Werther Santana/Estadão Conteúdo
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Fernando Schüler: ‘Bolsonaro opta por criar espetáculo público para repreender seu vice’

Cientista político e professor do Insper avalia que interferência de Carlos Bolsonaro em questões do governo federal é um método do presidente da República, assim como ocorreu na exoneração de Gustavo Bebianno

Entrevista com

Fernando Schüler, cientista político e professor do Insper

Carla Bridi e Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2019 | 11h01

A interferência do vereador carioca Carlos Bolsonaro (PSC) em questões do governo federal não se trata de uma casualidade. O presidente Jair Bolsonaro se utiliza do filho para “repreender” o vice-presidente Hamilton Mourão, fazendo com que Carlos torne-se um “porta-voz informal” do governo. A análise é do cientista político e professor do Insper Fernando Schüler. Entretanto, o especialista avalia que os demais filhos de Bolsonaro, Eduardo e Flávio, “necessariamente” teriam influência no governo, por serem deputado federal e senador, respectivamente.

Em relação ao desempenho de Bolsonaro nos primeiros meses de governo, o cientista político afirma que o Brasil se tornou um “país autofágico” que prioriza disputas políticas. Para ele, parte da dificuldade do presidente da República em estabelecer articulação com o Congresso se deve pelo fato de que a negociação com a apelidada “velha política” não seria bem recebida pelos eleitores de um candidato que foi escolhido por rechaçar tal prática. Abaixo, leia os principais trechos da entrevista.

O envolvimento dos filhos do presidente em questões federais voltou à tona nesta semana, com as críticas direcionadas ao vice-presidente por Carlos Bolsonaro. Políticos e especialistas já criticaram tal atuação. Na sua opinião, isso tem sido prejudicial?

Os filhos de Bolsonaro são agentes políticos. Um deles é senador (Flávio), outro o deputado federal mais votado do País (Eduardo). Eles são líderes do partido do governo e da coalizão que está no governo. Logo, eles necessariamente terão influência no governo, goste-se ou não. Caso Ciro Gomes tivesse sido eleito, é presumível que Cid Gomes seria um ator político influente no governo. O caso de Carlos Bolsonaro é diferente.

Parece claro que, tanto no caso da demissão do ministro Bebianno, como agora, no ataque ao general Mourão, ele cumpre o papel de porta-voz informal do presidente. Como o comportamento se repete, é claro que não se trata de uma casualidade, mas de um método. Bolsonaro opta por criar uma espécie de espetáculo público para repreender seu vice-presidente e resolver assuntos que deveriam ser tratados a portas fechadas.

Como avalia a postura do vice-presidente nesse episódio?

Em relação a Mourão, o erro vem da montagem do governo. O vice deveria ter uma função definida e não ficar vagando por aí, claramente insatisfeito com o tratamento que recebe no governo, buscando alguma mídia e a imagem de “contraponto razoável” ao presidente. Há, na minha visão, um grande erro estratégico aí.

No mais, boa parte do que vejo, sobre este tema, faz parte do que gosto de chamar de “era da irrelevância”. Gastamos nosso tempo discutindo o que o filho do presidente fazia no banco de trás do Rolls Royce, na posse, e o que o outro fazia sentado na poltrona do Salão Oval, na reunião com Trump. Isto é divertido nas redes sociais, mas completamente inútil.

Falando em redes sociais, Jair Bolsonaro se elegeu em uma base com amplo engajamento nelas. No governo, suas posições têm sido alvo de críticas e algumas tiveram até repercussão internacional. Como você vê o uso das redes sociais pelo presidente?

Muita gente não se dá conta, mas Bolsonaro é o segundo chefe de Estado com maior engajamento digital, no plano global. A internet é o ecossistema em que ele forjou sua liderança e o levou à Presidência. Neste ambiente, as mensagens mais provocantes e agressivas tendem a gerar maior engajamento. Não é por acaso que sua mensagem mais curtida, neste período, foi exatamente o “golden shower”. Isto diz muito sobre nosso presidente, mas diz muito também sobre nossa democracia digital.

O que se observa é que, após o episódio do Carnaval, Bolsonaro migrou para um perfil mais focado na agenda do governo, nas redes sociais. Bolsonaro é um líder polarizador de uma democracia polarizada. Me parece um tanto ingênua a ideia de que, após eleito, ele fosse se transformar em um líder pacificador. Penso que Bolsonaro errou, em muitos momentos, nas redes sociais. Mas isto é apenas uma opinião. Nada garante que ele estaria melhor se ele tivesse optado por um outro caminho, quem sabe agindo de modo polido e reservado, como fez Michel Temer ao longo de seu governo.

Traçando um comparativo entre o governo Bolsonaro e gestões anteriores, qual é a sua avaliação a respeito dos primeiros 100 dias?

Bolsonaro representa um governo de ruptura, como foram Collor, em 1990, e Lula, em 2003. A arrancada de Collor foi um conhecido desastre, e Lula surpreendeu positivamente, equilibrando uma política de austeridade e reformas, no campo econômico, e uma intensa agenda social. Bolsonaro fica pelo meio do caminho.

Sua equipe econômica é coesa e qualificada, o ministério, de um modo geral, tem um perfil técnico e o projeto de reforma da previdência surpreendeu pela abrangência e correção técnica. Mas há problemas evidentes: o governo claramente não tem consenso sobre a agenda de privatizações, e claramente não sabe o que fazer com temas importantes como a reforma tributária, reforma do Estado e a educação.

E mais: não tem uma agenda de reforma do sistema político. Temos 31 partidos no Congresso, o maior grau de dispersão política entre as democracias, e o governo não parece minimamente preocupado com isto. É evidente que também faltou habilidade, na condução política, e um modelo realista de como lidar com o Congresso.

O que faltou para ser adotado um ‘modelo realista’ para com o Congresso?

Bolsonaro não compôs o governo distribuindo ministérios para os partidos, de modo que não construiu uma base orgânica no Congresso. O governo não tem rigorosamente o que cobrar dos partidos potencialmente aliados pelo simples fato de que nada, ou praticamente nada, ofereceu em troca.

Vai aí uma dupla ilusão. De parte do governo, a ilusão de que coisas como a pressão da sociedade, o convencimento ou a liderança popular de Bolsonaro bastariam para mover esta ideia vaga da “nova política”. De outro, a ilusão comum, em especial na academia, de que a solução está em algum lugar do passado, que bastaria ao governo “negociar” com o Congresso, ceder, distribuir os ministérios a 12 ou 13 partidos, esquecendo-se que foi exatamente este modelo que se esgotou, na política brasileira, e foi amplamente rechaçado pela sociedade, nas últimas eleições. Não há saída fácil para o impasse brasileiro.

Dizer que cabe ao governo resolver, trocar cargos e emendas por votos, no Congresso, não passa de um discurso cínico, pois no instante em que o governo fizer isto, estas mesmas pessoas dirão que se trata de um governo que se corrompeu, se vendeu, traiu seus compromissos. Nos tornamos um País autofágico, no qual o ódio e a pequena richa política parecem ter passado muito à frente do que qualquer coisa que diga respeito a objetivos a longo prazo e comuns a todos.

O governo obteve uma vitória na CCJ mais difícil do que a esperada, considerando as alterações exigidas e o tempo que levou para que isso acontecesse. Qual o legado disso para os próximos projetos, tanto para o governo quanto para a oposição? As ilusões citadas por você devem se esvair a partir de agora?

A vitória mostrou algo bastante objetivo: a reforma da previdência é politicamente viável, no Congresso. Foram 73% à favor e 27% contra. No plenário, serão necessários 60% de votos. É evidente que a CCJ não é uma expressão perfeita da correlação de forças na Câmara, mas serve como um indicativo. A oposição simplesmente não cresceu e a reforma obteve o apoio de 15 partidos representados na Comissão. E aí reside um ponto: não se trata de 15 partidos da base do governo. Este conceito foi superado. Se trata de uma base política da reforma.

Não penso que esteja errada a ideia de compartilhar a responsabilidade da reforma com o Congresso. É a via possível para sua aprovação. O governo ampliou as concessões no varejo político e, principalmente, não atrapalhou. Quanto às dificuldades, ninguém deve imaginar que fazer uma reforma deste tamanho, no Brasil, seria fácil.

Perceba-se que, dois anos depois, ainda estamos discutindo aspectos da reforma trabalhista. O Brasil é um país procrastinador, resistente a processos de modernização. Por isso acho que a reforma está caminhando bem. Ela se descolou do governo e as alterações feitas na CCJ são estruturalmente irrelevantes, para o projeto. Com certeza outros pontos serão negociados. É assim que funciona na democracia.

Qual seria o papel da oposição nessa articulação?

A oposição está onde sempre esteve, desde a redemocratização, com exceção dos 13 anos da esquerda no poder. Seu foco é inviabilizar o governo, de qualquer jeito. Nós já nos acostumamos tanto com a ideia de que não cabe qualquer papel construtivo à oposição, na democracia, que ninguém mais espera uma atitude diferente. Isto já foi diferente no passado. O PSDB e o PFL apoiaram a reforma da previdência de Lula, em 2003. Não vejo espaço para que algo nessa linha aconteça no Brasil atual.

O PT pautou a campanha pela ideia de deslegitimação de Bolsonaro, Haddad se recusou a cumprimentar o vencedor das eleições, na noite do pleito, e o partido não compareceu à posse do presidente no Congresso. Esta foi e será a tônica do centro da oposição até o fim do governo. Ciro e algumas novas lideranças do PDT ensaiam alguns movimentos na direção de um diálogo mais amplo, mas o fato é que lhes falta base social.

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