Leo Martins/Estadão
Leo Martins/Estadão

FHC: 'Presidente atual diz que não houve golpe em 64, ele não estava lá'

Ex-presidente Fernando Henrique Cardoso comentou ainda que é preciso restabelecer o clima de civilidade no Brasil, com menos polarização política

Ricardo Leopoldo, enviado especial, O Estado de S.Paulo

05 de abril de 2019 | 15h54

BOSTON - O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso comentou nesta sexta-feira, 5, sobre a recente polêmica em relação ao golpe militar no Brasil em 1964. "O presidente atual disse que não houve golpe. É que ele não estava lá", disse, referindo-se ao presidente Jair Bolsonaro. Ele fez os comentários na Brazil Conference em Harvard e MIT

Cardoso ressaltou que a Carta Magna de 1988 permitiu que a sociedade poderia opinar em sua formulação com emendas populares. "Constituição democrática começou da base, com comissões. Nós, os formuladores, éramos favoráveis ao parlamentarismo." 

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso comentou que "é necessário restabelecer o clima de civilidade no Brasil", a fim de reduzir o atual nível de polarização política no País. Contudo, ele ressaltou que esse processo leva tempo, pois ainda ocorrem fatos importantes que interferem neste movimento de busca de maior diálogo. "Algumas pessoas estão na prisão. É preciso refletir e propor uma nação mais moderna."

Segundo Cardoso, ocorreu uma perda na crença da democracia no Brasil por vários fatores. "Ocorreu o impeachment do ex-presidente Collor. Eu escapei. O ex-presidente Lula está na cadeia. Também aconteceu o impeachment da ex-presidente Dilma. Alguma coisa está mal", apontou. "Não conseguimos que governos fossem capazes de processar as demandas politicas e sociais", apontou. "O Brasil tem uma situação delicada."

Fernando Henrique disse que sempre foi reticente ao impeachment de presidentes, pois é um recurso que só deve ser adotado quando esta autoridade não tem mais condições de administrar o País. "Fui contra o (um eventual) impeachment do Lula. Ele é trabalhador, ex-líder metalúrgico, tem papel na história", destacou. "A Dilma, por outro lado, caiu porque não tinha mais condições de governar e também porque ocorreram as pedaladas fiscais."

De acordo com FHC, o sistema político no Brasil apresentou um quadro nas últimas décadas que colaborou para certo ceticismo da população com a sua funcionalidade.

O ex-presidente apontou que a Constituição de 1988 definiu um sistema pluripartido, que, na prática, permite a eleição de um presidente cujo partido raramente tem 20% dos votos nacionais. Neste contexto, ocorreu o presidencialismo de coalizão, mas, que por outro lado, gerou dúvidas da sociedade sobre se as agremiações políticas que estão no poder trocam benesses em detrimento dos interesses dos eleitores. "Numa certa altura houve decisões de que seria mais fácil pagar pelo apoio do que obter o apoio. Ficou um sistema de cooptação."

"A Operação Lava Jato mostrou que o sistema político brasileiro estava baseado na corrupção. Não eram pessoas. Se organizou um sistema com forças dominantes e empresas e se ofereceu dinheiro de empresas públicas para caixas de partidos e políticos", apontou Cardoso. Segundo ele, a partir deste quadro, boa parte da população começou a fazer uma "criminalização da negociação, da política, confundido tudo como se fosse um ato de corrupção."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.