Jonne Roriz/AE
Jonne Roriz/AE

FHC não vê ‘vocação nacional’ em alianças

Para ex-presidente, que foi a Washington receber um prêmio, cada partido vai ‘maximizar’ chances, sem pensar no depois

Denise Chrispim Marin, correspondente em Washington

10 de julho de 2012 | 23h14

A aliança entre partidos para eleições municipais é provinciana e não tem vocação nacional, afirmou nesta terça-feira, 10, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ao avaliar o grau de parceria possível entre o seu PSDB e o PSB, do governador pernambucano, Eduardo Campos. Os dois partidos, assinalou FHC, parecem próximos para a eleição em Belo Horizonte - onde o prefeito socialista Marcio Lacerda rompeu com o PT e tem o apoio tucano. Em São Paulo, no entanto, a aliança do PSB foi feita com o PT

"A política brasileira, na hora da eleição municipal, é de cada província, Estado, de cada local. A vocação nacional dos partidos desaparece na hora da eleição municipal", argumentou FHC numa entrevista em Washington, antes de receber, ontem à noite, o Prêmio John Kluge, de US$ 1 milhão, dado pela Biblioteca do Congresso dos EUA.

"Não dá para avaliar o que vai acontecer com as alianças (em 2014)", disse FHC. "Cada partido vai tentar maximizar suas chances (este ano), sem se preocupar com o que virá depois e menos ainda com os choques entre suas visões." Em tom de desilusão, o ex-presidente se disse preocupado com a dissolução dos conteúdos programáticos dos partidos brasileiros, que estariam se convertendo apenas em "legendas".

Privilégio. Em seu discurso de aceitação - dez páginas lidas em inglês - o ex-presidente definiu como "um verdadeiro privilégio" ter sido "o primeiro da América Latina" a receber o prêmio e dedicou-se a cruzar, em linhas gerais, sua história pessoal com a da política brasileira. Constatou, então, que sua vida pode ser entendida "como uma dicotomia entre a ética da responsabilidade - de um agente público - e a ética dos valores absolutos - a do sacerdote, do profeta e do professor". Em sua história, viveu "entre valores e prática, entre razão e emoção". Entendeu que "a academia e a política - a razão e a emoção - não eram só complementares: eram essenciais".

Mas a experiência, prosseguiu, ensinou-o "a ser otimista", pois no Brasil, "em alguns aspectos, tem havido um reencontro com conceitos como humanidade e comunidade" - ou "uma crescente tendência rumo à aceitação de diferenças e mesmo tolerância dos conflitos". O ex-presidente deu ainda entrevista ao The Washington Post, que lhe perguntou sobre riscos que a crise mundial pode trazer ao Brasil. FHC advertiu, então, para "a falta de sonhos, de horizontes. Quando você não vê possibilidades de seguir adiante e a situação está piorando, então você tem a possibilidade de uma crise séria".

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.