Filha de Covas admite convites para candidatura

Com gestos largos, bom humor e a saudade estampada nos olhos, Renata Covas Lopes, filha do governador Mário Covas, esclarece que não é a única herdeira de seu pai. E não está falando do irmão Mário Covas Neto (o Zuzinha), ou de seus filhos Bruno, 21 anos, e Gustavo Covas Lopes, 18."Acho que meu pai deixou herança para todo mundo que quer fazer política com seriedade. Tendo ou não Covas no nome."Mas a paixão pela política, a admiração pelo pai e a enfática defesa do PSDB que ajudou a fundar em 1988 revelam sua vontade de militar. Convites e incentivos não faltam. Amigos tucanos já fizeram convites informais para que Renata seja candidata ao Legislativo paulista. A família toda apóia a idéia e o principal incentivador é o marido, o engenheiro Pedro Lopes. Renata sorri e desconversa. Diz que é preciso pensar com seriedade.As comparações com seu pai serão inevitáveis, mas ela é categórica: "Terá que ficar claro que meu nome é Renata, e o dele era Mário. Então as pessoas vão ter que ver isso quando apoiarem uma suposta candidatura minha."Recorda que não disputou cargos até hoje por ser inelegível, com o pai governador. "Uma vez, disse para o meu pai: puxa, sou inelegível. E ele respondeu, sem graça: não me faça sentir remorso." Cercada por fotos da família na sala da casa em Santos, onde Covas criou os filhos, Renata revela apostar no filho Bruno estudante de direito e economia, para dar continuidade à tradição da política na família.Para estudar, ele foi morar com os avós, Covas e Lila, em 1995. Depois, o irmão Gustavo juntou-se a eles. Ela acredita que Bruno é quem tem mais aptidão para a política.Bruno concorda que aprendeu muito com o avô e define a herança em uma palavra: coerência. "Ser coerente e defender o que você acredita."Já a decisão sobre a disputa de cargos públicos deixa para o futuro. "Penso em me firmar na carreira, de direito ou economia. Cargo público, num futuro não próximo", diz ele, que é membro do diretório municipal do PSDB em Santos e coordenador estadual da Juventude tucana.Renata é membro da executiva nacional do PSDB e conselheira da Fundação Mário Covas, instituída em abril. Formada em direito em 1996, fez a faculdade depois dos filhos já crescidos, mas não atua na área. Diz que é uma "engenheira do lar". O apreço pelo pai e por sua luta a fizeram militar no partido e acompanhar Covas nas campanhas eleitorais. Trabalhou para eleger Covas desde 1982, quando ele foi escolhido deputado federal, depois na subida ao Senado, em 1986. Destaca a disputa pela Presidência em 1989, que rendeu ao tucano 10% dos votos no primeiro turno e o quarto lugar na corrida ao Planalto.Confessa que sentiu que o maior desafio eleitoral de seu pai foi a disputa pela reeleição ao governo do Estado, em 1998. "Era complicado explicar em três meses de campanha o que ele (Covas) havia feito em três anos, defender o governo e mostrar suas propostas", relembra. O estilo Mário Covas, que adorava argumentar com ajuda dos números - paixão do engenheiro - se reflete nos gestos de Renata quando ela faz uma defesa veemente do presidente Fernando Henrique Cardoso diante da crise energética.Relaciona dados sobre obras retomadas em usinas, valores em bilhões de reais, tudo de memória. Acredita que a população não deve envergonhar-se do Congresso, já que os ex-senadores Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) e José Roberto Arruda (sem partido-DF) estão fora da Casa. "O Jader (Barbalho, PMDB-PA, presidente do Senando) se encaminha para o mesmo final." É categórica ao afirmar que já é hora do partido apresentar seu candidato. A exemplo de Covas, defende o nome de Tasso Jereissati, governador do Ceará.Sobre o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, derrama-se em elogios e admiração, pelo político e pela figura humana. "Ele está se saindo muito bem. É muito correto e sempre se refere ao governo Mário Covas, o que é uma gentileza. Ele foi muito ético com a família." Passados pouco mais de três meses da morte de Covas, a família ainda sente a ausência daquele que envolveu todos com sua paixão e levou a política para dentro de sua casa e se sente em dívida com a solidariedade que recebeu de todos, com a gentileza e o carinho que ajudaram Covas a enfrentar a doença.Com a voz embargada, ela lembra que toda a vida soube que teria que dividir seu pai com os outros. "No final eu tive um monte de irmãos." As lágrimas caem. A lembrança mais cara e distante vem do dia em que a família Covas foi conhecer a casa em Santos, onde Renata mora hoje. "Morávamos em uma casa pequenininha." A menina de 5 anos entrou de mãos dadas com o pai para conhecer o novo endereço - na sua cabeça um palácio. - Aí, gostou? - Achei pequena. - Filha, tem famílias que moram o pai, a mãe, o avô, avó, os filhos, num lugar menor do que esse. Que é quarto, é cozinha, é tudo.Depois de lembrar da história que marcou sua vida e por vezes a faz chorar, Renata avalia que seu pai foi fiel aos seus princípios e concretizou seus ideais."Você fala isso pra uma criança de 5 anos e, 40 anos depois, se elege governador e tem como obra marcante a construção de casas populares. É demais, não é?"

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