Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

'Fica ridículo ver o PSB se aliar ao DEM', diz Marcelo Rubens Paiva

Escritor e colunista do 'Estado' resgata histórico socialista de partido ao qual pertenceu seu pai

Elisa Clavery, O Estado de S.Paulo

19 Julho 2017 | 15h07

Filho do deputado Rubens Paiva, torturado e desaparecido durante a ditadura militar, o escritor e colunista do Estado Marcelo Rubens Paiva criticou o cenário de aproximação entre deputados do PSB e o DEM, partido do presidente da Câmara Rodrigo Maia (RJ). “Fica ridículo ver o PSB se aliar ao DEM”, disse o escritor em entrevista ao Estado, lembrando que seu pai chegou a se filiar ao partido socialista.

Para Rubens Paiva, o “troca-troca” partidário começou com o discurso da governabilidade, generalizado na política brasileira. Ele afirmou que acabou a fase da fidelidade na política - seu pai foi torturado por não entregar os companheiros de luta. “Poderia ter um aplicativo, estilo o Tinder, para você encontrar o partido perfeito. A cada encontro, você está num partido diferente”, brincou o colunista. Nesta quarta-feira, 19, o escritor chegou a publicar um desabafo em seu Twitter: “E pensar que Antonio Candido fundou o PSB para juntar a esquerda anti-stalinista para fora do PCB, seduzindo meu pai”.

O escritor falou, ainda, sobre a desilusão da sociedade com a esquerda e com a direita, o que, para ele, mantém o silêncio nas ruas mesmo diante de indícios de corrupção no atual governo. “Preferem ver a crise política de Game of Thrones (série de TV) e de House of Cards (série de TV) do que a do seu País.”

Qual é a sua avaliação para a possibilidade de deputados do PSB 'fecharem' com o DEM, como você escreveu no post?

É a história sendo vilipendiada. O PCB (Partido Comunista Brasileiro) nos anos 1940 era uma fonte de aglutinação de escritores e intelectuais para combater o Getúlio (Vargas, ex-presidente da República). Com as denúncias das atrocidades do (ditador da União Soviética Josef) Stálin e com a corrente de esquerda que não concordava com as teses do partido comunista, do partido único, fundaram o PSB, o Partido Socialista Brasileiro. Era o que hoje em dia a gente chama de “terceira via”. Foi um partido que o Antonio Cândido (crítico literário e sociólogo, morto em maio deste ano), um desses intelectuais que estava combatendo Getúlio, fundou com outros intelectuais e seduziu grande parte da juventude de esquerda, depois da ditadura de Getúlio. Entre eles, estava meu pai (Rubens Paiva, torturado e desaparecido durante a ditadura militar), que não era comunista, mas era uma pessoa de esquerda, admirava até a União Soviética, mas não concordava 100% com o regime comunista.

Se você pensar naquela época, muitos escritores eram do Partido Comunista: Oswald Andrade, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Carlos Drummond de Andrade. Muita gente, inclusive, escrevia nos jornais e nas revistas literárias ligadas a partidos comunistas. O PSB era uma frente paralela a isso, que tem uma grande importância na história política e nunca foi um partido muito grande. Tem uma relevância exatamente por aglutinar uma esquerda não comunista, mas socialista.

Hoje em dia, com essa despolitização dos partidos, essa “desideologização” das ideias políticas, fica ridículo, fica estranho, ver o PSB se aliar ao DEM, que é um partido identificado com ideais conservadores, grandes latifundiários, que é um partido de direita. Tudo para ganhar uns votos a mais, uns minutos de comerciais.

Já há um tempo que o PSB não tem uma postura muito alinhada à esquerda. O partido, por exemplo, fechou questão a favor do impeachment da Dilma Rousseff. Como você avalia o rumo que tomou a sigla?

Havia uma identidade forte no início, mas ela foi perdida nesses tempos turbulentos da política nacional. Tempos em que (o deputado federal Paulo) Maluf e (o senador Fernando) Collor se aliaram ao PT, ao Lula. São abominações políticas que quem conhece a fundação do PT fica horrorizado. Muita gente, inclusive, passou a viver o momento de desilusão completa.

Esse troca-troca começou com o jargão hipócrita da governabilidade. De repente, governabilidade virou tudo, qualquer coisa. Misturar doce e azedo. Tanto o Jânio Quadros, quanto João Goulart e Collor saíram (da Presidência) exatamente por falta de governabilidade, falta de sustentação no Congresso. Então passou a valer tudo.

Esse discurso de governabilidade que você fala começou na Era Lula?

Começou na era Lula. O PSDB também se aliou ao DEM e ao PFL. Isso é generalizado na política brasileira.

Qual era a história do seu pai no PSB?

Ele se filiou, frequentou reuniões e saiu deputado. Como o partido não conseguia a cota para eleger deputados, ele foi pelo PTB de João Goulart. Ele era filiado ao PSB, mas o partido era muito pequeno. Não sei (se ele teve que se filiar ao PTB para se eleger), não sei como era a legislação naquela época.

Seu pai foi torturado por não entregar os companheiros de luta política. Como você avalia essas traições políticas recentes, tanto a do PMDB ao PT no impeachment quanto, agora, a posição dúbia do PSDB ao PMDB, por exemplo?

Meu pai e muitos, na América Latina toda. Eu acho que acabou a fase, infelizmente, da fidelidade. Hoje em dia, pula-se o muro partidário com uma facilidade muito grande. Poderia ter um aplicativo, estilo o Tinder, para você encontrar o partido perfeito. A cada encontro, você está num partido diferente. A reforma partidária precisa olhar para essa infidelidade, coibir as traições, as mudanças de partido. O caso da (senadora do PMDB) Marta Suplicy é gritante, por exemplo. O DNA dela é do PT. Ela diz que vai para o PMDB para fugir da corrupção, se aliando justamente a uma ala podre do PMDB e da política nacional. Quem votou nela não votou como a candidata do PMDB ligada ao (presidente Michel) Temer, votou com uma mulher com história no PT, cujo marido (o senador Eduardo Suplicy) foi um dos primeiros políticos a se filiar ao PT, com uma história linda como senador.

Isso está ocorrendo não no mundo todo, mas no Brasil. Essa “desideologização” dos partidos e da política. Na Espanha, a oposição continua em uma situação bem clara. As pessoas falam do (Emmanuel) Macron (presidente da França), mas ele tem uma ideologia clara, não é exatamente socialista, nem de direita, é de centrão. Em Portugal, a esquerda está no poder. No mundo todo, é muito clara a divisão. (Essa despreocupação ideológica) Tem muito a ver com as cotas televisivas, a despolitização da sociedade, muito pouco esclarecida ideologicamente. Você faz partido para ganhar tempo na TV, para ganhar fundo partidário, para ganhar dinheiro da JBS, da Odebrecht e de outras.

Alguém mais na sua família é filiado, mantém uma trajetória política?

Não.

Você consegue fazer uma previsão para 2018?

Ninguém consegue, é impossível. Está se esperando a segunda instância em Porto Alegre (a respeito da condenação de Lula pelo juiz Sérgio Moro). Depois, tem o racha do PSDB, que não sabe se vai com o (prefeito João) Doria, se vai com o (governador Geraldo) Alckmin, se fica ou se sai do governo. A extrema direita tem o (deputado federal Jair) Bolsonaro muito claro e com o seu nicho. O mercado não sabe quem quer.

Ontem, eu fiz uma enquete no Twitter com a pergunta: “quem deveria ser o candidato do mercado, Doria ou (o presidente da Câmara Rodrigo) Maia?” Sem nenhum fundo científico, claro. Mas, por enquanto, o Doria está ganhando. O Doria tem mais atenção na mídia do que todos os outros tucanos juntos e já se coloca como líder tucano. Em menos de um ano que ele surgiu no cenário político, já virou uma grande estrela política.

Como você avalia esse "troca-troca" partidário, no momento que o Brasil vive, com um presidente denunciado? Você vê aí uma questão ideológica ou puramente política?

Nem política, nem ideológica. É para salvar o Temer. É para o colocar o dedo no dique furado. Ninguém está pensando em política, reformas, ideologia. Abre-se o caixa, abre-se a chave da emenda parlamentar. Cada um dando o seu preço. Esse recesso aí é o recesso menos entediante que eu já vi. Todo mundo está lá trabalhando para vender o seu voto.

Eu acho que o Temer vai conseguir ser salvo. Abriu o caixa descaradamente, ética zero, moral zero. As ruas estão surpreendentemente quietas, o que demonstra uma desilusão completa. As pessoas estão tão absortas pela desilusão política, tão tontas, que nem às ruas elas vão protestar. Preferem ver a crise política de “Game of Thrones” e de “House of Cards” (série de TV sobre poder) do que a do seu País. É uma desilusão com a esquerda, com a direita e com os políticos tradicionais.

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