WERTHER SANTANA/ESTADÃO
WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Fernando Holiday é chamado de 'macaco de auditório' e acusa racismo

Fala de Camilo Cristófaro (PSB) foi em sessão plenária da Câmara; vereador do MBL diz que fará denúncia ao MPE

Adriana Ferraz e Bruno Ribeiro, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2019 | 17h34

SÃO PAULO - O vereador de São Paulo Fernando Holiday (DEM), membro do Movimento Brasil Livre (MBL), foi chamado de "macaco de auditório" no plenário da Câmara Municipal na tarde desta quinta-feira, 5, e diz que irá denunciar racismo à Corregedoria do Legislativo e ao Ministério Público Estadual (MPE). O autor da fala é o vereador Camilo Cristófaro (PSB).

Holiday disse que se sentiu "revoltado" ao ouvir as falas. "Mas na hora consegui conter a raiva", afirmou ao Estado.  "Os demais vereadores disseram que eu estava sendo dramático", afirma o membro do MBL. "Nunca havia sofrido um ataque dessa maneira, ao menos não na sessão plenária", disse. 

Em 2018, Holiday havia sido chamado de "capitão do mato" pelo então candidato à Presidência Ciro Gomes (PDT), em um ato também descrito pelo membro do MBL como racismo. Na ocasião, Gomes foi processado e terminou condenado pela Justiça de São Paulo ao pagamento de uma indenização de R$ 38 mil.

O ataque agora tem como pano de fundo um clima azedo entre Holiday e outros vereadores desde uma entrevista que ele deu para o apresentador Danilo Gentili, do SBT, na sexta-feira passada. Ele declarou que os vereadores de São Paulo "não trabalham", o que havia revoltado os colegas. Na quarta-feira, também no plenário, voltou a fazer tais afirmações. 

Já nesta quinta, Cristófaro usou seu tempo de discurso na sessão para atacar Holiday. "Lamentavelmente o senhor Holiday usa as redes sociais, ele é o grande macaco de auditório das redes sociais, dando risada dessa casa, explodindo as redes sociais, porque a população adora ver sangue, maldade e mentira", disse Cristófaro, para completar dizendo que Holiday chamou os colegas de "vagabundos". O vereador do MBL foi chamado também de "moleque".

Ao Estado, o vereador disse que não havia feito um comentário racista. "Não tem nada de racismo. Macaco de auditório é uma expressão popular", disse. "Trabalho 12 horas por dia. Poderia vender todos os meus bens e dar uma banana para o Brasil", disse Cristófaro.

Ao ver a reportagem conversando com Holiday, no plenário da Câmara, após o ocorrido, o vereador Paulo Reis (PT), negro, quis comentar o tema. "Os vereadores trabalham muito, e ficaram muito revoltados com as declarações do Holiday", disse Reis. "Eu já dei encaminhando à Prefeitura de 7 mil demandas. O trabalho do vereador é feito na base. A hora que ele fala uma coisa dessas para fora da Câmara, nos ataca", disse. "Cada um que se sente vítima de racismo ou não. E se sentiu, deve tomar as providências", afirmou, ao ser questionado.

O presidente da Câmara, Eduardo Tuma (PSDB), evitou comentar as afirmações de ataque racial de Holiday e preferiu engrossar o coro dos ataques ao parlamentar do MBL por causa da alegação de que os vereadores "não trabalham". "Inadmissível", disse Tuma. "Atesto que os vereadores trabalham dia e noite, de segunda à segunda, tanto nas atividades parlamentares quanto naquelas políticas", disse o presidente, por nota.  

Cristófaro já havia se envolvido em polêmica, quando foi acusado de agressão, em 2017, quando teria chamado a vereadora Isa Penna (PSOL) de "vagabunda". A parlamentar chegou a representar contra Cristófaro na Corregedoria da Câmara, mas o caso foi arquivado.

O vereador, no entanto, só se mantém no cargo por uma decisão liminar da Presidência do Tribunal Regional Eleitoral (TRE). Ele teve o mandato cassado por ter justificado receitas de campanha com a alegação de que recebeu doação de uma eleitora que, na verdade, estava inscrita em programas sociais e não teria condição de doar para sua campanha. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.