Reprodução / Academia Brasileira de Filosofia
Reprodução / Academia Brasileira de Filosofia

Filósofo Antonio Paim morre aos 94 anos

Estudioso era considerado um dos grandes expoentes do pensamento liberal brasileiro

Pedro Prata, O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2021 | 23h28
Atualizado 01 de maio de 2021 | 22h07

Morreu nesta sexta-feira, 30, aos 94 anos, o filósofo e historiador baiano Antônio Ferreira Paim. Nascido em Jacobina, ele é considerado um dos maiores expoentes do pensamento liberal brasileiro. Foi vencedor do Prêmio Jabuti em 1985 com o clássico A História das Ideias Filosóficas no Brasil e Prêmio Nacional do Livro de Estudos Brasileiros em 1968. Era um dos fundadores e presidente de honra da Academia Brasileira de Filosofia.

Antonio Paim estudou filosofia na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde depois se tornou professor. Ele ainda lecionou em faculdades como a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e a Universidade Presbiteriana Mackenzie. Na PUC-RJ organizou e coordenou o curso de Mestrado em Pensamento Brasileiro.

Ao longo de sua vida, dedicou-se ao estudo do pensamento filosófico brasileiro e ao pensamento político. Também foi autor de História do liberalismo brasileiro (1998) e A querela do estatismo (1994), no qual aborda o patrimonialismo na realidade brasileira. Também tem títulos publicados na área da filosofia da educação e da moral brasileira, como Momentos decisivos da história do Brasil.

O cientista político Rubens Figueiredo classificou Paim como "um apaixonado pelo Brasil" e elogiou o seu conhecimento histórico. Figueiredo escreveu um livro sobre o empresariado com Paim, para quem ele foi o maior estudioso sobre o liberalismo no Brasil. "A vida dele era pensar e escrever", disse ao Estadão.

O cientista ainda disse que o filósofo era um "apaixonado pelo argumento" e que ele sempre "escutava" quando estava debatendo. “O conhecimento se impunha pela humildade que ele tinha. Ele era uma pessoa que ouvia e argumentava, era diferente de um intelectual cheio de certezas.”

No campo da política, elaborou projetos preparatórios para a Constituição de 1988 e colaborou com a criação das fundações políticas Instituto Tancredo Neves (ligada ao PFL, agora DEM) e Espaço Democrático (ligada ao PSD). Em nota, a fundação política do PSD destacou seus estudos para "a formulação de políticas para a privatização e desburocratização até estudos sobre a reforma partidária, sempre com o propósito de garantir a representação dos interesses dos eleitores".

O cientista político Paulo Kramer, com quem ele assina o livro sobre o patrimonialismo, lamentou a morte de Paim nas redes sociais e disse que “além das saudades, ficam sua vasta e magnífica obra e seus exemplos de amor ao saber, generosamente compartilhado, hombridade cívica e honestidade intelectual”.

No governo de Jair Bolsonaro, Paim passou a ser citado por figuras como o ex-ministro da Educação Ricardo Vélez Rodriguez. Vélez foi aluno de Paim na década de 70, quando recebeu uma bolsa para estudar o pensamento brasileiro na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Em seu discurso de posse, Velez vinculou a “inspiração liberal-conservadora” na educação a Paim e a Olavo de Carvalho.

Neste sábado, Velez definiu o filósofo como um representante do ideal humanístico de inspiração liberal. “Amava o Brasil e tudo fez para que as nossas instituições se modernizassem em benefício do exercício da liberdade para todos os brasileiros. Os meus sentimentos para a sua família e amigos”, escreveu. Os dois também publicaram livros juntos.

Em nota, o Instituto Liberal disse que o filósofo deixa um “imenso legado” a todos que trabalham para “estruturar a alternativa liberal em bases sólidas”. “O Instituto Liberal se solidariza com os entes queridos e os grandes discípulos formados pelo professor e considera seu dever tomar parte na preservação de sua memória e do significado de seu trabalho.”

O Livres, movimento liberal suprapartidário, publicou em suas redes sociais que Paim é “referência obrigatória para a história das ideias no Brasil e, em especial, do liberalismo brasileiro”. No mesmo sentido falou Fernando Holiday (sem partido), vereador de São Paulo: “Como legado deixa muita inspiração, principalmente para futuros historiadores como eu. Descanse em paz.”

Juventude no Partido Comunista Brasileiro

Em sua juventude Paim foi filiado ao Partido Comunista do Brasil, atividade pela qual chegou a ser preso. Uma vez solto, foi enviado para estudar teoria leninista na Universidade Estatal de Moscou, uma das mais antigas da Rússia. O rompimento veio com a divulgação dos crimes de Stálin, em 1956. “Fui eu que lutei para distribuir o relatório para o Partido Comunista brasileiro. Não dava para ficar no partido depois daquilo. Da minha geração, ninguém ficou”, contou Paim à revista Época em 2019.

Na mesma entrevista, falou sobre a ojeriza às ideias socialistas e à chamada “doutrinação marxista”. “O Brasil é o único país do mundo, além da França, onde o comunismo parece que não acabou”, afirmou na ocasião.

Isso não impedia que ele fosse reconhecido por grandes nomes da esquerda e dialogasse com eles. Aldo Rebelo, ex-ministro dos governos do PT e ex-deputado federal pelo PCdoB, também prestou sua homenagem e lembrou de uma entrevista que fez com Paim, em 2019. “O Brasil perdeu hoje o grande intelectual e historiador das ideias Antônio Paim, autor, entre outras obras, do clássico História do Liberalismo Brasileiro”, escreveu.

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