Tiago Queiroz / Estadão
Tiago Queiroz / Estadão

Fernando Holiday: ‘A causa LGBT e o combate ao aborto não são prioridades para o MBL’

Vereador paulistano, que formalizou saída do movimento, agora quer estimular a discussão sobre os dois temas junto à “direita liberal”

Entrevista com

Fernando Holiday (Patriota), vereador

José Fucs, O Estado de S.Paulo

29 de janeiro de 2021 | 05h00

O vereador paulistano Fernando Holiday (Patriota), de 24 anos, formalizou nesta quinta-feira, 28, a sua saída do Movimento Brasil Livre (MBL), ao qual se ligou em janeiro de 2015, apenas dois meses depois de sua fundação. Reeleito em 2020, Holiday era considerado uma das melhores “crias” do MBL por seus líderes e como negro e gay ajudava a conferir legitimidade ao discurso do grupo, que ele sempre reforçou, contra as pautas identitárias e a política de cotas.

Nesta entrevista ao Estadão, Holiday diz que deixou o MBL porque as causas LGBTs e a luta contra o aborto não são prioritárias para o movimento. Ele fala também sobre o engajamento de grupos de direita, como o Vem Pra Rua (VPR) e o próprio MBL, na mobilização pelo impeachment do presidente Jair Bolsonaro e sobre o efeito que o “racha” na frente que viabilizou sua vitória em 2018 pode ter nas eleições de 2022.

O sr. estava no MBL praticamente desde o princípio. O que o levou a deixar o grupo agora? Quais as suas divergências com eles?

É uma conversa que a gente já vinha tendo desde o fim do ano passado, a partir das reformulações que eles estão pensando em fazer no movimento, com certas pautas que serão trabalhadas no futuro, de política nacional e estadual. Há duas áreas, nas quais eu pretendo desenvolver projetos próprios e mais amplos que não estavam na lista de prioridades do MBL: as causas LGBTs e as pautas antiabortistas. Minha proposta é estimular uma discussão a respeito de como a direita liberal deve tratar esses temas. Então, a gente decidiu que era melhor eu seguir um caminho próprio e lançar esses projetos por conta própria.

Nos últimos dias, surgiram informações de que as críticas do MBL ao deputado Marcel Van Hattem (Novo-RS), por ter lançado candidatura própria à presidência da Câmara, em vez de apoiar o deputado Baleia Rossi (MDB-SP), foram decisivas para a sua saída. O que o sr. tem a dizer sobre isso?

Talvez essa discordância tenha sido superdimensionada. De fato, houve uma divergência, mas não foi a primeira vez que isso aconteceu. A gente já discordou sobre diversos outros temas ao longo desses anos todos. Eu não diria que isso foi fundamental e teve influência na minha saída. 

O que o incomodou na reação do MBL contra a candidatura do deputado Marcel Van Hatten?

A diferença foi simplesmente de momento. Acho natural que a direita, digamos, mais racional, acabe apoiando num segundo turno qualquer candidato que vá contra o Arthur Lira (Progressistas-AL), que é o candidato de Bolsonaro, até para que a gente possa discutir um possível processo de impeachment e para que a Câmara não fique completamente nas mãos do governo. É só uma divergência em relação ao melhor momento para aderir ao pragmatismo. O MBL achou que o Marcel deveria, já naquele momento, ter uma posição firme pelo impeachment, enquanto eu achei que não necessariamente teria de ser assim. Mas eu concordo com eles que o processo precisa ser aberto. 

Agora fora do MBL, qual a visão que o sr. tem do movimento?

Neste momento, o MBL está focando em pautas que, ao meu ver, são importantes para o País, para o momento que a gente está vivendo, como a das reformas, mas são pautas sempre de curto prazo. Daqui a alguns meses eles já vão ter que procurar outras bandeiras. Eu estou pensando em um projeto maior, de longo prazo, pensado com mais calma. Essa eu diria que foi a principal divergência, de estratégia política. Acho que, para o MBL, falta um pouco ter uma bandeira mais perene. Com as bandeiras antibortistas e LGBT, você nunca perde. Você nunca vai conseguir alcançar o momento ideal nessas questões, como ocorre quando aprovam uma reforma que você apoia. 

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A partir do momento que tem um gene separado, o feto ganha a sua individualidade
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Desde o começo, o sr. e o MBL sempre criticaram essas pautas identitárias, como a das causas LGBTs. Por que, de repente, isso se tornou tão importante, a ponto de levá-lo a deixar o movimento?

É que, apesar de a gente ter uma visão semelhante em relação ao tema, isso não é uma bandeira de frente do movimento. Hoje, por exemplo, eles têm como bandeiras a defesa da reforma administrativa e do impeachment do Bolsonaro. Antes, defendiam as reformas da Previdência e trabalhista. Quer dizer, sempre têm algum grande projeto ou alguma causa à frente. Mas a luta contra o aborto e a defesa de causas LGBTs dentro de uma ótica liberal sempre tiveram um papel secundário. Nunca foram pautas do movimento.

Quando o sr. fala da defesa das causas LGBTs sob a ótica liberal o que quer dizer com isso?

Eu passei a pensar nisso no fim de 2019, quando fui convidado pelo Departamento de Estado americano para participar de um programa de visita ao país e estudar políticas públicas para minorias. Lá, tive a oportunidade de conversar com alguns dirigentes do Partido Republicano e conheci o chamado Log Cabin Republicans (LCR), que é uma espécie de área LGBT dentro da legenda. Eles estimulam o pessoal, dentro do meio LGBT, a superar a homofobia, o preconceito, a exclusão, não por meio de políticas de Estado segregacionistas, mas principalmente através do empreendedorismo, do livre mercado, da defesa das liberdades individuais. Com esse discurso, evidentemente, não têm o mesmo alcance que a esquerda nessas pautas, mas conseguem pelo menos atingir esse público, e no Brasil não vejo nada parecido. Então, o que eu pretendo, se puder, é trazer essa experiência do Log Cabin Republican para a direita brasileira. 

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O sr. disse que pretende se engajar mais na luta contra o aborto, dentro da direita liberal. Mas, normalmente, do ponto de vista liberal, considera-se que o aborto é uma decisão individual. Como o sr. explica essa contradição?

O meu ponto justamente é que o feto é um indivíduo e o que eu quero fazer é me afastar dessas discussões religiosas e discutir de um ponto de vista científico e filosófico o que define um indivíduo. Ao meu ver, a partir do momento que tem um gene separado, o feto ganha a sua individualidade. Acredito que essa é uma discussão interessante para se ter no meio liberal. A minha ideia de entrar nessas discussões antiabortistas é justamente para tentar demonstrar que é possível um liberal ser contra o aborto. 

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Há elementos para acusar Bolsonaro de crime de responsabilidade e para haver processo de impeachment
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Essas divergências entre o sr. e o MBL nas causas LGBTs se estendem à questão das cotas para os negros ou o sr. continua com a mesma posição crítica em relação ao assunto?

Eu continuo com a mesma posição crítica, especialmente no que tange ao poder público. Mas hoje tenho uma posição um pouco mais flexível em relação a essas políticas de inclusão de negros dentro da iniciativa privada. Eu tinha uma posição crítica, por exemplo, em relação àquele programa da Magazine Luíza, de realizar um processo de seleção de trainees exclusivo para negros. Hoje, não vou dizer que sou favorável a isso, mas vejo de forma menos crítica. Agora, o meu posicionamento em relação às cotas raciais continua o mesmo. Só que, daqui para a frente, mais do que combater as cotas raciais, vou passar a defender mais as cotas sociais, como a reserva de vagas para alunos de baixa renda nas universidades, independentemente da cor da pessoa.

Hoje, vários grupos de direita e centro-direita que apoiaram Bolsonaro em 2018, como o próprio MBL, o Vem Pra Rua (VPR), os lavajatistas e muitos liberais, e estão defendendo o impeachment. Como o sr. analisa isso?

Acredito que a imensa maioria das pessoas que votaram no Bolsonaro por conta das pautas que ele defendia na campanha ficou completamente decepcionada e entende que é melhor para o País que ele saia do governo. Eu entendo que há elementos para acusá-lo de crime de responsabilidade e para haver processo de impeachment, embora ache que falta ainda um elemento fundamental para afastá-lo, o “batom na cueca”, que podem surgir ao longo do processo. 

Os elementos a que o sr. se refere estão ligados à gestão da pandemia?

Há as questões ligadas à covid, principalmente a tentativa dele de interferir nos estados, mais especificamente no Estado de São Paulo, no que se refere à compra de seringas. Acredito que ali ele extrapolou a sua função. Há, também, a falta de planejamento de uma imunização maior, a própria compra da cloroquina sem comprovação científica de sua eficácia. Mas acredito que há uma razão maior, que tem força para derrubar o presidente, para a qual ainda faltam  provas, que é o uso da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) para defesa do (senador) Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ). Acho até que, estrategicamente, seria melhor esperar o esclarecimento disso, porque representa uma razão grave para o afastamento do presidente.  

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Hoje, não existe um nome capaz de unir todas as forças que apoiaram Bolsonaro e agora se opõem a ele
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O sr. falou que a “imensa maioria” dos que votaram em Bolsonaro passaram a defender o impeachment. O sr. se inclui neste grupo?

Sim, com certeza. Diria até que, no meu caso, isso aconteceu antes desses problemas todos envolvendo a gestão da pandemia, quando houve um afastamento brutal da luta contra a corrupção. Nós tivemos sinais disso já no primeiro ano de governo, em 2019, e ficou mais evidente com a saída do Sérgio Moro do governo.

A ala mais ideológica do bolsonarismo chama o pessoal do MBL e outros ex-apoiadores de Bolsonaro de “nova esquerda”.  O que o sr. pensa sobre essa questão?

Acredito que é uma tentativa clássica de deslegitimar qualquer tipo de oposição vinda da direita. É algo semelhante ao que o PT fazia com o PSDB. O PSDB sempre foi um partido de centro-esquerda e o PT o colocava à direita para tentar deslegitimá-lo dentro do seu campo ideológico. Acho que o bolsonarismo está usando a mesma estratégia, não só contra o MBL, mas contra o Vem Pra Rua, o Partido Novo e outras entidades e organizações da direita. 

Com o engajamento de parte da direita e da centro-direita no movimento pelo impeachment, aquela frente que apoiou o presidente na eleição de 2018 se desintegrou. Como vão ficar essas correntes políticas, que estavam com Bolsonaro em 2018 e se afastaram dele, em 2022? Quem será o representante dessas correntes em 2022?

Hoje não existe um nome capaz de unir todas essas forças que, de certa forma, em algum momento, apoiaram Bolsonaro e que agora se opõem a ele. Por outro lado, vejo uma aproximação muito rara entre esses grupos como nunca antes houve, apesar de eventuais divergências em relação à eleição para a presidência na Câmara. O Novo cada vez mais tem se aproximado de movimentos como o Vem Pra Rua e o MBL, que também têm se aproximado entre si. Acredito que daí, principalmente destas três forças, talvez possa surgir uma alternativa para essa direita que tem um apreço maior ao combate à corrupção, pela operação Lava Jato. Talvez possa surgir um nome já conhecido, como Sérgio Moro, ou um nome que ainda não apareceu, para representá-las em 2022.

Com a saída do MBL, o senhor pretende mudar de partido? Quais os seus planos?

Por enquanto, eu pretendo seguir meu caminho sozinho, até porque preciso de tempo para analisar as alternativas que tenho, quais grupos se alinham mais a essas pautas de que falamos há pouco, com quais grupos teria condições de trabalhar da forma que pretendo. Agora, do ponto de vista formal, eu vou continuar no Patriotas, até porque perderia o mandato se saísse do partido. Então, vou tentar trabalhar com essas pautas dentro do Patriota mesmo, apartado do MBL

O sr. pretende disputar outro cargo em 2022? 

Pretendo ser candidato a deputado federal em 2022, mas isso depende de diversos fatores, depende de ter uma agenda, de ter o apoio político do público também. Talvez não seja o melhor momento político para tentar uma outra candidatura, mas o meu desejo pessoal é de me candidatar a um posto em Brasília.

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