Gilson Teixeira/Divulgação
Gilson Teixeira/Divulgação

Flávio Dino: ‘Bolsonaro só avalia as coisas com as lentes de sua ideologia’

Governador do Maranhão afirma que presidente usa critérios pessoais para escolher Nordeste como alvo de seus ataques

Entrevista com

Flávio Dino, governador do Maranhão (PCdoB)

Ricardo Galhardo, O Estado de S.Paulo

06 de agosto de 2019 | 17h42

O governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), afirmou nesta terça-feira, 6, que o presidente Jair Bolsonaro usa critérios pessoais e ideológicos ao escolher os governadores do Nordeste como objeto de seus ataques. Segundo ele, Bolsonaro “só avalia as coisas com a lente da sua ideologia” e faz o governo “mais ideológico da história do Brasil.”

Em entrevista ao Estado, publicada na edição desta terça-feira, Bolsonaro disse que, em seu entendimento, governadores do Nordeste agem para “dividir o País”, enquanto ele trabalharia para unir. Para Dino, Bolsonaro “odeia o pluralismo político”. “Só pode ser essa a causa” afirmou o governador do Maranhão. 

A seguir, os principais trechos da entrevista:

O presidente Jair Bolsonaro disse, em entrevista ao Estado, que os governadores do Nordeste agem para dividir o Brasil. O que o senhor tem a dizer sobre essa declaração?

Na realidade o que ocorre é que o presidente da República tem se dedicado pouco a acompanhar o que temos no Brasil e por isso mesmo ignora que, na verdade, existem quatro consórcios de governadores funcionando (Brasil Central, Amazônia, Nordeste e Sul-Sudeste). Os consórcios estão previstos na Constituição e a pergunta é: por que apenas o consórcio do Nordeste estaria dividindo o país? A resposta é: porque o presidente da República só avalia as coisas com a lente da sua ideologia. É o governo mais ideológico da história do Brasil. Ele usa critérios ideológicos para atacar apenas um dos consórcios, sendo que é lógico que nem o consórcio do Nordeste nem os outros querem dividir o Brasil. Eles querem ajudar o Brasil.

O senhor vê algum motivo de ordem eleitoral? O Nordeste foi a região onde Bolsonaro teve menos votos.

Ele externou que a crítica dele era politiqueira, eleitoreira, ideológica. Ele não faz uma leitura imparcial, mas baseada em seus ódios e sentimentos pessoais. Eu lamento profundamente que seja assim porque nós todos governadores desejamos uma relação de diálogo. Tanto é que nas duas reuniões que ele convidou os nove governadores do Nordeste estiveram presentes. Agora, diálogo não é rendição, adesão, submissão. É isso que queremos sublinhar. Estamos prontos a colaborar, manter relações institucionais, mas nenhum governante do País tem o direito de impor a sua vontade.

Em um outro evento o presidente se referiu aos nordestinos como “paraíbas”, disse que o senhor é o pior de todos e que o governo não deve dar nada para o Maranhão. Por que ele disse aquilo?

Ele até hoje não explicou essa raiva, esse ódio, e, por isso, eu só posso atribuir ao fato de eu pensar diferente dele. Temos essa novidade inusitada nunca antes vivida no Brasil. Temos um presidente da República que odeia o pluralismo político. Só pode ser essa a causa. Mas o pluralismo e o direito de as pessoas terem opiniões diferentes estão garantidos na Constituição e eu não vou silenciar de modo compulsório na defesa daquilo que eu acredito. Eu jurei defender a Constituição e vou defender.

‘Expresso’: Bolsonaro x Nordeste

No dia a dia, como é a relação com o governo federal? O senhor tem recebido tratamento diferenciado?

Até o presente momento, não. As relações que já existiam permanecem e nós continuamos procurando as instâncias do governo federal porque eu acredito no princípio da impessoalidade que está no artigo 37 da Constituição. Não me importo com apetites ou preferências individuais, me importo com o interesse público. O fato de ele ter essa opinião tão raivosa não me retira o direito e o dever de procurar o governo federal. Faço e vou continuar fazendo.

O presidente Bolsonaro respeita o princípio da impessoalidade?

Na medida em que ele, neste período mais recente, tem dirigido palavras de tanta agressão inclusive, palavras chulas contra um conjunto de governantes, fica evidente que ele precisa consultar o artigo 37 da Constituição de um modo geral, ler todo o artigo 37. Por exemplo, é inadmissível que ele pretenda emitir uma ordem a um ministro de não atender o Estado A ou B, ou que ele exija que o nome dele conste da publicidade – ele falou ontem, na Bahia, que o nome dele tem que ser dito – só que a Constituição diz exatamente o contrário. Eu sempre menciono o nome do governo federal nas parcerias. Parceria institucional não é parceria pessoal. Isso ficou na época do feudalismo.

A indicação do próprio filho, Eduardo Bolsonaro, para a embaixada em Washington fere a impessoalidade?

Gravemente. Fere os princípios previstos na Constituição e a súmula 13 do Supremo Tribunal Federal, publicada em 2008, que expressamente diz que a autoridade nomeante não pode indicar parentes para cargos comissionados.

Ao ferir o princípio da impessoalidade, Bolsonaro fica exposto a algum tipo de ação judicial?

É uma grande interrogação que paira hoje sobre o sistema de Justiça. O cidadão brasileiro, ele próprio, dirige essa pergunta ao sistema judiciário. Não é algo que me caiba responder mas me cabe indagar. Eu perguntaria ao Judiciário o que fazer para garantir a autoridade da Constituição e das leis do Brasil, que e um dever de todos agentes públicos.

Como fica o acordo para a instalação da base em Alcântara neste ambiente?

Nós mantemos nossa opinião, ou seja, de que o acordo de salvaguardas tecnológicas celebrado entre o Brasil e os EUA pode ajudar a destravar o uso da base de Alcântara. Nós agimos diferente dele. Eu não ajo sob a ótica da retaliação e da vingança. Eu balizo minhas opiniões em razão de sentimentos pessoais. O acordo foi assinado por ele. É um acordo controverso, que tem prós e contras, mas continuo sustentando a mesma posição. O acordo é compatível com o objetivo de que a base possa funcionar.

Bolsonaro também disse ao 'Estado' que os governos do PT tentaram dividir o Brasil. O senhor concorda com isso?

A direita brasileira tem que parar de usar os governos do PT como justificativa para os seus próprios problemas. O PT e seus aliados já estão fora do governo há mais de três anos. Cada um tem que responder pelo seu período. Essa coisa de ficar o tempo inteiro olhando para controvérsias do passado, na verdade, serve para esconder os problemas reais que a gestão dele tem. Por exemplo é uma gestão que até o momento nada fez para combater o desemprego e a recessão de modo efetivo, de modo emergencial. Essa fraseologia, esses ataques, agressões e palavras de mau gosto são pura ideologia para esconder o fato de que infelizmente termos um governo que está devendo muito ao Brasil.

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