FHC prefere Alvorada para encontro com Blair

O presidente Fernando Henrique Cardoso usou todo seucharme para receber o primeiro-ministro da Inglaterra Tony Blair.Entusiasmado com a vinda do premiê inglês, o político tucano abandonouo formato tradicional das recepções a chefes de estado estrangeiros etransformou o que poderia ter sido uma agenda burocrática em conversasdescontraídas, travadas em ambientes mais informais. O presidentebrasileiro deixou de lado a imponência dos salões do Palácio doItamaraty, a face mais conhecida do ministério das Relações Exteriores,e ofereceu a seu colega inglês os espaços mais acolhedores do Palácioda Alvorada, residência oficial do casal Cardoso.A opção pelo Alvorada foi uma espécie de homenagem de FernandoHenrique a Blair. Já em seu primeiro mandato o presidente brasileiro setornou bastante próximo do premiê inglês, que o convidou a participardo seleto grupo de chefes de Estado que discutiu a chamada terceiravia, expressão criada por Blair para traduzir a preocupação emconciliar governabilidade com maior inclusão social. "Ele tinhaprometido que viria ao Brasil, eu cheguei a pensar que não viesse, eestou muito feliz", disse o presidente hoje, sem esconder uma ponta deorgulho por ser o anfitrião da primeira visita de um premiê inglês aoBrasil.Tony Blair desembarcou na base aérea de Brasília pela manhã e foirecebido com honras no Palácio do Planalto. A rotina da recepção formalfoi mantida, para desespero do apresentador de televisão Luciano Huck,que passou o final de semana em Brasília para produzir uma matériaespecial sobre a cavalaria de guarda do Exército. Usando a farda de umDragão da Independência, uma espécie de uniforme de gala, o animadorfoi impedido pela segurança de gravar os dois chefes de governo subindoa rampa do Planalto. É a primeira vez que os dragões protagonizam umprograma da televisão e a reportagem de Huck deverá ser exibida àsvésperas do 7 de setembro.Após algumas reuniões de trabalho, os dois chefes de governo e acomitiva do premiê inglês foram levados ao Alvorada, palco de umaentrevista coletiva e do almoço oferecido pelo presidente brasileiro.Fernando Henrique aproveitou o clima agradável da estiagem - apesar deo ar ficar mais seco nesta época do ano, a capital federal oferece diasensolarados e uma brisa fresca - para conversar com os jornalistas nosjardins do palácio. Não é a primeira vez que o político tucano troca oar condicionado dos salões do Itamaraty pelos jardins verdinhos doAlvorada. Um sistema de irrigação garante o frescor da grama nessestempos de seca e a vista é muito bonita.A primeira vez foi em 1997, quando recebeu o ex-presidente dos EstadosUnidos Bill Clinton. "A orientação era fazer da entrevista um momentodescontraído e simpático", justificou uma fonte no ministério dasRelações Exteriores. O desafio, conta a fonte, era encontrar o lugarideal. "Era preciso proteger os presidentes do sol sem impedir oatendimento da imprensa", comentou. Funcionários do Itamaraty "testaramo sol" na semana passada, observando nos jardins do Alvorada amovimentação do astro-rei. Além disso, era preciso incluir no cenárioum símbolo de Brasília e do Brasil, já que a entrevista seriareproduzida não apenas pela imprensa nacional como, também, pelainternacional.Depois de muita observação, os dois políticos foram abrigados à sombrade uma árvore da família do Pau Brasil, nativa da Mata Atlântica,plantada próxima à piscina. Ali, todo dia na hora do almoço, a sombra éfresca e permanente. Ao redor da árvore, foram distribuídas cadeiraspara as autoridades e para o jornalistas. À frente de Blair e FHC umavista panorâmica dos jardins do palácio e, mais à direita, uma vista doLago Paranoá. Ao fundo, as colunas do Alvorada, um dos cartões postaisda capital federal e uma das obras mais bonitas de Oscar Niemeyer. Osdois falaram em pé, mas a maior parte das perguntas foram dirigidas aopremiê inglês. Dessa vez, Fernando Henrique economizou seu inglês efalou apenas em português. O cerimonial do Planalto também havia preparado um plano B, para ocaso de alguma chuva eventual - nesta época do ano nunca chove, massurpresas acontecem, justificam - e uma sala logo à entrada principaldo Alvorada ficou pronta para a ocasião. O cenário ficou completo com oRolls Royce presidencial, cuja restauração foi acelerada para quepudesse estar presente nesta ocasião. O carro, que passou por reparosem uma oficina especializada em São Paulo, ficou estacionado à beira dapiscina. Doado pela rainha Elizabeth em 1950, durante o governo deGetúlio Vargas, o carro foi apreciado por um Blair bem humorado, queaprovou seu estado de conservação. Fernando Henrique desfilou nele emsua primeira posse e, eventualmente, passeia com ele em datas como 7 desetembro. Mas não é sempre.Comida especialRuth Cardoso não foi vista hoje, mas cuidoupessoalmente da esposa do premiê britânico. Usando um vestido cinza, aprimeira-dama brasileira formou um pequeno grupo de mulheres paraajudá-la a entreter Cherie Booth. Enquanto os maridos participavam daentrevista, essas cinco senhoras tricotaram longamente no Salão deEstados do Alvorada, um ambiente ao lado da biblioteca, decorado comobras de arte e peças de legítimo artesanato brasileiro em que a grandevedete é uma tela do ceramista e pintor Antônio Poteiro.Antes, a esposa do premiê - que é advogada e prefere não usar osobrenome do marido famoso - já havia passado pelo Supremo TribunalFederal (STF), onde conversou com a ministra Elle Gracie Northfleet, aprimeira mulher a conquistar uma vaga na mais alta côrte do País. Asduas trocaram presentes e discutiram a necessidade de se aumentar apresença feminina nos tribunais e a esposa do premiê chegou a lamentarque a Suprema Côrte Britânica ainda não tenha dado assento à umamulher. Aprovado pela primeira-dama, o almoço oferecido pelo casal Cardoso aocasal Blair foi preparado com verduras e legumes colhidos na horta doAlvorada. Acomodados em uma grande mesa em formato de U - com trêsmesas redondas contíguas - os cerca 67 convidados degustaram salada compalmito fresco e filé mignon com molho picante preparados por RobertaSudbrack. A sobremesa foi mil-folhas de frutas tropicais e sorvete depitanga. O grupo era formado por autoridades e empresários brasileirose ingleses. Indicado para o ministério do Desenvolvimento, o embaixadordo Brasil em Londres Sérgio Amaral almoçou no Alvorada e aproveita suapassagem pelo País para combinar a data de sua posse.

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