Feijó também polemizou com Lula, Olívio e Rigotto

Em 2002, empresário reclamou de ?ranço socialista? no governo do PT

Elder Ogliari, PORTO ALEGRE, O Estadao de S.Paulo

13 de junho de 2008 | 00h00

Responsável pela gravação e divulgação de uma conversa que expôs os bastidores da política e mergulhou o governo estadual em sua maior crise, o vice-governador do Rio Grande do Sul, Paulo Afonso Feijó (DEM, é um homem acostumado às polêmicas.Na defesa veemente de seu ideário liberal, Feijó já constrangeu o então candidato à presidência Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em 2002, e os ex-governadores Olívio Dutra (PT) e Germano Rigotto (PMDB). Também não hesitou em combater dois projetos de aumentos de impostos apresentados pela governadora Yeda Crusius (PSDB), com quem se elegeu.Em 2002, em campanha, Lula visitou a Federação das Associações Comerciais e de Serviços (Federasul), presidida por Feijó. Na saudação inicial, o líder empresarial contestou uma declaração do candidato, que havia falado que "onde o PT governa os empresários agradecem". Sem se importar com a presença do alto escalão do governo gaúcho, disse que no Rio Grande do Sul, então administrado pelo PT, havia "forte ranço socialista" e "desrespeito à propriedade privada".Em 2004, ao tomar posse para seu segundo mandato na Federasul, Feijó pregou a federalização do Banrisul e de estatais gaúchas diante do governador Germano Rigotto (PMDB), que havia prometido manter as empresas sob controle público.Nenhuma das situações anteriores teve a dimensão do terremoto atual. Depois de gravar o chefe da Casa Civil Cézar Busatto (PPS) dizendo que partidos políticos aliados da governadora Yeda Crusius (PSDB) se financiam em órgãos públicos, Feijó encaminhou a fita à CPI do Detran, que divulgou o diálogo. Acuada, Yeda aceitou a demissão de Busatto, de seu secretário-geral de governo, Delson Martini, e do chefe do escritório do Rio Grande do Sul em Brasília, Marcelo Cavalcante, que já estavam sob pressão porque saberiam das irregularidades no Detran, órgão vítima de uma fraude de R$ 44 milhões entre 2003 e 2007, segundo a Polícia Federal.Acusado de "golpista" , Feijó explicou-se questionando "de que outra forma este submundo (da política) seria posto às claras". Ao mesmo tempo, passou a ser saudado como homem fiel a seus valores por correligionários gaúchos e até por adversários com os quais provavelmente nunca fará aliança, entre os quais petistas."Nosso partido busca a transparência do serviço público e por isso apóia o vice", afirma o deputado estadual Marquinho Lang (DEM). "O lado de cidadão dele predominou e isso foi bom para a sociedade", complementa Paulo Borges, também do DEM. O líder da bancada do PT, Raul Pont, destaca que não tem identidade política com Feijó, mas considera que, como vice-governador, ele deve ser ouvido. "Estou preocupado com conteúdo do que foi dito."Feijó tem 47 anos, é formado em Administração de Empresas pela PUC/RS, gosta de jogar golfe e foi diretor da rede de supermercados Econômico até o final dos anos 90. Presidiu a Associação Gaúcha de Supermercados (Agas) de 1990 a 1994, a Associação Brasileira de Supermercados (Abras) de 1995 a 1998 e a Federação das Associações Comerciais e de Serviços (Federasul) de abril de 2002 a maio de 2006.Em março de 1994, como presidente da Agas, Feijó deu outra declaração polêmica. Na época, por conta de uma quebra de safra, os preços do feijão haviam disparado. Numa entrevista à Rádio Gaúcha, Feijó creditou os altos preços à falta do produto e sugeriu aos consumidores que trocassem o feijão pela lentilha.Em dezembro de 2006, quando Rigotto apresentou um projeto de aumento de impostos a pedido de Yeda, Feijó foi para as galerias defender a rejeição da proposta, ao lado de adversários ideológicos como sindicalistas e militantes do PT e do PSOL. Mesmo com larga vantagem de 42 deputados na base de apoio contra apenas 13 na oposição, Yeda perdeu e declarou que Feijó estava na oposição. A história repetiu-se em novembro de 2007, quando a governadora fez nova tentativa de aprovar aumento de impostos e se deu mal de novo. No início deste ano a governadora e o vice ensaiaram uma reaproximação, que não se concretizou. Agora, isso virou assunto proibido para os dois.

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