhuma sentença condenatória transitada em julgado até a data de sua “execução”. Reafirmou ainda que a PM da Bahia, sob o comando do governo do Estado, procurou a “provável execução sumária” do capitão Adriano, relacionando novamente o caso ao assassinato do prefeito Celso Daniel.

 

16/02 - “Bom termo”

Na entrada do Palácio da Alvorada, Bolsonaro voltou a ser questionado sobre o tema. Afirmou que já havia dito o que precisava dizer e que esperava que as investigações sobre a morte do capitão Adriano chegassem a um “bom termo”.

18/02 - Presidente cobra perícia independente

Bolsonaro publicou, logo no início da manhã, questionamentos sobre a morte do capitão Adriano. Falou em “queima de arquivo”, relacionou as investigações ao assassinato da vereadora do Rio Marielle Franco (PSOL) e colocou em dúvida a perícia nos celulares do miliciano: “Poderiam forjar trocas de mensagens e áudios recebidos? Inocentes seriam acusados do crime?”

Mais tarde, a jornalistas, o presidente cobrou uma perícia independente no corpo de Adriano.

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Pelo o que estou sabendo, o Ministério Público Federal da Bahia, não tenho certeza, vai cobrar uma perícia independente hoje. É o primeiro passo para começar a desvendar as circunstâncias em que ele (Adriano) morreu e por quê. Poderia interessar para alguém a queima de arquivo. Contra quem ele teria para falar? Contra mim que não era nada. Contra mim teria certeza que os cuidados seriam outro para preservá-lo vivo.
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Sobre a possibilidade de federalizar o caso, Bolsonaro afirmou que está em uma “sinuca de bico". "Podem achar que, ao federalizar, eu teria alguma participação, alguma influência no desfecho, na investigação. É zero. Se o (ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio) Moro achar que deve federalizar, a decisão é dele. Eu não vou falar para ele não ou sim", disse o presidente.

18/02 - Eduardo se manifesta

“Tem gente que não quer uma investigação decente, por quê?”, questionou o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) em uma postagem que repercute uma reportagem da revista Veja e as perguntas publicadas pelo pai horas antes.

 

18/02 - Flávio ironiza perícia baiana

O senador Flávio voltou às redes com um vídeo do suposto cadáver do capitão Adriano. São 21 segundos de imagens sem áudio. O corpo é apresentado de costas com uma etiqueta em que é possível ler “Adriano Magalhães”. A publicação insinua que o miliciano foi torturado antes de ser morto, versão descartada pela necropsia oficial.

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Perícia da Bahia (governo PT), diz não ser possível afirmar se Adriano foi torturado. Foram 7 costelas quebradas, coronhada na cabeça, queimadura com ferro quente no peito, dois tiros a queima-roupa (um na garganta de baixo p/cima e outro no tórax, que perfurou coração e pulmões.
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Na perícia oficial, não há menção à coronhada ou à queimadura, e os tiros não teriam sido disparados à queima-roupa, como escreveu Flávio. Os ferimentos seriam compatíveis com o impacto no corpo causado por tiros de fuzil, em razão da alta energia cinética dos projéteis. O Estado apurou que o presidente Bolsonaro teria concordado com a publicação do vídeo.

20/02 - Presidente minimiza visitas de Flávio à prisão

O vereador, sargento da PM do Rio e ex-colega de Adriano na prisão, Ítalo Ciba (Avante) afirmou ao jornal O Globo que Flávio visitou o miliciano "mais de uma vez" na cadeia. A assessoria de Ciba confirmou as informações ao Estado.

Questionado, o presidente minimizou a declaração.

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Para começar, eu já fui, olha só, bota aí, eu já fui várias vezes no BEP, Batalhão Especial Prisional lá no Rio de Janeiro, eu já fui no presídio da Marinha no passado também, está certo?
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20/02 - Flávio segue a linha do pai

Flávio não mencionou diretamente as declarações do vereador Ítalo Ciba, mas alegou nas redes sociais que visitou várias vezes o Batalhão Especial Prisional do Rio, mencionado pelo pai, para "ouvir PMs presos injustamente".

 

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Governador da Bahia diz que vídeo de autópsia de miliciano divulgado por Flávio é falso

Segundo Rui Costa (PT), imagens não foram feitas nem no IML baiano nem no Rio de Janeiro; ele cita a falta de marcas de bala como argumento

Redação, O Estado de S.Paulo

20 de fevereiro de 2020 | 00h23

O governador da Bahia, Rui Costa (PT), disse nesta quarta-feira, 19, que o vídeo que o senador Flávio Bolsonaro (sem partido-RJ) atribuiu à perícia de Adriano Magalhães da Nóbrega, o capitão Adriano, é falso. Apontado como chefe da milícia Escritório do Crime e foragido da Justiça, Adriano foi morto por policiais baianos em 9 de fevereiro. 

"São falsas (as imagens). Posso garantir que aquilo não é nem do IML da Bahia nem do IML do Rio. Não são imagens dele. A imagem (verdadeira) do corpo tem uma saída de bala nas costas e as costas dele (corpo que aparece no vídeo) estão lisas", disse Costa.

Segundo o governador, a investigação da morte de Adriano está sendo investigada pelo Ministério Público.

Na tarde desta quarta-feira, Flávio publicou um vídeo de 21 segundos que mostra o corpo de um homem virado de costas sendo examinado. Em uma etiqueta, é possível ler o nome de Adriano e o da cidade de Esplanada, onde ele foi morto.

Junto com o vídeo, Flávio escreveu: “Perícia da Bahia (governo PT), diz não ser possível afirmar se Adriano foi torturado. Foram 7 costelas quebradas, coronhada na cabeça, queimadura com ferro quente no peito, dois tiros a queima-roupa (um na garganta de baixo p/cima e outro no tórax, que perfurou coração e pulmões”.

As informações apresentadas por Flávio não correspondem com dados da Secretaria de Segurança Pública da Bahia. O laudo elaborado pelo Instituto Médico-Legal de Alagoinhas, a 135 quilômetros de Salvador, aponta que capitão Adriano foi morto por dois tiros de fuzil, disparados a, no mínimo, um metro e meio de distância.

A perícia menciona ainda “seis fraturas nas costelas”, “dois pulmões destruídos” e o “coração dilacerado”. Não há menção à coronhada ou à queimadura, e os tiros não teriam sido disparados à queima-roupa, como escreveu Flávio. Os ferimentos seriam compatíveis com o impacto no corpo causado por tiros de fuzil, em razão da alta energia cinética dos projéteis.

A suspeita de execução foi levantada em uma reportagem da revista Veja, publicada antes da divulgação da autópsia oficial. Nela, as supostas coronhada e queimadura são mencionadas e especialistas ouvidos pela revista apontam a possibilidade de os disparos terem sido feitos à queima-roupa. A etiqueta que aparece no vídeo divulgado por Flávio é a mesma que aparece nas fotos obtidas pela Veja.

Logo após a publicação do vídeo, o secretário de Segurança Pública da Bahia, Maurício Barbosa, disse que a autenticidade das imagens não era reconhecida pela perícia da Bahia e nem pela perícia do Rio de Janeiro.

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Reação de Bolsonaro à morte de 'capitão Adriano' faz parte de guerra de narrativas

Círculo próximo do presidente avalia que ele se adiantou a uma possível exploração política do caso por parte dos governadores adversários Rui Costa (PT), da Bahia, e Wilson Witzel (PSC), do Rio

Felipe Frazão, O Estado de S.Paulo

18 de fevereiro de 2020 | 21h08

BRASÍLIA - A reação do presidente Jair Bolsonaro e de seus filhos à morte do ex-oficial da Polícia Militar do Rio Adriano Magalhães da Nóbrega, conhecido como “capitão” Adriano, faz parte de uma guerra de narrativas que envolve a família Bolsonaro e seus opositores. Na prática, o círculo próximo do presidente avalia que ele se adiantou a uma possível exploração política do caso por parte dos governadores adversários Rui Costa (PT), da Bahia, e Wilson Witzel (PSC), do Rio.

Policiais que respondem aos dois governadores conduziram a operação de busca que terminou com a execução de “capitão” Adriano. Oficialmente, não há informações sobre a atuação de agentes federais nas investigações da morte do ex-policial acusado de chefiar a milícia “Escritório do Crime”, radicada na favela de Rio das Pedras, na zona oeste do Rio. No ano passado, ex-policiais militares acusados de fazer parte da organização criminosa foram presos na investigação do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL), adversária política dos Bolsonaro.

O presidente e os filhos têm dito que existe potencial de “armação” contra eles na apuração da morte de Adriano e de seu elo com a milícia de Rio das Pedras e organizaram uma ofensiva de ataque. Há vínculos entre o miliciano morto e a família Bolsonaro, embora todos neguem que tenham ciência de qualquer atividade criminosa.

Nóbrega era parceiro de batalhão de Fabrício Queiroz, o ex-PM que virou assessor do senador Flávio Bolsonaro (sem partido-RJ) e comandava, segundo o Ministério Público do Rio, um esquema de lavagem de dinheiro e peculato a partir da prática de “rachadinha” – nome popular para a apropriação de parte dos salários de servidores nomeados em gabinetes parlamentares. Quando o senador era deputado estadual no Rio, parentes de Adriano foram empregados em cargos de confiança no gabinete de Flávio. Além disso, o ex-policial -- que foi da tropa de elite da PM do Rio, o Batalhão de Operações Especiais (Bope), recebeu homenagem dos Bolsonaro em discursos no Legislativo, apesar de suspeito de cometer crimes enquanto vestia a farda.

O presidente tem sido abastecido pela rede de policiais fiéis à família com informações da investigação. Dias depois de a revista VEJA publicar fotos com detalhes periciais que lançaram dúvida sobre a circunstância da morte -- a versão oficial é que houve uma troca de tiros --, tanto Bolsonaro como Flávio deram sinais de acesso privilegiado a dados do inquérito. O pedido de nova autópsia por parte do Ministério Público da Bahia, por exemplo, foi antecipado pelo presidente e o senador publicou nas redes sociais um vídeo mostrando o corpo manipulado por legistas no Instituto Médico Legal. O ato do senador pode ser considerado um crime por expor o cadáver, avaliou o professor de Direito da Fundação Getúlio Vargas Michael Mohallem. "Agride a memória do morto", afirmou ele.

O Estado apurou que Bolsonaro concordou com a postagem do vídeo, sugerindo que Adriano foi torturado antes de ser morto, versão descartada pela necrópsia oficial.

Com receio do que pode surgir, o clã Bolsonaro passou a cobrar publicamente, depois de alguns dias de silêncio, a preservação do cadáver. Além de uma necropsia “independente”, eles também pedem uma “perícia imparcial” nos 13 aparelhos de telefone celular e sete chips apreendidos. Lançam de antemão, ainda, suspeitas sobre dados que poderão ser extraídos desses telefones, atualmente sob custódia do Ministério Público do Rio, responsável pela Operação Intocáveis. Não é só: com a estratégia, o próprio presidente ajuda a difundir dúvidas sobre o que ocorreu na cena do crime, a partir das lesões encontradas no corpo, que podem indicar não apenas um tiroteio com resistência à prisão, mas indícios de um assassinato e até tortura.

Para o advogado Paulo Emílio Catta Preta, representante da família de Adriano em Brasília, o laudo pericial contém uma “coleção de estranhezas” e “reforça a possibilidade de execução”. O defensor citou até mesmo uma perfuração no pescoço, um corte no tórax, outro na testa -- “a sugerir uma coronhada”, de acordo com ele --, sete costelas quebradas, além de marcas na pele que podem ter sido provocadas pelo contato do cano de armas longas com o corpo, um indicativo de tiros a curta distância.

Catta Preta advoga em Brasília e nega contato com os Bolsonaro, embora os discursos estejam afinados em alguns pontos, como na defesa da preservação do corpo -- inicialmente, a família havia optado pela cremação, como seria desejo do ex-integrante do Bope -- e de uma nova perícia.

Apesar de idas e vindas e também de decisões contraditórias das Justiças do Rio e da Bahia, a federalização do crime, por enquanto, não está na ordem do dia do governo, tampouco da família. Se isso ocorresse, faria com que a Polícia Federal -- subordinada ao ministro da Justiça, Sérgio Moro -- entrasse na investigação. Guardiã dos segredos e da intimidade de Adriano, a viúva Júlia Emília Mello Lotufo não pediu proteção ao governo federal nem à do Rio, de acordo com o advogado Paulo Emílio Catta Preta./COLABOROU TÂNIA MONTEIRO.

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Tiros que mataram capitão Adriano foram dados a pelo menos 1,5 metro de distância, diz IML

Miliciano foi morto por dois tiros de fuzil, teve os seus pulmões destruídos e o coração dilacerado

Fernanda Santana, Especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

14 de fevereiro de 2020 | 18h25
Atualizado 14 de fevereiro de 2020 | 22h41

O miliciano Adriano Magalhães da Nóbrega foi morto por dois tiros de fuzil, disparados a, no mínimo, um metro e meio de distância, e chegou ao Instituto Médico-Legal de Alagoinhas, a pouco mais de 135 quilômetros de distância de Salvador, com os dois pulmões destruídos e o coração dilacerado. Os detalhes foram divulgados na tarde de ontem, na sede do Departamento de Polícia Técnica (DPT), em Salvador.

Pela primeira vez depois da morte de Adriano, o responsável pela autópsia do corpo, Alexandre Silva, perito médico legista, deu detalhes sobre o estado do miliciano. A entrevista coletiva reuniu, também, o diretor do IML, Mário Câmara, e Elson Jefferson Neves da Silva, diretor geral do DPT-BA. 

“Eram dois disparos de arma de fogo", explicou Silva. “Teve um primeiro, que passou por baixo do peito, saiu rasgando o pescoço, e entrou na submandibular. Eu encontrei o projétil na região do pescoço. O segundo foi na região da clavícula. Esse aqui entrou e saiu nas escápulas. Essas foram as lesões provocadas por armas de fogo.”

O caminho das balas 

Os tiros foram de fuzil, determinou a autópsia, mas o calibre ainda não foi determinado. O laudo parcial divulgado pela Secretaria de Segurança Pública da Bahia (SSP-BA) ainda aponta seis fraturas nas costelas. 

Os peritos negaram, diversas vezes, que o disparo tenha ocorrido numa distância de menos de um metro e meio. “Se você pega um fuzil calibre 762, por exemplo, bota perto da mandíbula, vai ter mandíbula para tudo que é lugar”, afirmou Mario. Logo depois, comparou: “Assistam ao assassinato de John Kennedy, explodiu a cabeça dele, isso o sujeito [o assassino] lá longe”. 

Não se sabe quanto tempo, exatamente, Adriano ainda conseguiu sobreviver depois dos disparos. Mas os peritos acreditam que tenha sido de 10 a 15 minutos. “É por isso que muitos policiais atiram até derrubar. O cérebro continua vivo”, tentou justificar Câmara. Depois, o corpo do miliciano foi levado para o IML de Alagoinhas, a 72 quilômetros de Esplanada. A liberação aconteceu no dia seguinte, e não se sabe, depois da retirada pela família, onde ele está. É o que afirmou a SSP-BA ao Estado. A família tentou autorização para cremar o corpo, mas a Justiça negou, na última terça (12).

O perito também encontrou uma área de equimose avermelhada no peito e na testa uma lesão “cortocontusa” – atrito que machuca e corta, como quando uma pessoa recebe um forte cotovelada ou um murro, por exemplo. As equimoses são causadas por vasos rompidos, abaixo da derme (camada mais superficial da pele), causada por uma superfície, quando Adriano ainda estava vivo. “Foi de forma passiva ou ativa? Não sei. Isso foi antes dele morrer”, pontuou Câmara. “Ele bateu, provavelmente, em alguma quina”, complementou.

Os peritos evitaram calcular a distância exata do tiro. Disseram que é “impossível” estimar a distância, exceto se conseguirem recuperar a arma que fez o disparo, usarem munição similar e disparar contra um alvo repetidas vezes até que se faça uma marca igual na “zona de tatuagem” – causada pela absorção de partículas de pólvora que atingem o corpo da pessoa atingida por um tiro. Câmara reforçou, em quase todas as respostas, que a distância está mais para “longa” – de um metro e meio a dois – que “curta”.

Ainda restam três laudos – como o de balística – a ser divulgados, mas nenhum dos peritos estipulou prazo.

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Bolsonaro nega ligação com milícia e acusa 'PM da Bahia do PT' de matar capitão Adriano

Presidente disse que Adriano era 'herói' quando recebeu homenagem do filho Flávio, em 2005

Denise Luna, O Estado de S. Paulo

15 de fevereiro de 2020 | 17h13
Atualizado 20 de fevereiro de 2020 | 16h44

RIO - O presidente Jair Bolsonaro negou neste sábado, 15, ter ligação com milícias e responsabilizou a “PM da Bahia, do PT” pela morte de Adriano Magalhães da Nóbrega, o capitão Adriano, que era procurado sob acusação de chefiar no Rio a milícia Escritório do Crime. O mandatário afirmou que conheceu o miliciano em 2005, nunca mais teve contato com ele e citou a imprensa para afirmar que a morte do ex-PM foi “queima de arquivo”. O ex-policial foi morto pela Polícia Militar baiana, em cerco em Esplanada (BA), no domingo, 9. Fora localizado após fugir, por mais de um ano, da Polícia fluminense.

“Eu não conheço a milícia do Rio de Janeiro, não existe nenhuma ligação minha com a milícia do Rio de Janeiro, não existe nenhuma ligação minha com milícia no Rio de Janeiro, zero, zero”, disse o presidente, quando lhe disseram que Adriano era acusado de chefiar um grupo miliciano na zona oeste do Rio. Pouco antes, dissera desconhecer a vida pregressa do ex-policial. “Naquele ano (2005, quando o então policial estava preso e era processado por matar um civil), ele é um herói da Polícia Militar.”  Afirmou, porém, que “as pessoas mudam, para o bem ou para o mal mudam.”

A ex-mulher de Adriano, Danielle Mendonça, e a mãe dele, Raimunda Veras Magalhães, foram assessoras de Flávio Bolsonaro, filho mais velho do presidente, no Legislativo fluminense. As duas estão entre os investigados pelo Ministério Público no suposto esquema de “rachadinha” (devolução de salários ao parlamentar) que teria funcionado no gabinete do então deputado estadual. O MP investiga os crimes de peculato (apropriação de recursos públicos por servidor), lavagem de dinheiro e organização criminosa.

“Quem foi responsável pela morte do capitão Adriano foi a PM da Bahia do PT. Precisa dizer mais alguma coisa?”, afirmou o presidente, após inaugurar nova alça de acesso entre a Linha Vermelha e a Ponte Rio Niterói. “Não tem nenhuma sentença julgada condenando o capitão Adriano por nada, sem querer defender.”

Em 2005, Adriano estava na prisão quando foi agraciado com a Medalha Tiradentes, mais alta condecoração da Assembleia Legislativa, a pedido de Flavio. “Eu pedi pra ele (Flávio) condecorar, ele (Adriano) é um herói”, disse o presidente. Bolsonaro afirmou que o filho condecorou centenas de policiais e o chamou para falar do episódio.

"Isso tem 15 anos", disse Flavio. O senador lembrou que fez questão de pedir para não cremarem o corpo de Adriano (manifestou-se pelo Twitter, quando a Justiça já tinha proibido a cremação, a pedido do Ministério Público) já que "pelo que  soube e como mostrou a revista Veja, ele foi torturado.”

“Para falar o quê? Com certeza não é pra falar sobre nós, porque não tem o que falar contra nós, não temos envolvimento nenhum com milícia", disse Flavio, demonstrando exaltação.

O governador da Bahia, Rui Costa, respondeu a afirmação pelo Twitter. Disse que o governo baiano "não mantém laços de amizade nem presta homenagens a bandidos nem procurados pela Justiça". Afirmou que "a Bahia luta contra e não vai tolerar nunca milícias nem bandidagem" e terminou por dizer que agentes da lei têm direto de defender suas vidas quando colocadas em risco, "mesmo que os marginais tenham laços de amizade com a Presidência".

A ex-mulher e a mãe de Adriano foram nomeadas no gabinete por indicação de Fabrício Queiroz, investigado por supostamente operar o esquema de “rachadinha”. Bolsonaro e o filho encerraram a entrevista quando lhe perguntaram por que as duas foram contratadas.

O Escritório do Crime foi investigado nas operações Os Intocáveis e Os Intocáveis II. Explora grilagem, promove extorsões e comete assassinatos por encomenda. Ronnie Lessa, preso sob acusação de matar a vereador Marielle Franco (PSOL) e o motorista Anderson Gomes, em março de 2018, é ligado a essa milícia.

Depois da inauguração da alça viária, Bolsonaro e Flávio para um evento evangélico do pastor RR Soares, na Enseada de Botafogo, zona sul do Rio. Lá, o presidente dançou no palco ao lado do prefeito do Rio, Marcelo Crivella (PSC). Veja o vídeo:

Outro lado. Procurada para comentar as declarações, a Secretaria de Segurança Pública da Bahia afirmou que a polícia agiu dentro da legalidade. "A necropsia mostrou que não houve nenhum tipo de tortura e que no confronto Adriano foi atingido por dois disparos", disse a pasta. 

Presidente rebate governador Rui Costa

Na noite deste sábado, após as manifestações do governador da Bahia, Rui Costa, sobre as falas do presidente Bolsonaro, o Palácio do Planalto divulgou a seguinte nota:

O atual governador da Bahia, Rui Costa, não só mantém fortíssimos laços de amizade com bandidos condenados em segunda instância, como também lhes presta homenagens, fato constatado pela sua visita ao presidiário Luís Inácio Lula da Silva, em Curitiba, em 27 junho de 2019.

Este Presidente, ao inaugurar o aeroporto de Vitória da Conquista, em 23 de julho de 2019, teve negada, por parte do governador, a presença da Polícia Militar da Bahia, para prestar apoio nas medidas de segurança para a população. 

A atuação da PMBA, sob tutela do governador do Estado, não procurou preservar a vida de um foragido, e sim sua provável execução sumária, como apontam peritos consultados pela revista Veja. É um caso semelhante à queima de arquivo do ex-prefeito Celso Daniel, onde seu partido, o PT, nunca se preocupou em elucidá-lo, muito pelo contrário. 

O então tenente Adriano foi condecorado em 2005. Até a data de sua execução, 09 de fevereiro de 2020, nenhuma sentença condenatória transitou em julgado em desfavor do mesmo. 

É irônico o governador petista falar de más companhias quando, nos últimos anos, os principais dirigentes nacionais do PT foram condenados e presos na Operação Lava Jato.

Os brasileiros honestos querem os nomes dos mandantes das mortes do prefeito Celso Daniel, da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes, do ex-capitão Adriano da Nóbrega, bem como os nomes dos mandantes da tentativa de homicídio a Jair Bolsonaro.

Jair Messias Bolsonaro

Presidente da República Federativa do Brasil

 

COLABOROU CAIO SARTORI, ENVIADO ESPECIAL A SALVADOR

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Suspeito de ligação a caso Marielle, 'capitão Adriano' morre em troca de tiros com a polícia

Apontado como chefe da milícia 'Escritório do Crime', Adriano Magalhães da Nóbrega estava foragido desde janeiro do ano passado

Caio Sartori e Ricardo Galhardo, O Estado de S.Paulo

09 de fevereiro de 2020 | 10h37

RIO - O ex-policial militar Adriano Magalhães da Nóbrega, conhecido como "capitão Adriano", foi morto em uma troca de tiros com a polícia na manhã deste domingo, 9, em Esplanada, no interior da Bahia. Foragido desde janeiro do ano passado, ele é apontado como chefe do "Escritório do Crime", milícia suspeita pela morte da vereadora do Rio Marielle Franco (PSOL) e seu motorista Anderson Gomes, assassinados em março de 2018.

Adriano trabalhou no 18º Batalhão da PM com Fabrício Queiroz, o ex-assessor de gabinete de Flávio Bolsonaro, investigado por lavagem de dinheiro no esquema de "rachadinha" na Assembléia Legislativa do Rio (Alerj). A mãe e a mulher de Nóbrega trabalhavam no gabinete do filho do presidente e teriam sido contratadas por Queiroz. Segundo o Ministério Público, o milicano ficava com parte do pagamento delas.

Após receber informações que Nóbrega estava na Bahia, equipes do Serviço de Inteligência da polícia do Estado passaram a monitorá-lo. Há duas semanas, policiais fizeram uma busca em uma mansão na Costa do Sauípe, no Litoral da Bahia, onde encontraram apenas documentos falsos. O miliciano teria fugido antes da chegada dos policiais. 

Neste domingo, segundo informações da Secretaria de Segurança Pública da Bahia, Nóbrega trocou tiros com os policiais. Baleado, ele foi socorrido em um hospital da região, mas não resistiu. Com o foragido foi encontrada uma pistola austríaca calibre 9mm.

"Buscamos efetuar a prisão, mas o procurado preferiu reagir atirando", afirmou o secretário da Segurança Pública da Bahia, Maurício Teles Barbosa. 

Apesar de ser suspeito de participar da morte de Marielle, "capitão Adriano" era procurado pela Justiça por causa de outro crime. Ele foi denunciado pelo Ministério Público por atuar com grilagem de terras; compra, venda e aluguel irregular de imóveis; cobrança irregular de taxas da população local; e extorsão e na receptação de mercadoria roubada em Rio das Pedras.

Ligações com esquema de "rachadinha"

Na última etapa da investigação que mira Flávio Bolsonaro, o MP do Rio apresentou à Justiça conversas de WhatsApp entre Adriano e sua ex-esposa, Danielle da Nóbrega, que era funcionária do gabinete do então deputado estadual. Nesses diálogos, o miliciano afirmava que também se beneficiava do suposto esquema de "rachadinha", quando ela reclama de sua exoneração. 

Danielle e a mãe de Adriano, Raimunda Veras Magalhães, foram exoneradas por Flávio quando o filho do presidente Jair Bolsonaro e Queiroz ficaram sabendo da investigação. 

Além de empregar as parentes do miliciano, Flávio já o homenageou com a Medalha Tiradentes, honraria mais alta do Legislativo do Rio, em 2005, quando o então policial estava preso acusado de homicídio. Adriano foi expulso da Polícia Militar por causa de envolvimento com a contravenção. 

O Escritório do Crime, grupo que Adriano liderava, foi alvo da Operação Os Intocáveis, em janeiro de 2019, e de um desdobramento dela neste mês. Ele estava foragido desde essa primeira operação, há mais de 1 ano.

Adriano e Queiroz ficaram amigos no Batalhão de Jacarepaguá da PM. Foram acusados juntos, inclusive, de um homicídio, que registraram como "auto de resistência". O caso está aberto até hoje.  

Queima de arquivo

Adriano estava convencido de que queriam matá-lo, não prendê-lo. Nos últimos dias, tanto ele quanto sua esposa relataram que tinham certeza de que havia um plano de “queima de arquivo” em curso contra o ex-policial militar

O ex-capitão do Bope nunca havia falado diretamente com seu advogado, Paulo Emilio Catta Preta, até a quarta-feira passada. Foi quando, preocupado com os últimos movimentos da polícia, ligou para ele e relatou que tinha “certeza” de que queriam matá-lo para “queimar arquivo”. A viúva do miliciano também fez o mesmo relato. 

PM do Rio atuou na operação

Dois policiais do Rio de Janeiro participaram da operação de busca a Adriano Nóbrega. Segundo fontes da polícia baiana, no entanto, os policiais fluminenses não participaram do confronto que culminou com a morte do capitão.

De acordo com essas fontes, a polícia da Bahia deu suporte à investigação que já vinha em curso há quase dois anos no Rio. As principais informações foram colhidas por policiais flumimenses que estavam no encalço de Nóbrega.

Ainda segundo fontes da polícia baiana, os responsáveis pela investigação no Rio estavam monitorando as movimentações de Adriano, descobriram que ele estava na Bahia e pediram a colaboração. A partir de então o setor de inteligência da polícia baiana passou a integrar a investigação descobrindo que ele havia fugido da Costa do Sauípe, onde estava com a família em um condomínio, e se escondido em uma fazenda em Esplanada, no interior do Estado. 

A polícia da Bahia vai investigar agora possíveis ligações políticas do dono da fazenda onde Adriano foi morto.

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