Filho de Médici participa de comemorações do golpe em SP

Para o filho de Médici, a Comissão da Verdade vai 'mutilar a tradição nacional do perdão'

Ivan Marsiglia, de O Estado de S.Paulo

29 Março 2012 | 18h34

SÃO PAULO - Cerca de quarenta pessoas, a maioria militares da reserva e seus familiares, reuniram-se nesta quarta-feira, 28, às 20h na sede paulista da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (Adesg) em um evento que se transformou em celebração do golpe militar de 1964 e desagravo contra a instalação, prevista para abril, da Comissão da Verdade, que irá apurar crimes cometidos à época pela repressão.

Em um discreto coquetel em que foram servidos café, refrigerantes, salgadinhos e brigadeiros, o engenheiro gaúcho Roberto Nogueira Médici, filho do general Emílio Garrastazu Médici - que presidiu o País de outubro de 1969 a março de 1974, no período mais violento da perseguição a guerrilheiros e dissidentes políticos -, autografou exemplares de um livro que propõe uma revisão histórica do período. Médici - A Verdadeira História, do general reformado Agnaldo Del Nero Augusto, publicado postumamente em outubro do ano passado, foi relançado em Santos, São Paulo e Campinas, na semana que antecede o aniversário do golpe.

"A primeira edição, com tiragem de 2 mil exemplares está esgotada e já vamos para a segunda", comemorou o coronel da reserva Carlos Claudio Miguez, editor do livro e do Jornal Inconfidência, de Belo Horizonte. O coronel distribuiu exemplares do tabloide e fac-similes da edição extra da revista O Cruzeiro de 10 de abril de 1964, que trazia na capa o rosto sorridente do governador Magalhães Pinto, celebrando "a vitória da rebelião que comandou contra a comunização do País", conforme a descrição do texto. Também estava presente o general Marco Antônio Felicio da Silva, autor do manifesto "Eles que venham. Por aqui não passarão!", com críticas à presidente Dilma Rousseff por não ter censurado ministras que pediram a revogação da Lei de Anistia, que motivou um pedido de reprimenda por parte de Dilma aos oficiais, no início do mês.

"Meu pai evidentemente não foi o melhor presidente do Brasil, mas sob o aspecto material deixou uma boa obra", defendeu Roberto, de 78 anos, ele próprio autor de um depoimento publicado em 1995 que tenta reabilitar a imagem de Médici, marcada por denúncias de violações dos direitos humanos nos porões do regime. "A verdade é que meu pai impediu que o povo brasileiro fosse submetido ao Estado totalitário desejado pelos terroristas."

Para o filho de Médici, a Comissão da Verdade vai "mutilar a tradição nacional do perdão" e é apenas um pretexto para instaurar processos e punir militares e civis que colaboraram com o regime. "Se fosse só para isso (recuperar a verdade histórica e os corpos de militantes desaparecidos), nós mesmos soltaríamos rojões", afirmou.

O engenheiro voltou a defender a tese, exposta em seu livro, de que foi o general Ernesto Geisel quem atrasou a redemocratização do País: "Papai queria revogar (o Ato Institucional Nº 5, que suspendeu definitivamente as liberdades civis e fortaleceu a linha dura do regime), mas Geisel disse: 'Eu só assumo com o ato 5 na mão'."

Na noite que antecedeu os protestos que reuniram cerca de 300 pessoas em frente ao Clube Militar, no centro do Rio, um dos militares presentes alertou à reportagem do Estado: "Mandem alguém lá que amanhã a coisa vai pegar fogo."

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