FHC teme "fundamentalismo de mercado" na globalização

O presidente Fernando Henrique Cardoso criticou a tendência de a globalização transformar-se emsinônimo de "fundamentalismo de mercado" e de "capitalismo selvagem em dimensão global". Seus argumentos foram registrados em um livro, com textos elaborados por chefes de Estado e porespecialistas em comércio exterior, divulgado pela organização da Cúpula Ibero-Americana. Ao longo de duas páginas, o presidente acentua que essa tendência é alimentada pelo déficitde democracia e de cidadania no mundo.Essa foi a primeira vez que Fernando Henrique se dirigiu aos países que mais podem se beneficiar de seus argumentos. O texto foi encaminhado a todos os chefes de Estado presentes à reunião. Sob o título Os Desafios da Governança em uma Economia Globalizada, o presidente brasileiro argumentou que a globalização alimentou assimetrias entre os países mais ricos,os emergentes e os pobres. Para ele, a volatilidade dos fluxos financeiros internacionais gerou instabilidade e turbulênciasnas finanças dos mais vulneráveis - da mesma forma que permitiu o ingresso de capitais.Fernando Henrique lembrou que a liberalização comercial tem sido acompanhada pela manutenção do aparato protecionista pelos países mais ricos. Por fim, a inexistência de novos mecanismos de coordenação e de governança mundial levou a umatraso na inserção política e econômica dos menos favorecidos."Como já ocorreu também em outros momentos históricos, a política caminhou atrás - e bem atrás - da economia", registrou o presidente no texto. "Um dos resultados disso é a percepção de que existe, hoje em dia, um déficit de democracia e de cidadania no plano internacional", completou Fernando Henrique.Para ele, esse cenário somente pode ser contornado com três linhas de ação. A primeira é a maior participação dos países mais pobres nos foros de decisão mundial. A segunda dizrespeito às iniciativas para evitar que a globalização tenha como resultado a exclusão. "É preciso lembrar que o objetivo que dá sentido à ampliação do comércio e dos fluxos financeirosinternacionais não é apenas o de aumentar a riqueza, mas também o de eliminar a pobreza", opinou. "Sem a consciência desse duplo objetivo, não haverá justiça e não haverá desenvolvimento."África - O presidente arremata com a necessidade de um esforço mundial de cooperação com os países mais pobres, sobretudo os da África. Esses dois últimos tópicos serãodiscutidos em março de 2002 na Conferência das Nações Unidas sobre o Financiamento do Desenvolvimento, que está programado para ocorrer em Monterrey, no México.

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