FHC atribui parte da crise na AL à mudança da agenda mundial

Na entrevista à Rádio Eldorado AM/FM, o presidente Fernando Henrique Cardoso também abordou os problemas que estão acontecendo em alguns países da América Latina, como a Colômbia, a Venezuela e o Peru, sem esquecer principalmente a crise que afeta a Argentina e a falta de sensibilidade de alguns órgãos internacionais e dos Estados Unidos para com o país vizinho. Ele atribuiu à mudança da agenda mundial americana de prioridades boa parte da crise que afeta hoje essas nações."Os Estados Unidos transformaram a agenda mundial numa agenda de segurança, basicamente, e não numa agenda de desenvolvimento e de comércio. É o que está acontecendo. Na agenda mundial atual, prevalece o terrorismo, a segurança e o armamento, contrariamente ao que aconteceu nas últimas décadas, quando prevaleceu a agenda do desenvolvimento, do comércio e da melhoria social".Segundo o presidente, essa realidade é negativa para a América Latina, que não tem nenhuma transcendência em matéria de segurança. Ao mesmo tempo, porém, aquilo que interessava ao continente e ao Brasil, que era a agenda positiva, ou seja, o desenvolvimento, também foi deixada de lado."A América Central melhorou bastante nos últimos anos. Hoje, ela tem regimes democráticos e, bem ou mal, as pequenas economias foram se inserindo no México e nos Estados Unidos. A coisa piorou na América do Sul, que é o que mais nos interessa, onde os problemas ficaram mais agudos pela falta de uma percepção internacional dos grandes organismos de que é preciso uma política específica para essa região".Para Fernando Henrique, no caso da Argentina, a política internacional que existe hoje é a do "lavemos as mãos". Segundo ele, a tática adotada foi: "deixe que eles primeiro se organizem para depois nós atuarmos". "Ora, disse o presidente, até eles se organizarem, pode haver o fundo do poço. E o pior é que, na história, poço não tem fundo, pode piorar ainda mais. A gente nunca pode imaginar que se chegou ao fundo. Então, isso me preocupa e preocupa o Brasil, que tem que exercer um papel equilibrador na América do Sul". Avanço da direita na EuropaO presidente teceu comentários sobre a eleição presidencial na França e ascensão da direita fascista em países como a Áustria, Itália, Bélgica e Holanda. Na opinião dele, o problema na Europa também é o da ?agenda do medo?, a agenda da insegurança. "Quando você entra num clima como esse, você corre o risco de uma reação do tipo fascista, de direita, e o que é mais lamentável atribuindo ao outro a responsabilidade pelos próprios problemas. Qual é o outro? É o imigrante" - afirmou.Ele lembrou que o tema das agendas eleitorais nesses países europeus foi a do imigrante e a do crime. Para FHC, o crime está se generalizando não por causa dos imigrantes, mas em função das condições do mundo contemporâneo. "O imigrante é o mais pobre e paga o pato. Então, você vê que tem aí até um certo racismo - por isso a direita nessa questão - que está ligado com a insegurança".O presidente recordou os grandes problemas de insegurança vividos pelos Estados Unidos depois dos atentados ocorridos em setembro do ano passado. Na sua avaliação, os americanos superaram a crise com grande desenvolvimento econômico e democracia. "Por quê a democracia? Porquê senão você vai acusar o outro, você vai para o racismo, vai para o apartheid. A reação na França foi forte, eles perceberam que iam para um caminho, meu Deus! Isso tem a ver também com o terrorismo, que leva a um clima de insegurança, você não pode perdoar o terrorismo, como o que aconteceu no ano passado nos Estados Unidos".Ele classificou como "marcha da insensatez" o problema que está ocorrendo no Oriente Médio entre palestinos e israelenses. "Essa lógica de matar inocentes para mudar o mundo é inaceitável", declarou.

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