Filho de morto em explosão quis depor

Flávio Régis de Carvalho procurou comissão pernambucana para falar sobre atentato da luta armada

CLARISSA THOMÉ, O Estado de S.Paulo

15 de dezembro de 2014 | 02h04

RIO - O relatório da Comissão Nacional da Verdade provocou "sentimento de frustração" em Flávio Régis de Carvalho, de 62 anos. Em 1966, o pai dele, o jornalista e então secretário de Governo de Pernambuco Edson Régis de Carvalho, foi morto na explosão de uma bomba no saguão do Aeroporto Internacional de Guararapes, um dos mais emblemáticos atentados da luta armada. "Essa foi a comissão da meia verdade. Uma comissão parcial, que focou em um lado: as vítimas do regime militar. Mas e as vítimas da luta armada? Nomes vieram à tona, mas nem sequer foram ouvidos."

O atentado, cujo alvo era o então candidato à Presidência Artur da Costa e Silva, também matou o almirante Nelson Gomes Fernandes e feriu 14 pessoas. Costa e Silva escapou ao decidir fazer a viagem de carro.

Carvalho tinha 14 anos quando foi buscado na escola por uma assustada secretária de seu pai. No carro, os quatro irmãos mais novos já o esperavam. "Ela saiu coletando os filhos nos colégio e nos levou ao aeroporto", conta. Ele se lembra do ambiente de muita poeira, fitas de isolamento e muitos repórteres. Mais tarde, no hospital, um dos irmãos levantou o lençol que encobria o corpo do jornalista. "Vi o corpo de meu pai dilacerado; a cena que eu tenho na memória é que da cintura para baixo não havia nada".

Carvalho e os irmãos passaram as décadas seguintes em busca da verdade. "Foi um atentado da Ação Popular. Durante anos, Ricardo Zarattini e Edinaldo Miranda foram acusados de algo que não cometeram", diz, referindo-se ao ex-deputado e ao professor que, em 2013, foram oficialmente inocentados. "Na Comissão Estadual (de Pernambuco), as filhas de Raimundo Gonçalves de Figueiredo, que foi apontado como o responsável pelo atentado, disseram que a bomba não foi de um só. Mas não se apura quem foi", criticou.

Carvalho pediu para ser ouvido pela comissão pernambucana. "Eu queria mais indagar do que falar", disse o procurador aposentado e assessor do senador Armando Monteiro (PTB). Ele e os irmãos também entraram com ação, pedindo indenização pela morte do pai. "Quando perguntavam de nosso pai, respondíamos: 'Morreu de bomba'", conta. "Mas o processo está parado. É o chamado embargo de gaveta."

Ele diz não querer punição aos autores do atentado. "Teve a Anistia, teve o perdão. Tudo bem. Mas a história só será resgatada quando a verdade vier à tona. A Comissão Nacional da Verdade perdeu a oportunidade única de fazer história", avalia.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.