Fazendeiros se armam contra "exército" de Rainha

Fazendeiros do Pontal do Paranapanema, no oeste do Estado, estão se armando para resistir a uma nova onda de ações do Movimento dos Sem-Terra (MST) na região. Eles acreditam que o megaacampamento inaugurado hoje pelo líder José Rainha Júnior em Presidente Epitácio vai funcionar como um centro de treinamento de militantes para invadir fazendas e pressionar o governo a assentar os sem-terra. Rainha promete trazer até julho 5 mil famílias para seu acampamento.Os ruralistas acreditam que ele pretende formar um "exército particular". Um fazendeiro que falou ao Estado sob o compromisso de não ser identificado contou que ele e vários colegas, cujas fazendas já foram invadidas, estão contratando "seguranças" com experiência em conflitos no campo. Essa "mão de obra" vem principalmente dos Estados do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul e, quando não traz seu próprio armamento, recebe armas e munições fornecidas pelos contratantes. Do arsenal, constam armas de uso restrito, como espingardas de calibre 12 e fuzis comprados no Paraguai. De acordo com o fazendeiro, os seguranças são contratados para trabalhar como peões, mas treinam outros empregados a lidar com o armamento. Ele contou que os grupos mantém vigilância noturna e têm ordem para usar as armas em caso de invasão.Rainha disse que a existência de milícias armadas nas fazendas não é novidade. Ele acusa a União Democrática Ruralista (UDR), entidade que reúne produtores rurais, de estimular a contratação de jagunços pelos fazendeiros. "Eles são treinados e estão muito bem armados." Segundo o líder do MST, o governo sabe da situação, mas não desarma as milícias privadas. "Estão esperando o quê?". Rainha disse que o MST não vai se intimidar com as ameaças. "Vamos organizar os trabalhadores sem terra de forma pacífica, sem confrontação."O presidente da UDR, Luiz Antonio Nabhan Garcia, reagiu afirmando que o líder do MST não tem qualificação para acusar os fazendeiros. "Ele foi preso em flagrante por porte ilegal de arma". Nabhan se referiu à prisão sofrida por José Rainha no ano passado, depois de ser flagrado com uma escopeta calibre 12 de cano curto, arma de uso civil proibido, em Euclides da Cunha. O coordenador do MST foi solto 20 dias depois mas ainda responde ao processo.O líder ruralista negou a formação de milícias privadas, porém confirmou que os fazendeiros estão se armando para rechaçar possíveis invasões. "Vivemos numa situação de desespero, pois de um lado tem órgãos do governo querendo tomar as terras e do outro, uma facção criminosa que se disfarça de movimento social." Segundo ele, o MST se armou antes. "Basta ver o que fizeram em Pernambuco, onde depredaram uma fazenda, queimaram máquinas e mantiveram pessoas em cárcere privado." Nabhan disse que não há como impedir os fazendeiros de defender seus bens, pois é uma medida legal. "Se algum deles está se armando excessivamente é porque está no limite e não agüenta mais os abusos."O líder dos ruralistas diz que também teve de "pôr a mão em armas" por causa das ameaças que vem recebendo. "Dentro do que a lei permite, vou defender minha propriedade e a integridade da minha família." Ele conta que a fazenda da família em Sandovalina, com 366 hectares, apesar de ser pequena e produtiva, já foi invadida. "Destruíram cercas e pastagens e nós ficamos com o prejuízo. Não vou deixar acontecer isso outra vez."Novo Canudos - O clima de tensão acentuou-se no Pontal depois da volta de José Rainha ao comando do MST na região, após ter ficado quase um ano afastado por causa das prisões - ele também foi preso por formação de quadrilha, após ficar 6 meses escondido. As guaritas na entrada de algumas fazendas voltaram a ser ocupadas por vigilantes armados. Equipamentos como binóculos, usados para vistoriar as propriedades, foram retitados das gavetas. Segundo Nabhan Garcia, a preocupação é justificada. "De alguém que responde a dezenas de processos por ações violentas e começa a formar um exército particular, o que a gente pode esperar?", disse, referindo-se a José Rainha.O ruralista considerou sugestiva a declaração de Rainha, feita ao Estado, de que pretende criar um novo Canudos no Pontal. "Ele se inspira em Antonio Conselheiro, que armava os jagunços para enfrentar o governo e acabou provocando um massacre. " A promessa do líder dos sem-terra de que não fará ocupações não pode ser levada a sério, segundo Garcia. "Eles vivem disso." Rainha participou da churrascada que marcou a inauguração do Acampamento Jahir Ribeiro, em Presidente Epitácio. A festa atraiu cerca de 600 militantes. Ele prometeu lutar para assentar as famílias. "Temos potencial e objetivo, não seremos derrotados." Rainha comparou a luta pelo assentamento à conquista do primeiro emprego, um dos objetivos do governo Lula. "No Pontal, o primeiro emprego é um pedaço de terra." Hoje à tarde, o coordenador do acampamento, Wesley Mauch, contabilizava 400 famílias já acampadas.

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