Ferrão abandona defesa de Renan

Advogado criticou ?opressão? da mídia, mas disse que saída já estava prevista

Rosa Costa e Expedito Filho, O Estadao de S.Paulo

07 Setembro 2022 | 00h00

O advogado Eduardo Ferrão deixou a defesa do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e não vai ajudá-lo nos outros três processos que pesam contra ele. Em entrevista ao Estado ontem, Ferrão negou que estivesse abandonando Renan de uma hora para outra e disse que seu afastamento já tinha sido acertado. Ele também divulgou uma carta em que explica seus motivos, elogia o ex-cliente e ataca a "opressão agressiva da mídia" e a "veemência populista de discursos farisaicos".Segundo o advogado, a carta foi enviada ao senador na sexta-feira da semana passada, dois dias depois de sua absolvição em plenário da acusação de que teria despesas pessoais pagas pelo lobista Cláudio Gontijo, da empreiteira Mendes Júnior. Ferrão disse ontem que o acordo é que não defenderia Renan nas outras representações no Conselho de Ética."Até porque elas não são consistentes. O caso de Renan é envolvente, ou melhor, absorvente, e eu tenho outros clientes, aos quais também preciso me dedicar", alegou. "Foi uma honra defender o senador e com ele criei vínculos de amizade."Para justificar sua saída, ele disse que agora precisa "correr atrás" de alguns clientes que se "sentiram deixados de lado" com sua dedicação ao processo contra Renan. "Resumindo e vulgarizando: precisamos correr atrás. Sabemos que existem as outras representações, mas não temos dúvidas de que a fragilidade das acusações por elas veiculadas não criará maiores dificuldades para que outros advogados assumam o honroso patrocínio da sua defesa."Na carta, o advogado faz todo tipo de elogio a Renan: "Corajoso, sem arrogância, sereno, sem esmorecimento, perseverante, sem teimosia, humilde, sem subserviência, cauteloso, sem covardia, enfim, um verdadeiro presidente." Ferrão afirma ainda que sente nele a "bravura do sertanejo" citada pelo escritor Euclides da Cunha, que "não se exauriu, permanece viva e mora na Península dos Ministros, ali na residência oficial da Presidência do Senado".Entre os advogados criminalistas, o anúncio de sua saída não surpreendeu. A avaliação é de que o escritório de Ferrão já estava sofrendo desgaste com as reviravoltas do caso de Renan. Além disso, acredita-se que a denúncia de que o senador teria usado laranjas para adquirir duas rádios e um jornal em Alagoas seja mais complicada que o primeiro processo no Conselho de Ética.Ainda pesa sobre o senador a acusação de ter interferido para beneficiar a cervejaria Schincariol, que tinha dívidas com o Instituto Nacional do Seguro Nacional (INSS) e a Receita Federal. Pouco antes, a cervejaria teria comprado uma fábrica de refrigerantes do irmão de Renan, o deputado Olavo Calheiros (PMDB-AL), por preço acima do estimado pelo mercado. Na última representação o presidente do Senado é acusado de participar de um esquema de corrupção em ministérios comandados pelo PMDB.

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