''''Fisiologismo virou negociação política''''

Professor critica rendição do PT ao discurso que condenava e diz que é difícil romper com toma-lá-dá-cá

Entrevista com

Moacir Assunção, O Estadao de S.Paulo

29 de setembro de 2007 | 00h00

No quadro político atual, o fisiologismo, ou a troca de apoio por cargos, freqüentemente ligado à corrupção, vai demorar a desaparecer. A conclusão é do cientista político Marco Antonio Teixeira, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Para ele, a prática é um vício de origem do sistema, causado pela fraqueza e divisão dos partidos, a falta de fidelidade partidária e a forma como são construídas as coligações de governo. "O PT, por exemplo, tinha um discurso quando não era governo e mudou-o totalmente. Criticava os demais partidos, chamando-os de fisiológicos, e hoje criou até outro nome para a prática: negociação política."Não é possível governar sem recorrer ao fisiologismo?Não é possível. Não há condições para isso e a situação não vai mudar no curto prazo. No estágio em que estamos, é muito difícil obter maioria no Congresso. Os partidos são frágeis e divididos. No caso do PMDB, que tem se convertido no maior problema do segundo mandato do presidente Lula, é preciso negociar com suas várias partes, tentando contentar o maior número possível de parlamentares. Dependendo da negociação, o partido vem mais ou menos coeso para a votação e, às vezes, apronta peças, como a rejeição da medida provisória que criava a Secretaria de Ações de Longo Prazo.Por que as negociações têm essa característica no Brasil?São vários fatores, como o grande número de partidos, a falta de líderes nacionais na maioria, até no PMDB, que sobrevive de líderes regionais, o fato de não haver fidelidade partidária e a extrema divisão, o que faz com que nem sempre os parlamentares obedeçam às decisões dos partidos. Outros presidentes, entre eles Fernando Henrique, enfrentaram problemas semelhantes com o PMDB.É impossível romper com o esquema, ao menos neste momento?É muito difícil. Há, além de tudo, um vício de origem. O governo do PT já foi construído dessa forma. Antes de chegar ao poder, o PT tinha um discurso forte de crítica ao fisiologismo, mas no poder rendeu-se à situação e o fisiologismo ganhou outro nome: negociação política. E o PMDB tem dado um enorme trabalho ao governo. Na verdade, hoje, o governo está perdendo para o próprio governo. A oposição não conseguiu, até agora, se organizar e construir um discurso alternativo. E o PSDB tende a ficar na defensiva, com o senador Eduardo Azeredo acusado de se beneficiar do mensalão mineiro.Além da CPMF, há outros problemas de negociações no horizonte governista?O cenário é muito incerto nas duas Casas, mas muito pior no Senado, onde a maioria do governo é pequena. Além disso, a população cobra mais os parlamentares da base aliada, muitos dos quais serão candidatos a prefeito e precisam estar bem com os eleitores. Outra situação que deve gerar tensão entre o PT e seus aliados é o bloco de esquerda, que está se organizando com a nítida intenção de construir um caminho próprio, de conflito inevitável com o partido.O que é preciso para pelo menos reduzir o fisiologismo?Precisamos de uma reforma política que torne o quadro partidário mais enxuto. É importante rediscutir a cláusula de barreira, de forma que fiquemos com menor número de legendas e a negociação seja mais institucional, não com caciques. A instituição da fidelidade partidária é outra providência.

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