FHC ataca "déficit de democracia" em discurso na ONU

O presidente Fernando Henrique Cardoso atacou hoje em seu discurso na abertura dos debates da 56.ª Assembléia Geral das Nações Unidas, o "déficit de democracia no plano internacional" e apontou esse fator como causa principal da debilidade dos organismos de decisão e de cooperação mundiais (leia na íntegra). Essa posição sustentou seu apelo por uma cadeira permanente para o Brasil no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU). Mas também apoiou suas críticas diretas à decisão americana de combater o terrorismo por vias militares convencionais e sua proposta alternativa de eliminar os mecanismos de financiamento das células do terror - o tráfico e consumo de drogas e os paraísos fiscais."Há um déficit de governança no plano internacional, e isso deriva de um déficit de democracia", afirmou. "Como todos aqueles que pregam a democratização das relações internacionais, o Brasil reclama a ampliação do Conselho de Segurança e considera ato de bom senso a inclusão, na categoria de membros permanentes, daqueles países em desenvolvimento com credenciais para exercer as responsabilidades que a eles impõe o mundo de hoje", completou.FHC discursou no plenário da ONU, durante 14 minutos, em português. Essa foi a primeira vez, em seus dois mandatos, que o presidente tomou para si a missão de fazer esse discurso. Desde 1949, essa tarefa vem sendo cumprida por um representante brasileiro - pelo chanceler, em geral. Logo depois de FHC, o púlpito foi assumido pelo presidente americano, George W. Bush.Na avaliação de fontes diplomáticas do Brasil, FHC seguiu a orientação de suas exposições mais recentes sobre o cenário internacional surgido depois dos atentados terroristas aos Estados Unidos. Desta vez, ousou mais, aprofundou conceitos antes levantados timidamente e "bateu" em posições dos Estados Unidos.No plano político, FHC retomou o seu recente discurso contra ações unilaterais dos países mais poderosos do mundo. Mas esquivou-se de usar essa expressão. Ele declarou que a luta contra o terrorismo não pode apenas depender da "eficácia de ações de autodefesa ou do uso da força militar de cada país", em uma referência às iniciativas tomadas pelos Estados Unidos em relação ao Afeganistão. O presidente chegou a ser mais claro ao declarar que o Brasil não espera ver paralisada a ajuda humanitária aos afegãos e ainda que estará disposto a "abrigar refugiados" daquele país.Ao discursar, em português, ele teve o cuidado de reafirmar que o terrorismo não deve ser tratado como um "embate entre civilizações" ou de religiões. A alternativa à força militar, em sua avaliação, está na cooperação entre os países para a eliminação das atividades afins ao terrorismo, como o consumo e o tráfico de drogas, o contrabando de armas, a lavagem de dinheiro. Em meio ao discurso, FHC chegou a defender a realização de uma campanha mundial de opinião pública para a conscientização dos usuários de drogas sobre o fato de contribuírem, involuntariamente, com o financiamento do terrorismo. Igualmente, propôs a eliminação dos paraísos fiscais."Coloquemos um fim a esses abrigos da corrupção e do terror, até hoje admitidos complacentemente por alguns governos", declarou o presidente que, seis horas mais tarde visitou os escombros das torres do World Trade Center, o alvo dos atentados de 11 de setembro.No plano comercial, o presidente defendeu a realização de uma "rodada do desenvolvimento" na Organização Mundial do Comércio (OMC), tema que está em discussão neste final de semana em Doha, na capital do Catar. Mas foi além dos ataques às barreiras protecionistas impostas pelos países desenvolvidos. Acrescentou uma crítica direta à resistência dos Estados Unidos a um dos tópicos em debate em Doha - a possibilidade de adoção de regras que permitam a suspensão de patentes farmacêuticas em caso de risco de desabastecimento de medicamentos. "Somos pelas leis de mercado e pela proteção à propriedade intelectual. Mas não ao custo de vidas humanas", afirmou.O presidente deixou ainda clara sua avaliação de que os mecanismos de decisão do mundo, criados logo depois da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), estão ultrapassados e ajudam a aprofundar as assimetrias entre os países. Para ele, os ataques terroristas sofridos pelos Estados Unidos em 11 de setembro acentuam ainda mais a necessidade das reformas nas instituições internacionais, desde o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial e a OMC. A nova ordem mundial, em seu ponto de vista, deverá ser complementada por uma assembléia geral da ONU mais atuante e pela inclusão de países emergentes nos grupos fechados - como o G-8, que reúne os sete países mais ricos e a Rússia.

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