Filha de diretora trabalha em prestadora de serviços

Empresa faz digitação informatizada das reuniões

Eugênia Lopes, O Estadao de S.Paulo

26 de março de 2009 | 00h00

Responsável pelos trabalhos de estenotipia (digitação informatizada) de todas as reuniões que ocorrem nas comissões do Senado, a Steno do Brasil Importação, Exportação, Comércio e Assessoria Ltda tem em seus quadros Mariana Cruz, filha da diretora de Comissões da Casa, Cleide Maria Barbosa Ferreira Cruz. A Steno é contratada do Senado com gastos autorizados de até R$ 2,2 milhões ao ano, desde janeiro de 2006.A polêmica em torno da Steno já foi parar no Ministério Público. Motivo: além da denúncia de nepotismo, os taquígrafos do Senado teriam ficado preocupados com a contratação da empresa, que, na prática, faz o seu trabalho."A Mariana foi trabalhar na minha empresa antes de o contrato ser fechado com o Senado. Sou amigo do pai dela. Ela estava desempregada e eu estava precisando de uma pessoa", afirmou Alexandre de Almeida, diretor regional da Steno, em Brasília. Ele afirmou que contratou Mariana seis meses antes de o contrato com o Senado ser fechado. Segundo Cleide, a proposta de terceirizar os trabalhos da taquigrafia foi feita, em 2005, pelo então primeiro-secretário da Casa Efraim Moraes (DEM-PB). Na época, três comissões parlamentares de inquérito estavam em andamento: A CPI dos Correios, a CPI dos Bingos e a CPI do Mensalão. Os taquígrafos do Senado, que são, ao todo, 100, não davam conta do trabalho. "Tínhamos urgência e tudo era feito no mínimo em 15 dias pela taquigrafia", afirmou Cleide, que ocupa a diretoria de Comissões desde 1991. Em depoimento ao Ministério Público, ela contou que, em 2005, Efraim, na época também presidente da CPI dos Bingos, "vivenciou e acompanhou as dificuldades enfrentadas pela depoente com a Secretaria de Taquigrafia". No depoimento, Cleide disse que o senador encaminhou para ela a proposta da Steno e que, depois de analisá-la, "chegou à conclusão de que aquele serviço supria a necessidade da Secretaria de Comissões". Cleide afirmou ainda que fez um ofício para Efraim explicando "as razões pelas quais o serviço da Steno era necessário". A diretora confirmou que a filha trabalha na Steno, mas "como prestadora de serviços para a empresa". "Mariana não é empregada da Steno", disse. No depoimento, Cleide afirmou que Mariana é psicóloga e trabalhou entre 2003 e 2005, em função comissionada, no gabinete do então primeiro-secretário do Senado Romeu Tuma (PTB-SP). Com a eleição de Efraim, foi exonerada e, diz Cleide, começou a trabalhar com a Steno.Como diretora de Comissões do Senado, Cleide é responsável pelos trabalhos das 11 comissões permanentes, das comissões parlamentares de inquérito e das comissões especiais e externas da Casa. Em um primeiro momento, ela foi a responsável pela gestão do contrato da Steno com o Senado. Cabia a ela o controle das horas trabalhadas da Steno. O contrato prevê o pagamento por hora trabalhada, limitado até o valor de R$ 187.500,00 por mês. Cleide deixou a função de gestora do contrato em 2006, quando veio à tona a informação de que sua filha trabalhava na empresa e era a gestora do contrato com o Senado. As denúncias de contratação de filhos de funcionários do Senado por empresas terceirizadas não param por aí. A diretora da Secretaria de Taquigrafia, Denise Ortega de Baere, tinha até pouco tempo atrás um filho nos quadros da TV Senado. "Ele era operador de áudio e entrou depois de fazer uma prova", disse Denise.

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