FHC questiona adesão de Chávez a 'democracia sustentável'

Na opinião do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, Hugo Chávez 'não representa um perigo', ao Brasil ou à região, mas ainda não deixou claro se a Venezuela 'é confiável em termos de democracia'.

BBC Brasil, BBC

04 de outubro de 2007 | 09h30

Na opinião do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, Hugo Chávez "não representa um perigo", ao Brasil ou à região, mas ainda não deixou claro se a Venezuela "é confiável em termos de democracia"."Meu partido está bloqueando a integração da Venezuela ao Mercosul por conta das cláusulas democráticas. Estamos pedindo maior transparência. Queremos saber se o país é confiável em termos de democracia. Este é o problema", disse Fernando Henrique.Nesta segunda parte da transcrição de sua entrevista ao programa de TV Hard Talk, da BBC, Fernando Henrique disse ainda que apóia os objetivos da política externa de Lula na busca de liderança no cenário internacional e de exportação de álcool combustível.Leia abaixo a transcrição da entrevista, feita no dia 25 de setembro. O ex-presidente foi questionado e respondeu em inglês. Com toda certeza. Principalmente em relação ao G20. Claro que apóio. Vamos separar as questões. Em primeiro lugar, eu apóio o Lula na tentativa de mostrar ao mundo que o Brasil deve desempenhar um papel importante. Não há dúvida. Claro, sou brasileiro. Mas em relação à influência de Chávez na América Latina, queria dizer que ele já era presidente durante meu governo e Brasil e Venezuela mantiveram uma boa relação. Antes de Chávez, Caldeira foi o primeiro líder venezuelano a decidir voltar sua atenção para o sul, para o Brasil, e julgamos que isso era algo de grande importância para a região. Desenvolvemos então a relaçãoo entre Brasil e Venezuela. Eu chego lá. Uma coisa é reconhecermos a importância da Venezuela e saber que temos que manter uma boa relação. Outra coisa é o presidente Chávez. Ele não é de esquerda, ele é anti. Cháves é anti-Estados Unidos e antiglobalização. O Brasil não pode aderir a esse tipo de atitude. Eu diria que Lula seria mais cauteloso em não aderir porque ele tem conexões políticas com pessoas que apóiam Hugo Chávez. Eu não as tenho. Meu partido está bloqueando a integração da Venezuela ao Mercosul por conta das cláusulas democráticas. Estamos pedindo maior transparência. Queremos saber se o país é confiável em termos de democracia. Este é a questão. Não nos opomos por conta da integração econômica, por conta das cláusulas econômicas. O que meu partido está perguntando ao presidente Chávez é se a democracia na Venezuela é sustentável. Ao assinar o tratado como membro do Mercosul o país tem que se obrigar a manter regras democráticas rigorosas. E eu penso que isto é correto. Você me perguntou se Chávez representa um perigo, eu nunca achei isso. Não o vejo como um perigo. Ele tem uma forma de atuar diferente da minha, a sua forma é baseada numa avaliação negativa da globalização. Ele tenta preencher a lacuna que existe entre os líderes de esquerda da região, um papel que Lula não pode desempenhar. E eu não concordo com o presidente Chávez nestas questões. Não, não, Clinton. Veja, não podemos colocar uma questão política dessa maneira, de um modo tão simples: Sim ou Não. Mas eu não estou negando... Eu acredito que melhor represento os interesses do Brasil. O objetivo do Brasil é estar integrado mundialmente e ser respeitado, desempenhar um papel muito independente e não estar alinhado aos Estados Unidos. Não reservadamente, publicamente. Claro, eu sou um crítico do governo Bush. Sim, por causa do Iraque, da guerra no Iraque. Acredito que isso é um grande erro e também por causa do meio ambiente. Nunca concordei com as idéias do presidente Bush. Sem a menor dúvida. E nos Estados Unidos também. E em todo o mundo. Portanto, esta não é minha posição. Sou contra este tipo de posição. Eu acho que atualmente o mundo se encontra numa situação dificílima. É necessário reorganizar o pacto mundial. É impossível continuar se levando adiante a idéia de que se pode unificar, homogeneizar o mundo em torno de uma idéia de democracia, da maneira em que a democracia é institucionalizada nos Estados Unidos. Por esta razão é que sou altamente crítico em relação à guerra no Iraque. Bom, primeiramente não estamos exportando para os Estados Unidos. Zero! É para consumo brasileiro não para os Estados Unidos. Você tem uma idéia da percentagem de terra utilizada para a produção de etanol no Brasil? É nada! FHC: Você tem uma idéia de quantos milhões de hectares cultiváveis o Brasil possui? Eu vou lhe dar uma idéia. São 400 milhões. Mas sua hipótese é equivocada. Você não precisa deslocar outras lavouras. Nós temos terra. Eu sei que temos de ter um equilíbrio. Tenho grandes preocupações com o meio ambiente. Jamais vou concordar com políticas que transformem lavouras apenas na produção de cana-de-açúcar. Acho muito importante termos diversificação, uma variedade de lavouras, incluindo alimentos. A idéia de termos plantação de cana-de-açúcar no lugar da produção de alimentos é uma idéia vaga, defendida por Hugo Chávez, mas não é uma idéia baseada em dados. Nesse sentido, sim. Claro. Não penso se é possível ou não. O Brasil vem mudando ao longo do tempo e tem se tornado um país importante. Quando eu nasci, em 1931, provavelmente deveria haver no mínimo 60% de brasileiros que sabiam ler ou escrever. Atualmente, todos os jovens freqüentam as escolas. Na época em que nasci, o Brasil tinha 80% de sua população concentrada em áreas rurais. Agora, é um país diferente. Portanto, sim! Estou muito otimista neste sentido. E acho que é possível acreditar que o Brasil tem um grande futuro, desde que a classe dominante tenha maior sensibilidade para combater a corrupção e se preocupar mais com a situação interna. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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