FHC promete empenho para aprovar reformas

O presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou ontem que o governo federal vai se empenhar na aprovação das reformas, particularmente na tributária, que deve ser feita ponto a ponto e não de uma só vez. "Não sei porque alguns setores no Brasil têm comichão quando ouvem falar em reformas", desabafou ele, lembrando que não dependerá da oposição para realizá-las, porque ela é minoria no Congresso. Mas, em seguida, tentou consertar a provocação, ressaltando que acredita que a oposição deveria ajudar nessas reformas, porque o Brasil precisa delas.Fernando Henrique reagiu também à disposição da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e da Força Sindical de promoverem paralisações diárias de uma hora para pressionar o governo a pagar o reajuste de 68% do FGTS. "Não adianta fazer greve. O Tesouro não tem nada a ver com isso", afirmou o presidente, que disse desconhecer a proposta das centrais sindicais. "Pode fazer greve, só se for para obrigar os empresários a pagarem a parte deles", ironizou ele, acrescentando que só se a paralisação for para isso. Depois de lembrar que manifestação na democracia faz parte do dia a dia, o presidente insistiu que não seria justo todos os brasileiros pagarem por uma questão que é de grupo, que é dos trabalhadores. As declarações do presidente foram dadas em entrevista coletiva no Hotel Borobudur, em Jacarta, onde está hospedado, logo após se reunir com o presidente da Indonésia, Abdurrahman Wahid, no Palácio Merdeka. Esta foi a penúltima etapa da viagem de dez dias do presidente à Ásia. Ontem ele embarcou para a Cidade do Cabo, na África do Sul, já percorrendo o caminho de volta ao Brasil. Sua chegada está prevista para a noite de hoje.Disputa - Para o presidente, as disputas pelas presidências na Câmara e no Senado não vão atrapalhar a sua intenção de apressar as reformas, em função de rachas na base governista. "Presidências da Câmara e do Senado são assuntos do Congresso e reformas são assuntos do País", ensinou o presidente."Alguém vai ser presidente da Câmara, alguém do Senado e o País quer as reformas", disse ele, tentando separar as questões. "O País quer as reformas e os novos presidentes têm de se engajar nelas não porque eu queira, mas porque o País precisa."Em relação à postura da oposição, que tem afirmado que não será possível fazer as reformas este ano, o presidente considerou esta "uma posição política equivocada". "São o quê, reacionários? Contra as reforma? Atrasados? Querem ficar com uma coisa que não funciona mais?", indagou. Em seguida, desabafou: "não dá para entender isso".Na opinião do presidente, "essa questão de a oposição ser contra as reformas é o que atrapalha a oposição". É não querer que o Brasil avance. "Ninguém pode ser contra as reformas", acentuou ele, acrescentando que a oposição é minoritária no Congresso e "não dependerá dela fazer ou não a reforma."Propostas - Fernando Henrique fez questão de explicar a reforma tributária é importante porque, por exemplo, é preciso que o imposto de produto de exportação seja reduzido. "Quem é que pode ser contra isso? Certamente ninguém de bom senso", observou ele, passando, em seguida, a fazer um apelo a todos os setores para que lutem pela aprovação delas. "Nós vamos tentar fazer a reforma, dentro de um realismo e o realismo não leva que se faça a reforma em seu conjunto", justificou. "Vamos ver quais são os pontos mais necessários e concentrar neles", informou o presidente, sem apontar por onde pretende começar a discussão.O presidente lembrou ainda que há outras reformas que precisam ser tocadas também como a da Previdência, que depende da aprovação de leis complementares, a eleitoral, que depende de aprovação, por maioria simples, de alguns pontos e a política. "As reformas têm dado resultados e vamos encaminhá-las", disse ele depois de garantir que as disputas no Congresso e os possíveis problemas na base aliada não irão atrapalhar sua disposição.Empresários ? Fernando Henrique almoçou ontem com empresários que participavam do seminário "Comércio e Oportunidades de Investimentos com o Brasil". Em seu discurso, voltou a criticar "o protecionismo e a competição desleal dos países desenvolvidos" e ressaltou que, como importantes produtores agrícolas, o Brasil e a Indonésia têm interesses comuns nessas áreas.Ao defender a necessidade de ampliação dos negócios entre os dois países, o presidente classificou como "ridículo" os atuais números que envolvem as transações comerciais bilaterais: US$ 400 milhões. "Há inúmeras possibilidades de investimentos em ambos os países, e eu estou convencido de que este seminário está dando uma contribuição extremamente útil para a identificação dessas oportunidades", disse ele, acrescentando que "nossos governos devem mostrar o caminho e criar um quadro de institucional para a expansão das relações bilaterais". Mas ressaltou que os acordos precisam ser negociados para que os obstáculos burocráticos sejam reduzidos ao máximo possível. O presidente salientou que nem tudo pode ser feito pelo governo e que é preciso haver a participação ativa do setor privado.

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