FHC defende reformulação de organismos financeiros

O presidente Fernando Henrique Cardoso defendeu hoje, durante a abertura da XXIII Reunião de Cúpula do Mercosul, a necessidade de reformulação dos organismos financeiros internacionais como Banco Mundial, Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e Fundo Monetário Internacional (FMI), que operam nos mesmos moldes de 1946. Para Fernando Henrique, a chancela do FMI não é mais suficiente, como no passado, para conter a especulação do mercado. "No momento em que o Brasil recebia do FMI, do BID e do Bird US$ 36 bilhões, o chamado mercado financeiro olhava para esta quantidade enorme de recursos e dizia que não era isso que faltava, mas sim faltava credibilidade que deriva de como vai ser a política econômica do futuro governo. No passado, isso seria impensável, porque a chancela do FMI, independente do montante de recursos, seria suficiente para acalmar os mercados, e não foi", observou.Ele afirmou ainda que é necessário resolver o problema do financiamento na região do Mercosul. "A região precisa ampliar a formação de capital e de mecanismos de financiamentos de longo prazo", disse FHC, ao ressaltar que o Brasil teve que buscar junto a organismos internacionais US$ 36 bilhões para resolver questões financeiras do País. Fernando Henrique ressaltou que o Banco Mundial empresta por ano a diversos países o mesmo volume de recursos que o BNDES empresta no mercado interno. "Se no Brasil as pessoas reclamam de falta de financiamento, imagine a situação no mundo", observou. Segundo ele, o desafio de resolver a questão do financiamento não é do Mercosul, mas de todos os países, "porque estas instituições não são capazes de atender as necessidades do mundo contemporâneo". O presidente destacou ainda que "os fluxos de capitais continuam a circular com velocidade incrível e com muita liberdade, e continuam as instituições internacionais a serem fracas diante do desafio". Experiência Para Fernando Henrique, Brasil e Argentina, como os países mais populosos e com maior PIB do Mercosul, devem ter um papel importante na integração dos interesses dos demais parceiros. Ele ressaltou que os países da região têm larga experiência em sobreviver na crise. "Quando não há turbulência num país, tem no outro. Mas nós, que estamos há mais tempo no governo, sabemos que, por mais forte que sejam as turbulências, elas passam". Na avaliação do presidente, os maiores desafios do bloco não são políticos e sociais, mas econômicos. Mas FHC disse ter certeza de que o próximo governo continuará dando prioridade ao Mercosul. Ele lembrou que o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o bloco deverá ser tratado com o coração. "Isso mostra que o presidente eleito tem um sentimento afetivo com o Mercosul que é o mesmo sentimento que o nosso", afirmou. Fez, porém, uma observação: "Além de ser tratado com o coração, o Mercosul também deve ser tratado com razão. É preciso que haja uma política coordenada e firme, para que possamos ampliar os nossos espaços no mundo". "Trata-se de enfrentar o conjunto do mundo", afirmou Fernando Henrique, destacando a necessidade de o Mercosul avançar nas negociações comerciais com outros blocos como a União Européia e a Alca. Para ele, se os países não conseguirem suas questões comerciais, também não conseguirão resolver suas dificuldades econômicas. AcordoOs países que integram o Mercosul assinam hoje um acordo com países do grupo andino que permitirá, num curto espaço de tempo, avançar no processo de integração dos dois blocos. Fernando Henrique destacou os desafios do Mercosul nas negociações com a União Européia. "Não tem sido fácil negociar com a União Européia, mas não há discussão comercial fácil, porque há choques de interesses", disse. Ele acredita que o Chile, que nos últimos dias conseguiu um acordo com a União Européia, abriu caminho para a região. "E nós temos que avançar neste caminho", frisou. Fernando Henrique destacou também a necessidade de o Mercosul chegar fortalecido nas negociações para a formação da Alca. Ele lembrou que a integração hemisférica está acontecendo pelas bordas, referindo-se aos vários blocos regionais que se formaram nas américas. Fernando Henrique destacou que o Brasil tem interesses nas áreas agrícola, de compras governamentais e de serviços. "Não vamos entrar na negociação com medo, mas com experiência", disse ele, para quem a conversa entre os blocos será como "entre adultos", de países que sabem da sua importância.

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