Denise Andrade/ESTADÃO
Denise Andrade/ESTADÃO

FHC diz que partidos perdem legitimidade quando eleitores deixam de acreditar nas siglas

Ex-presidente tucano recomendou ao próprio partido que organizasse diretórios virtuais: 'Ninguém vai sair de casa para decidir o pequeno poder político do partido'

Célia Froufe, O Estado de S.Paulo

18 de abril de 2017 | 12h02

LISBOA - O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disse em palestra nesta terça-feira, 18, que quando as pessoas deixam de acreditar nos partidos os representantes das siglas perdem legitimidade. "Este é o problema que nós temos. A crise que estamos vivendo não é propriamente uma crise, é uma mutação da civilização e que tem consequências políticas", disse, durante a principal conferência durante o V Seminário Luso-Brasileiro de Direito, em Lisboa.

"Vamos cruzar os braços por causa disso ou vamos jogar fora aquilo que foi feito desde o século XIX? Não, vamos ter que adaptar, vamos ter que adaptar as nossas instituições ao modo de viver contemporâneo", disse FHC. 

O ex-presidente questionou como se pode fazer democracia sem partidos. Disse que não daria muitos detalhes, mas que recomendou ao seu próprio partido (PSDB) que organizasse diretórios virtuais. "Ninguém vai sair de casa para decidir o pequeno poder político dentro do partido. Ninguém quer saber quem é o deputado, o presidente do diretório... Isso não está interessando à população", concluiu, acrescentando que, como presidente de honra, não tem poder nenhum dentro da agremiação tucana "graças a Deus".

O ex-presidente ressaltou que, atualmente, as pessoas se conectam de outra maneira, então é preciso abrir uma brecha. "Um fato aberrante: no meu país, depois da democracia, presidente eleito mesmo pelo voto foram quatro - dois dos quais sofreram impeachment. Alguma coisa está errada", relatou a uma plateia de portugueses e brasileiros.

Fernando Henrique explicou que um deles (Fernando Collor de Melo) era conhecido como de direita e a outra (Dilma Rousseff), de esquerda. "Esses termos são confusos hoje e não correspondem ao que significavam no século passado. Os deputados não correspondem nem a uma coisa e nem a outra. São os mesmos interesses corporativos e outros que estão circulando no Congresso o tempo todo", avaliou.

FHC contou que, quando era presidente, ficou "chocado" algumas vezes. "Quando você vai discutir com os partidos, cadê os partidos? Não, aqui é a frente governista, que vai eventualmente para direita ou esquerda. Outra é da frente da saúde pública, a outra é da frente de não sei o quê. Você não está discutindo com o partido, você está discutindo com causas ou interesses organizados a partir daquela fragmentação", relatou.

O ex-presidente disse ainda que a estrutura que existe encaixando todos esses interesses está mantida. Para ele, o momento é complicado no País, mas é um bom momento para quem está fazendo política porque dá para pensar como é que vai se organizar tudo isso mais à frente. "Essa coisa de ter sido sociólogo é complicado. Você sabe das coisas, ou pensa que sabe. E, no pensa que sabe, erra", disse. "É difícil projetar um processo decisório daqui para a frente."

O evento, promovido pela Escola de Direito de Brasília do Instituto Brasiliense de Direito Público (EDB/IDP) e pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (Fdul), ocorre também na quarta e quinta-feira e conta com outros participantes brasileiros, como o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes.

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