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Fé, voto e grana

Osmarinês é um erro de concordância que transcende a gramática. Consiste em dizer platitudes com convicção, vender generalidades com ar de novidade e evitar especificidades para não assumir compromissos. Não é porque o diabo mora nos detalhes que o divino há de ser genérico. Muito ao contrário.

José Roberto de Toledo, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2014 | 02h02

Tome-se o texto "Para assegurar direitos e combater a discriminação" - expurgado menos de 24 horas depois de publicado no programa de governo de Marina Silva (PSB). Escrito em português, era cristalino nas suas propostas: legalização do casamento de homossexuais, execução de aborto pelo SUS nos casos previstos em lei, equiparação da homofobia ao racismo, material didático para educação anti-homofóbica.

Confrontada com as ideias que havia acabado de lançar por escrito, a candidata saiu-se com um genérico e insignificante "o Estado é laico". Marina fez que não entendeu, mas os pastores e, principalmente, os líderes da bancada evangélica entenderam muito bem - e deixaram isso óbvio pelo Twitter.

Líder do PMDB na Câmara e membro da evangélica Sara Nossa Terra, Eduardo Cunha disparou: "Marina, que levou em 2010 boa parte dos votos dos evangélicos, assumiu em seu programa de governo posições contrárias à família". E desafiou: "Quero ver qual liderança evangélica ou católica terá coragem de defender candidatura com esse programa".

Cunha bateu no ponto fraco: na simulação do Ibope de segundo turno entre Marina e Dilma Rousseff (PT), a candidata do PSB só ganha da petista porque tem duas vezes mais eleitores evangélicos do que a rival. Elas empatam entre os católicos.

"É uma vergonha o programa de governo do PSB de Marina no que tange à causa gay - prevê casamento, adoção de crianças", tuitou Silas Malafaia, da Assembleia de Deus. Na véspera, ele explicara por que endossa a candidatura do Pastor Everaldo (PSC): quer aumentar seu cacife agora para exigir compromissos por escrito de quem vier a apoiar no segundo turno.

Nem precisou esperar tanto para colher os frutos da ameaça. A "errata" do programa do PSB veio logo em seguida, com a devida tradução para o osmarinês do texto sobre direitos e combate à discriminação. Ficou ambíguo e genérico o suficiente para agradar Malafaia. "Melhoraram muito", comemorou.

A nova versão do programa de Marina nada mais é do que a prática do governo Dilma. Por pressão dos evangélicos, a presidente voltou atrás no decreto que permitia às mulheres pobres usar o SUS para abortos permitidos por lei. Também é bom lembrar que, em 2010, Malafaia apoiou o PSDB. Nada de original, portanto, na atitude de Marina. Ceder no conteúdo para ganhar votos é a essência da política de compromisso. A candidata chama isso de "nova política", e seus eleitores podem até acreditar. O marketing e a fé são livres. Só não se deve esperar milagres pela adoção de uma novilíngua.

Siga o dinheiro. As primeiras prestações de contas das campanhas deixaram claras as apostas dos financiadores. O PMDB ficou com quase 1 de cada 4 reais doados principalmente por empresas a candidatos, comitês e partidos, segundo estudo conjunto da Transparência Brasil e do 'Estadão Dados'. A causa é a consequência: não importa quem vença, o PMDB estará no poder.

As doações foram centralizadas no comando do partido, que fez a redistribuição para os candidatos. É uma conexão orgânica, institucional - do poder financeiro com o poder de fato. Isso é mais forte e impactante do que qualquer slogan eleitoral. Bancar o PMDB é uma maneira de assegurar que nada mude.

Caixa curto. O PT arrecadou um terço do que conseguiu o PMDB. Se não reverter logo a falta de dinheiro, o partido corre o risco de uma derrota eleitoral histórica.

Pós-errata. Da próxima vez que Marina disser a um jornalista mais impertinente que ele ou ela não leu seu programa de governo, arrisca-se a ouvir: "Nem a senhora".

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