FHC acusa esquerda antiquada e direita populista

O presidente Fernando Henrique Cardoso disse hoje que ele e seu partido vivem sob o fogo cruzado de uma esquerda antiquada e de uma direita populista e conservadora. Foi assim que o presidente situou ideologicamente o PSDB, depois do encerramento da Cúpula Progressista de Estocolmo, que reuniu 11 chefes de governo na noite de sexta-feira e na manhã de sábado."Eu disse muito claramente (aos outros chefes de governo) que, no Brasil, as posições nossas, do PSDB, são criticadas por uma esquerda que a meu ver não é contemporânea e que portanto vê neoliberalismo em tudo o que é moderno - quando na verdade, não existe neoliberalismo na prática do PSDB -, e somos criticados pelo populismo mais conservador que existe no Brasil", analisou Fernando Henrique. "Então, num certo sentido, ficamos nessa posição de sermos criticados pelos dois lados. O que não é muito diferente do que acontece com os outros presentes aqui."O presidente disse que não fez um pedido de ajuda para a Argentina aos participantes da cúpula, quatro dos quais integrantes do Grupo dos Sete países mais ricos do mundo: os primeiros ministros do Canadá, Jean Chrétien, da França, Lionel Jospin, e da Grã-Bretanha, Tony Blair, e o chanceler alemão, Gerhard Schröder. "Isso cabe aos argentinos."Mas Fernando Henrique advertiu os chefes de governo de que, "se a comunidade internacional simplesmente ficar olhando o que vai acontecer, esperando que os argentinos resolvam por eles próprios, o que vai acontecer é que eles não sairão do lugar. É necessário que haja uma atitude mais ativa por parte da comunidade financeira internacional." De acordo com o presidente, eles "reagiram muito positivamente"."Compreensão não é simplesmente dar qualquer soma de dinheiro para os argentinos fazerem o que quiserem", explicou Fernando Henrique. "É não pedir que eles façam agora uma programação que eles sabem que não podem cumprir. As conseqüências do que pode acontecer na Argentina, se para o Brasil não foram graves até agora e espero que não sejam, para outros países já são graves, como no caso do Uruguai."O presidente reconheceu que há uma "preocupação" com a instabilidade política na América do Sul, em razão das crises na Argentina, na Colômbia e na Venezuela. Mas disse que chamou a atenção para o fato de que, agora, há democracia na região. "A crise é das instituições, às vezes do sistema político, às vezes, como no caso da Colômbia, mais grave. Às vezes, como na Argentina, a própria sociedade está se movendo, mas tudo num quadro de liberdade", avaliou o presidente. "Não era assim há 15 anos. Isso dá também esperança de que possa voltar a uma situação de maior normalidade."Fernando Henrique admitiu que, desde os atentados de 11 de setembro nos EUA, tem-se dado mais atenção ao problema do terrorismo, tema central da cúpula de Estocolmo, "do que aos problemas que interessam aos nossos povos, que são os do desenvolvimento e do acesso a mercados". Mas argumentou que "a preocupação com o terrorismo não pode substituir os outros problemas".O presidente enfatizou que esses outros tópicos estarão em evidência na Conferência Mundial sobre Financiamento para o Desenvolvimento, que será realizada em Monterrey, no México, entre 18 e 22 de março, e na Conferência Rio + 10, sobre o meio ambiente, em Johannesburgo, em setembro.Fernando Henrique e o primeiro-ministro de Portugal, Antonio Guterres, insistiram no problema das barreiras protecionistas impostas pelos países ricos contra os produtos nos quais os países em desenvolvimento são mais competitivos, como os agrícolas. "O comunicado final deste grupo está comprometido com uma visão de acesso ao mercado", afirmou. "Então, no final da reunião, eu disse a eles: que vamos fazer em Monterrey? Os nossos governos vão agir de acordo com nossas recomendações?"Com Chrétien, Fernando Henrique não falou sobre o contencioso envolvendo as fabricantes de aviões Embraer e Bombardier. "Ele apenas fez uma brincadeira ontem: elogiou os aviões brasileiros."O presidente agradou seu colega do Chile, Ricardo Lagos, ao declarar que o fato de os seqüestradores do publicitário Washington Olivetto serem chilenos era mero acidente. "Poderia ser búlgaro. Estaria na cadeia do mesmo jeito." Na saída do encontro, Lagos disse que não insistiu na extradição dos seqüestradores. "É um assunto para os Judiciários do Brasil e do Chile."O presidente admitiu ter pedido aos ministros da Educação, Paulo Renato de Souza, e da Agricultura, Marcus Vinícius Pratini de Moraes, que têm planos de se candidatar este ano, que continuem nos cargos, "porque são bons ministros". Quanto ao ministro da Previdência, Roberto Brant, também candidato em Minas, o presidente disse que não fez o convite porque ele ficará no ministério até vencer o prazo da desincompatibilização, em abril. "Não tem sentido. Poderia dar a impressão de que eu estava querendo precipitar a saída, o que não é verdade, o Brant está trabalhando muito bem." Fernando Henrique acrescentou que, por ele, não haveria mudança nenhuma no ministério. "Mas tenho que respeitar os interesses eleitorais dos ministros."

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