Flagra de conversa de ministros altera clima no STF

Embora o tribunal esteja dividido, os ministros não esconderam a perplexidade com a troca de mensagens

Eugênia Lopes e Leonencio Nossa, do Estadão

23 de agosto de 2007 | 18h00

Diante da revelação da troca de comprometedoras mensagens eletrônicas entre dois ministros no histórico julgamento da denúncia do mensalão, os dez integrantes do Supremo Tribunal Federal fecharam nesta quinta-feira, 23, às pressas, um acordo para colocar "panos quentes" na crise.   Veja Também:   Tudo sobre o mensalão     O diálogo entre os ministros Cármen Lúcia e Ricardo Lewandowski, registrado na quinta-feira pelo fotógrafo do jornal O Globo Roberto Stuckert Filho, mostrou acusações de bastidores, suspeitas de influência política, combinação de votos, intrigas e fofocas.   A troca de mensagens ocorrida na quinta-feira alterou o clima até então tranqüilo e enfadonho do plenário num dos mais aguardados e importantes julgamentos do Supremo. Embora o tribunal esteja dividido em grupos, os ministros não esconderam a perplexidade com a troca de mensagens, que já está sendo considerada, de forma irônica, a grande crise do Supremo na era digital. O sentimento entre ministros, assessores e advogados é que, agora, para a opinião pública, o Supremo tenha se igualado definitivamente, no "jogo baixo", aos poderes Executivo e Legislativo.   Mesmo os ministros considerados "independentes", sem vínculos com outros, avaliaram que era melhor um acordo, pois não dava para saber onde a crise poderia chegar. O acordo foi sendo costurado ao longo do dia, em uma série de conversas. A reunião informal mais longa para discutir a inesperada e inédita crise ocorreu ontem depois do almoço, no hall de entrada do Supremo. O encontro foi comandado pela presidente do STF, Ellen Gracie.   O que causou mais perplexidade no tribunal, segundo ministros, assessores e advogados, foi o trecho em que a ministra Cármen Lúcia diz a Ricardo Lewandowski que o ministro Eros Grau iria rejeitar a denúncia contra os 40 acusados de participar do esquema do mensalão. Lewandowski responde com uma acusação bombástica: "Isso só corrobora que houve uma troca". Esse trecho do diálogo foi antecedido por impressões sobre a escolha do substituto de Sepúlveda Pertence, que se aposentou na semana passada. Os ministros do Supremo são escolhidos pelo governo e aprovados pelo Senado.   O diálogo entre os ministros Cármen Lúcia e Ricardo Lewandowski, durante o julgamento do mensalão, expôs diante dos holofotes as divergências travadas até então nos bastidores pelos integrantes do Supremo Tribunal Federal. "Nunca vi esse procedimento nem esse tipo de diálogo no tribunal", reagiu nesta quinta-feira exaltado o ministro Eros Grau, suspeito na visão de Lewandowski de negociar o voto.   Ao chegar para a sessão, Eros Grau ainda afirmou que nunca tinha visto na história do Supremo a interceptação de mensagens eletrônicas pela imprensa. Ele mandou que os jornalistas procurassem os dois ministros que travaram o diálogo para explicar a suspeita de que iria rejeitar o pedido do Ministério Público Federal de abertura de processo penal contra os acusados do esquema do mensalão. "Os ministros Cármen Lúcia e Ricardo Lewandowski sabem dessas coisas", afirmou.   Bem na Fotografia   Já o ministro Marco Aurélio, que foi criticado na troca de mensagens eletrônicas de Carmem Lúcia e Lewandowski, não escondeu a satisfação com os deslizes dos colegas. "Quanto às referências a minha pessoa penso que saí bem na fotografia", afirmou, rindo. "Cada um dos envolvidos tem que sopesar o contexto", disse. "Como juiz, não costumo discutir os meus votos, mas é um problema de foro intimo", ressaltou. "Assim procedo há 28 anos."   Na troca de mensagens, Carmen Lúcia e Lewandowski trocaram impressões a respeito do voto que dariam. O último se disse impressionado com as argumentações do procurador-geral da República, autor da acusação contra os 40 acusados pelo mensalão.   Em meio à polêmica, Marco Aurélio aproveitou para fazer auto-elogios. "Qual receio da minha presidência? Cumprimento do dever? Sim.", disse. "Busco o cumprimento do dever como tenho demonstrado durante a minha vida profissional", completou. "Um homem público é um livro aberto."

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