Filha de Gabeira também viajou com bilhete oficial

Deputado aproveita feriado para rever bilhetes emitidos e redigir discurso que fará cobrando medidas rígidas

Alexandre Rodrigues, O Estadao de S.Paulo

21 de abril de 2009 | 00h00

O deputado Fernando Gabeira (PV-RJ) admitiu ontem que pode ter incorrido no mesmo erro de parlamentares que usaram passagens aéreas custeadas pelo Legislativo para a viagem de parentes. Ele acredita ter usado bilhetes da cota de seu gabinete na Câmara para "possivelmente duas" viagens de uma filha ao exterior. O parlamentar disse que aproveita o feriado para rever a emissão dos bilhetes pelo seu gabinete e para redigir um discurso que fará na quarta-feira cobrando que Câmara e Senado recuem da decisão de oficializar o uso das passagens por parentes e proíbam a transferência a terceiros. Além de iniciar uma "batalha" para rever as regras do uso de bilhetes aéreos no Congresso, Gabeira está disposto a fazer uma espécie de mea-culpa. Ele reconhece que sucumbiu à tradição brasileira que confunde público e privado. "Acho que é preciso esclarecer essa confusão e definir que só é realmente privado o salário. É a única coisa que o deputado pode gerir solitariamente", afirmou. O deputado disse não saber ainda quando e quantas vezes cedeu passagens de sua cota a outras pessoas, mas acha que fez isso pelo menos duas vezes com sua filha Tami. Segundo ele, sua outra filha, Maya, campeã de surfe, tem patrocínios e nunca precisou da ajuda dele para viajar. "O que nos era transmitido é que as cotas pertenciam ao deputado e eles podiam gerir solitariamente essas cotas. Cada deputado entendeu que usaria da sua maneira", disse, confessando não ter refletido sobre o dilema ético de usar a dotação de maneira pessoal, embora a ação não fosse ilegal. "Não adianta voltar atrás e dizer: mas era permitido. Era permitido, mas não questionei." Gabeira disse ter gastos decrescentes na sua cota por economizar muito com passagens que recebe para fazer palestras pelo País. Ele diz que costuma pedir aos que o convidam passagens com saída do Rio e com Brasília no destino final. Assim, entendeu que amortizava o uso pessoal da cota da Câmara. "Eu não gastava quase nada. Achei que poderia manipular dessa maneira. Foi uma decisão solitária, mas eu não posso misturar as duas instâncias", disse. O parlamentar também admitiu ter emitido bilhetes para a participação de terceiros em eventos, como um dirigente da Defesa Civil de Santa Catarina que teria participado de um debate sobre meio ambiente no Congresso há duas semanas. Gabeira diz ter recebido da Câmara uma declaração de que a Casa não poderia custear a viagem do convidado a Brasília. Apontado como uma reserva ética do Congresso e cotado para concorrer ao Senado ou ao governo do Estado do Rio depois de ter perdido a prefeitura da capital por menos de 2% dos votos no ano passado, Gabeira diz não ter dificuldades de assumir erros, mas admite temer o prejuízo do episódio à sua imagem. "Todas as pessoas que achavam que eu sou uma reserva moral e que sou perfeito vão compreender que tenho imperfeições e vão avaliar se querem continuar me ajudando com as minhas imperfeições ou não."Em um texto publicado em seu site, Gabeira afirmou que só demorou a entrar no debate das passagens porque estava fragilizado com a morte recente de um irmão. Ele diz ter tentado nos bastidores levar à direção da Câmara propostas para moralizar o uso da cota aérea, mas não foi ouvido. Por isso vai discursar propondo um "ajuste de conduta" a partir de quatro ideias: vedar a transferência de bilhetes pelo parlamentar a terceiros, a divulgação das contas na internet, o vencimento da cota em um ano e a regulação das viagens de deputados em missão ao exterior. "Qualquer passagem para outra situação tem que ser muito justificada." Segundo Gabeira, o Legislativo precisa compreender o clamor provocado pelo escândalo, que vai além do varejo das passagens e mordomias, sob pena de perder a legitimidade. Para o deputado, oficializar o uso de passagens pagas pelo contribuinte para parentes "só acirra a contradição entre a sociedade mais moderna e o poder público, que não acompanha os acontecimentos".

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