FHC diz nunca ter interferido em ações contra seu governo

Ex-presidente concedeu entrevista ao programa de TV 'Hard Talk', da BBC World.

BBC Brasil, BBC

04 de outubro de 2007 | 09h25

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disse que "nunca interferiu" para que a Procuradoria Geral da República arquivasse processos contra membros de seu governo e que - durante seu período na Presidência - o procurador era "totalmente independente" do poder Executivo.A afirmação foi feita durante entrevista ao programa de TV Hard Talk, que vai ao ar no canal de notícias internacional BBC World nesta quinta-feira.O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e líderes do PT têm argumentado com freqüência que acusações de corrupção envolvendo membros do governo e do partido seriam resultado de uma postura mais independente do procurador-geral e da Polícia Federal.Durante a campanha eleitoral de 2006, Lula disse que, no seu governo, "procurador-geral da República indicia. Em outros governos, ele engavetava".Na entrevista ao Hard Talk, Fernando Henrique Cardoso também afirmou que a falta de confiança nos políticos impede as pessoas no Brasil de perceber que o país está progredindo.Leia abaixo a primeira parte da tradução da entrevista, feita no dia 25 de setembro. O ex-presidente foi questionado e respondeu em inglês. Eu diria que basicamente isso se deve à falta de confiança na vida política que existe hoje em dia no Brasil. Não que isso seja centrado em alguém especificamente, em algum personagem, ou no presidente. Não é isso. Mas no Congresso, na maneira em que os políticos tratam os problemas nacionais. E também por causa da corrupção que existe em meio à liderança política. Eu não diria que existe uma crise de identidade....acho que é mais um sentimento de malaise...se me permite usar uma expressão em francês....como se nós não estivéssemos nos sentindo bem. Quer dizer, me refiro à classe média, àquelas pessoas que lêem jornais ou que tentam seguir o que acontece no Congresso. Porque a percepção do cidadão comum é de que, como você disse antes, a economia vai bem. É verdade que não vai tão bem como em outros países ou mesmo como foi bem em outros tempos no Brasil, mas de todo modo um crescimento de 4 porcento ao ano não é ruim. E também é verdade que está havendo uma redução do nível de pobreza. Portanto, nesse sentido o cidadão comum acha que seu padrão de vida está melhorando. Bom, é um pouco exagerado dizer que existe uma fragmentação total. Na verdade, em outros momentos da história do Brasil existiu um sentimento de que o país estava progredindo. Agora, estamos progredindo de fato, mas não existe essa sensação, essa percepção. Mas esse é exatamente o ponto mais importante. Nós temos repetido sempre, durante as últimas décadas, desde a redemocratização, que o país precisa de educação, saúde...Temos o problema da reforma agrária, o problema da pobreza, da miséria, e isso é dito e repetido todos os dias, de tal modo que os brasileiros se convenceram de que existe uma situação desesperadora no país, o que nao é verdade. Estamos progredindo. O que falta é apenas um novo consenso. Isso depende basicamente da liderança. Eu diria que não quero criticar o meu presidente, pelo contrário, pois acho que o Lula tem uma importância simbólica para o Brasil. Ele veio da classe trabalhadora e agora é presidente. Isso poderia ser um sinal importante. Portanto, por quê não? Então por isso é que digo que tudo se deve a essa falta de confiança na classe política, como se rotula, incorretamente, no Brasil, aqueles que têm controle do sistema político. Estes é que não contam com a confiança da população. Você está certo quando se refere à cultura política. Eu creio que consegui mudar o país. Em relação à economia, sem dúvida que sim. Não, não... Foi o que eu disse, mas porque nosso problema era dar à população acesso às escolas. Mas agora o problema é qualidade. E isto é diferente, você percebe? Temos que melhorar a qualidade do ensino, o que talvez seja mais difícil do que simplesmente garantir o acesso à educação. Não sou pessimista em relação ao Brasil, talvez esta entrevista tenha um tom pessimista, mas não é assim que me sinto. Desculpe-me, mas você está errado. Eu dei início...na verdade não fui eu, até mesmo antes...nós demos início aos programas de transformação no Brasil e os resultados estão surgindo agora. Eu posso lhe dar os últimos resultados. Os últimos resultados são referentes à redução da pobreza. A diminuição da pobreza no Brasil tem sido impressionante. Desde 1995 até agora, a linha da pobreza que era de 40% caiu para cerca de 28%. É verdade, mas por quê? Mas o primeiro passo foi estabilizar a economia. Com isso a linha da pobreza caiu de 40% para 30%. Este foi o Plano Real. Em seguida... Correto... Pode ser o que as pessoas acham mas não quer dizer que seja verdade. A estabilização ocorreu em 1995. Até antes disso, quando eu era ministro da Fazenda. Foi quando a inflação foi derrubada e desde então tem se mantido em níveis baixos. Lula apresentou um programa diferente, ao qual não me oponho. Sou a favor. E desde então ele tem se beneficiado de uma situação econômica mais favorável e pôde dar mais dinheiro para essa gente, e portanto tem aumentado, eu concordo com você, mas fui eu que comecei. A mudança da situação do Brasil começou com o programa de estabilização econômica durante o governo do presidente Itamar Franco, e posteriormente diversos outros programas iniciados pelo meu governo e então é natural que o país esteja bem melhor agora. Para início de conversa eu nunca fui um neoliberal. Sou a favor da economia de mercado, mas também sou a favor de uma ação ativa do governo, do Estado. Eu decidi não privatizar algumas empresas estatais e optei pela privatização de outras. Um exemplo é o setor das telecomunicações. O que aconteceu com as telecomunicações? Tínhamos 800 mil telefones celulares no Brasil agora temos 120 milhões e todos têm acesso. Se você olhar para as empresas de energia e mineração verá que o que fiz foi transformar as empresas estatais em corporações. Em conseqüência, atualmente a Petrobras é uma empresa importantíssima. O Banco do Brasil também tem um desempenho muito bom. Portanto, isso não é suficiente para formar uma nação, é preciso muito mais do que isso. Você pode ver que eu nunca fui um neoliberal. Por esta razão é que me referi ao sentimento de que não estava indo tão bem, era a sensação da classe média, que tem acesso à informação, de que a corrupção existe. Eu creio que ele é responsável por não ter sido mais forte. Lula poderia ter sido mais categórico, dizendo: "Isto é errado!" Recentemente, ao se referir a um de seus ex-ministros que foi condenado....não condenado....mas, indiciado pela Procuradoria da República, ele disse não acreditar que o ministro tenha tido um envolvimento real no caso. Creio que sim. Bom, não existe nenhum caso no meu governo de alguém que tenha sido indiciado ou algo parecido que tenha sido protegido por mim. Deixe-me dizer a você com bastante clareza. No Brasil, o procurador é totalmente independente do poder Executivo. Absolutamente independente. Sim, mas ele era totalmente independente. Ele fez seu próprio julgamento. Naquela época, vários procuradores eram fortemente influenciados pelos partidos políticos e em conseqüência eles tentavam levantar acusações contra esta ou aquela pessoa. E eu nunca interferi no processo. Nunca, em nenhum daqueles casos. Você pode me dar o nome de alguém que tenha sido considerado culpado? Ninguém foi acusado. Nunca ninguém foi nem acusado pela imprensa, nenhum dos meus ministros. E caso alguém tivesse sido acusado minha reação seria simplesmente demiti-lo. Isso é o que estou lhe dizendo. Eu também sou um sociólogo. Quando você diz que cabe a um líder mudar a cultura política, tenho a dizer que um líder pode dar um exemplo, pode impôr, mas isso é um processo muito mais amplo e não fica restrito a apenas um homem. Não estou acusando Lula por isso, o que estou fazendo é culpá-lo num caso específico em que ele poderia ter dito "não", ter dado um exemplo à nação. Para mudar o processo politico é uma longa história. É necessário mudar algumas regras, tem algumas implicações legais e é também preciso mudar-se a cultura. O que fiz foi tentar não deixar que o sistema partidário interferisse demais no governo, e dar um nível maior de profissionalismo ao meu governo.Leia a segunda parte da entrevista.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. 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