Fiapos de esperança

Se causou espanto o pedido de prisão preventiva de Lula por três promotores de São Paulo, não é menos surpreendente o procurador Rodrigo Janot pedir a abertura do sétimo inquérito contra o presidente do Senado, Renan Calheiros, justamente na sexta-feira à noite. Terá sido por acaso? Ou confirma o desespero de quem sabe que o governo não tem mais jeito?

Eliane Cantanhêde*, O Estado de S.Paulo

13 de março de 2016 | 03h00

Mesmo ministros do Supremo, tão escaldados, estranharam a oportunidade do pedido de Janot, horas antes da convenção em que o PMDB colocaria o pé fora do governo e dois dias depois do jantar em que pemedebistas e tucanos selaram um pacto de união para tocar o País após a queda de Dilma Rousseff – considerada favas contadas.

Dilma afundava na Câmara e contava com Renan no Senado, mas até essa boia furou, quando Renan concluiu que ela não tem condições de concluir o mandato. Daí a entrada em campo dos profissionais da política, no PMDB e no PSDB, para não deixar o País cair no vácuo. Pode até ser injusto, mas a leitura em Brasília é que Janot parece dar um aviso a Renan: se ele se “comportar bem”, a pressão continua só em cima de Eduardo Cunha, mas, se ele abandonar Dilma no oceano da ingovernabilidade, aí tem troco.

É mais um lance para confirmar a situação crítica de Dilma, que se agarra a boias furadas e a fiapos de esperança para tentar se segurar no mandato até 2018. Renan é a boia furada e o ex-presidente Lula é o fiapo de esperança, numa falsa escolha de Sofia. Se Dilma não nomear Lula para “primeiro-ministro”, seu governo acaba. Se nomear, acaba também.

Dilma, Lula e o PT, portanto, entram na fase do desespero, enquanto o País mantém a interrogação e o mundo político começa a preparar a resposta para essa interrogação. Todos os lados sabem que não dá mais para esperar, está se tornando uma questão de vida e morte – sobretudo para o País.

É por desespero que a presidente da República faz algo raiando ao patético: chama a imprensa para negar que vá renunciar! Quem não imaginava a possibilidade passou a considerá-la. Assim como atraíra antes para dentro do Planalto a palavra “impeachment”, Dilma agora carimba na sua testa o termo “renúncia”.

É uma forma elementar de autoenfraquecimento e com um detalhe que piora tudo: ares de soberba. “Testemunharam que não tenho cara de renúncia?”, disse aos jornalistas, de nariz em pé, ironizando a versão – dadas pelos seus próprios assessores, diga-se – de que esteja “resignada” com o triste fim da primeira mulher eleita presidente no Brasil. Um desastre.

Presidente de um país afundado em crises, à frente de um governo que não governa, rechaçada pelo PT, abandonada pelo PMDB e o PSB, rejeitada pela sociedade, em confronto aberto com o Congresso, amparada melancolicamente por Jaques Wagner e José Eduardo Cardozo – que não têm alternativa –, resta a Dilma agora jogar a toalha, resignada ou não, e ceder a cadeira e o comando para Lula.

Mas... se não se pode subestimar o carisma e a genialidade política de Lula, também não se deve superestimar um ex-presidente que sacoleja, desengonçado, dentro de um lava-jato: depoimento de horas à PF, condução coercitiva determinada pela Justiça, até um atrevido pedido de prisão preventiva feito por promotores estaduais.

Que Dilma está acabada, não há dúvida. Mas será que Lula tem condições de virar o jogo, recuperar o respeito do Congresso, a confiança do empresariado, a idolatria da maior parte da população e fazer o ajuste fiscal, salvar o governo, a própria pele e, enfim, o País?

Tem muita gente boa acreditando que sim, mas há controvérsias, porque a única coisa visível nesse movimento mirabolante é o desespero de quem não tem saída, o derradeiro esperneio antes da, digamos, “resignação”. É muita mágica para um mágico tão combalido. E com o povo na rua!

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