FHC sobre crise: 'É fácil jogar pedra'

Ex-presidente afirma, na TV, que protestos ‘não têm foco claro’, mas classe média ‘está achatada’

Guilherme Waltenberg, O Estado de S. Paulo

01 de julho de 2013 | 23h22

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) evitou criticar o governo federal diante das manifestações que tomaram conta do País. Segundo ele, o governo "chamou para si" o problema. "É fácil jogar pedra nesse momento, mas sei que a situação é difícil, é hora de compreender o momento", afirmou o ex-presidente na noite de ontem, em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura.

Ao comentar a recente onda de protestos País afora, o ex-presidente afirmou que o aumento da tarifa nos transportes foi o "estopim" das manifestações, mas, diferentemente de outras manifestações ocorridas no Brasil - como a passeata dos Cem Mil em 1968, a das Diretas-Já de 1984, citou - em que havia uma única bandeira a ser defendida, os manifestantes de agora defendem variados temas. "O estopim foi a tarifa de ônibus e metrô, foi o fio desencapado que provocou a onda de protestos. As manifestações de hoje são diferentes porque não têm um foco claro", afirmou.

O ex-presidente disse ainda que os movimentos que tomaram as ruas do Brasil são consequência de uma crise da vida "cotidiana" da população, e não apenas de uma crise das instituições do País. "O que vemos é a falência dos órgãos públicos há muito tempo. Esses são os problemas que afetam as pessoas, é uma crise das vidas cotidianas, e não das instituições", disse.

A classe média, observou, "está achatada" e também sofre com os problemas na educação, nos transportes e na saúde. "As pessoas estão cansadas da vida como ela é nas grandes cidades." Fernando Henrique citou um artigo que produziu em 2011 sobre o que seriam as futuras demandas das "classes emergentes", com foco na qualidade de vida, para explicar parte da crise. "Não é a demanda sindical, do salário, é a de viver melhor. E outro componente é a decência. Há uma indignação em função do processo de corrupção que atingiu vários setores", avaliou. Para o ex-presidente, o atual momento é de "meditar sobre o que está acontecendo", ponderou. FHC afirmou, no entanto, que faltou o governo "conversar" com o País.

"O Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil cresceu, mas a sociedade não", afirmou, ao comentar o avanço econômico do País e a persistência de deficiências em áreas como educação e saúde e transportes.

Constituinte. Questionado sobre suas críticas à proposta da presidente Dilma Rousseff de chamar uma Constituinte para realizar a reforma política, embora ele mesmo tenha defendido uma Constituinte específica para a reforma política, tributária e judicial em 1998, Fernando Henrique foi taxativo: "Eu errei".

Ele contou que quando recebeu a informação de que a presidente Dilma pretendia realizar a Constituinte, ele estava na companhia do ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Carlos Ayres Britto, e que ele mesmo contestou a validade legal de tal procedimento, dizendo que a Constituição não dá margem para a criação de outra Constituição. "Mais adequado seria um referendo."

Para o ex-presidente, a reforma política deveria ser discutida no Congresso. Segundo ele, o tema é muito complexo para ser discutido e apresentado em forma de plebiscito, e citou o voto distrital como exemplo. "Diz que quer (voto distrital), mas qual vai ser?", questionou, ressaltando os diferentes modelos, como o puro, misto, no modelo alemão, francês, etc. Na avaliação de Fernando Henrique Cardos, a razão de o governo querer o plebiscito é por não sentir ter legitimidade. "Então vai buscar o povo. Teremos daqui para frente momentos difíceis", avaliou.

Sobre o papel da oposição, FHC disse que houve "encolhimento" do espaço público e que temas importantes não são mais discutidos. "A oposição existe basicamente no Congresso. Mas se o Congresso perde relevância, temas importantes não chegam às pessoas." / COLABOROU FERNANDA YONEYA

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