FGV prepara dicionário da Primeira República

Para coordenadora, período é injustamente desprezado pelos brasileiros

Márcia Vieira, O Estadao de S.Paulo

24 de agosto de 2008 | 00h00

O Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro, lançado em 1983 com suas 6.211 páginas em 5 volumes que reúnem os personagens mais importantes no País de 1930 a 2001, é um sucesso de crítica e venda. Suas duas edições, num total de 5 mil exemplares, estão esgotadas. É uma das dez obras mais consultadas na Biblioteca Nacional, no Rio. Em um ano vai estar todo disponibilizado na internet.Diante do sucesso, o Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), responsável pelo trabalho, prepara uma nova empreitada. Alzira Alves de Abreu, que coordenou as duas edições, está organizando outro dicionário. Desta vez, todo dedicado à Primeira República (1889-1930), um período que ela considera injustamente desprezado pelos brasileiros.Entusiasmada com as descobertas que tem feito sobre a época, Alzira se recusa a chamá-la de República Velha, designação consagrada nos livros escolares. "Chamando assim parece uma coisa sem valor. E não se trata disso", defende. "A Primeira República é o momento da consolidação da nação brasileira. É a formação da identidade do Brasil. Este ano, com a comemoração dos 200 anos da chegada da Família Real ao Rio, só se falou de Império. Acho ótimo. Mas e a Primeira República?", provoca.O dicionário vai da proclamação da República à Revolução de 30. Passa por altos (a Semana de Arte Moderna, por exemplo) e baixos (o fracasso da política econômica de Rui Barbosa, o Encilhamento) do período. Foram anos em que brilharam Santos Dumont, Monteiro Lobato, Oswaldo Cruz, Rio Branco. Anos de acontecimentos importantes como a Guerra de Canudos, a Coluna Prestes, a Revolta da Chibata. E de episódios pitorescos, como o das "cartas falsas", supostamente escritas por Artur Bernardes, então candidato à Presidência da República, e publicadas no jornal Correio da Manhã. "Nestas cartas, dizia-se as piores coisas dos militares", lembra Alzira (veja quadro nesta página).Foi na Primeira República que o Brasil definiu todas as suas fronteiras. "Os acordos garantindo o Brasil de hoje foram assinados neste período. Foi nesta época também que jornais importantes foram fundados. Um tempo em que a caricatura e a charge tinham uma força extraordinária na imprensa." Tudo isso vai estar no dicionário em cerca de 3 mil verbetes escritos por Alzira e outros pesquisadores do CPDOC.Alguns serão entregues a especialistas. Alzira quer um economista para explicar o que foi o Encilhamento, política econômica de Rui Barbosa para incentivar a industrialização que acabou provocando alta da inflação. Para isso, sonha com Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central no governo Fernando Henrique Cardoso. Cristina Patriota, filha de Antônio Patriota, embaixador do Brasil em Washington, vai escrever sobre Rio Branco. "Ela fez uma tese de doutorado sobre ele. Não conheço ninguém melhor para escrever sobre Rio Branco." Mergulhar no passado mais distante é muito mais fácil do que escrever sobre a história recente, como no dicionário que cobre o período de 1930 a 2001. "Primeiro porque a bibliografia está mais consolidada. Já sabemos quem foram os bons historiadores que trabalharam com o período. E a gente não tem tanto envolvimento político e ideológico com o biografado. Isso sempre atrapalha." Alzira controla essas interferências com mãos de ferro. Foi assim no dicionário anterior. "Nós, pesquisadores, temos que ser isentos. Não somos juízes da história. O CPDOC não é um tribunal. Brinco que agora ninguém vai nem pensar em denegrir a imagem de Rui Barbosa ou de Hermes da Fonseca. Então vai ser mais tranqüilo."O dicionário da Primeira República vai consumir três anos de trabalho e R$ 400 mil, verba liberada pelo Fundo de Financiamento de Estudos e Projetos (Finep), do Ministério da Ciência e Tecnologia. O grande orgulho de Alzira e da equipe do CPDOC com os dicionários é democratizar o conhecimento. "As informações sobre a história do Brasil ficavam muito restritas aos especialistas. O que nós queremos é que qualquer leigo possa consultar e descobrir que história é essa a do nosso País."

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