Feras feridas

A remoção abrupta dos senadores Jarbas Vasconcelos e Pedro Simon da Comissão de Constituição e Justiça não foi um ato qualquer, contra dois políticos quaisquer.Atingiu dois ex-governadores, representantes de uma geração histórica não fisiológica do PMDB, substituídos por pemedebistas sem lastro (Almeida Lima e Paulo Duque, segundo suplente de Sérgio Cabral Filho), subservientes às manobras do presidente da Casa, e acendeu no Senado a chama de uma reação de autopreservação em detrimento da sustentação de Renan Calheiros no cargo.Jarbas e Simon há muito são dissidentes, têm atuação independente e conflitante em relação à cúpula do partido, mas vêm levando a situação na base do fardo a ser administrado internamente.Agora, porém, ambos consideram que a direção ultrapassou todas as fronteiras da civilidade e estão também dispostos a ultrapassá-las. Como, ainda não sabem, mas desta vez vão comprar a briga e para isso já estão reunindo apoios dentro e fora do partido. O que fazer com eles, só vão decidir na terça-feira, primeiro numa reunião dos dois e, depois, num encontro suprapartidário.''''Hoje mesmo falei para o Tasso (Jereissati) e o (José) Agripino, que está na hora de dar um basta a esse cinismo do Renan'''', dizia Jarbas Vasconcelos na sexta-feira pela manhã, enquanto recebia mensagens de solidariedade de petistas, pemedebistas, tucanos e democratas.Sair do PMDB é a última coisa que passa pela cabeça de Jarbas e Simon. ''''Se quiserem vão ter de nos expulsar'''', avisa o ex-governador de Pernambuco, que acusa diretamente Calheiros pela manobra e avalia que ele deu ''''um tiro no pé e com pistola de calibre 45''''.E por quê? ''''Porque a decisão mostrou que ele é capaz de tudo e os outros senadores puderam perceber que se hoje nos ataca com essa violência, amanhã ninguém está livre de ser a próxima vítima.''''Jarbas já estava, de certa forma, prevenido. ''''Procuro não ser um improvisado na política.'''' Mas não imaginava que houvesse na direção do partido ousadia para tanto. ''''Acreditei, e errei, que eles iriam pensar duas vezes.''''No grupo do ''''eles'''', Pedro Simon inclui o senador José Sarney, e o líder do governo, Romero Jucá, mas exclui da linha de frente exatamente o líder da bancada, Valdir Raupp, encarregado de operar o afastamento e, para todos os efeitos, o autor da decisão. ''''Esse é um pau-mandado do Renan.''''A falta de respeito à convivência entre senadores, a truculência, a humilhação, a ausência de limites e o fato de, pela primeira vez nesses meses de manobras para tentar salvar o mandato, Renan Calheiros ter atacado frontalmente dois colegas, são os argumentos de Jarbas e Simon para reunir uma tropa de resistência.''''Na ditadura, resistimos dentro do partido ao autoritarismo do regime e, agora, somos obrigados a resistir no Senado contra a torpeza de um presidente que é alvo de quatro processos por quebra de decoro parlamentar e, ainda assim, consegue não só se manter no cargo como patrocina atos do mais deslavado arbítrio'''', reclama Simon.A estratégia inicial da reação é não deixar prevalecer a versão oficial da cúpula do PMDB, a divulgar a razão dos dois afastamentos.Não ocorreram para atender à reivindicação da bancada dos 19 senadores pemedebistas no Senado, muito menos tiveram inspiração na cabeça do líder do partido na Casa, Valdir Raupp; tampouco podem ser vistos como gesto rotineiro de interesse exclusivo do partido, a exemplo das costumeiras trocas de integrantes de comissões.A ''''cassação'''' - expressão usada pelos dois e na tribuna do Senado já na sexta-feira também adotada por senadores de outros partidos - foi uma decisão engendrada pela cúpula do PMDB no Senado, expressamente ordenada pelo presidente da Casa, Renan Calheiros.Com que objetivo? Oficialmente, alterar a correlação de forças dentro da CCJ para facilitar a aprovação da CPMF. Mas a versão não pára em pé porque o PMDB do Senado, no momento, se empenha em criar dificuldades para o governo. A temporada de venda de facilidades ao governo só será aberta mais à frente, quando a CPMF sair da Câmara.A razão real da retirada de Jarbas e Simon guarda relação com o equilíbrio de votos na Comissão de Constituição e Justiça, mas a preocupação imediata são os próximos processos por quebra de decoro parlamentar que Renan Calheiros pretende ''''matar'''' na CCJ, antes que cheguem ao plenário.Ao contrário do primeiro processo, nesses - principalmente aqueles que o acusam de recolher propinas em ministérios e comprar duas rádios e um jornal por meio de laranjas -, além do humor interno do Senado ter se alterado em função da reação externa, a sessão de votação será aberta.No Conselho de Ética é certo que será aprovado o pedido de cassação e, por isso, a CCJ é tida como a última barreira segura, onde os dois senadores agora afastados não só votariam pela cassação, como fariam carga pesada para mandar os processos ao exame do plenário.

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