Fazendeiro ficou só nos escombros

Sozinho, Quartiero finalmente cedeu e foi embora a pé

Roldão Arruda, NORMANDIA, O Estadao de S.Paulo

02 de maio de 2009 | 00h00

Foi uma cena cinematográfica. Quando, em meio a uma nuvem de poeira, o comboio policial chegou à Fazenda Providência, o cenário era de desolação. Todas as casas e galpões da fazenda haviam sido postas abaixo.Era preciso olhar com atenção para perceber que atrás dos escombros, à sombra de um pequeno cajueiro, num banco de madeira, encontrava-se o fazendeiro Paulo César Justo Quartiero. Vestindo uma camisa preta, em sinal de luto, ele não se moveu. Nem quando foi cercado pelos policiais federais vestidos de preto, todos portando revólveres na cintura, e homens da Força Nacional de Segurança, com metralhadoras nas mãos.Não havia ninguém com ele. Trabalhou até as 4h30, despachando para a cidade e para uma fazenda vizinha o gado e as máquinas que tinha na Providência - uma das duas fazendas em que cultivava arroz na área da Terra Indígena Raposa Serra do Sol. Depois dispensou os empregados e ficou lá, com uma rede e uma garrafa com água.Foi assim, sozinho, que durante o dia ele bateu boca com os policiais, dormiu um pouco na rede, recebeu o desembargador Jiran Mergarian com ironias e desafios e tentou arrancar dele uma dilatação do prazo de permanência na área. Queria 15 dias para concluir a colheita de arroz em uma área de 370 hectares, mas não conseguiu.Finalmente decidiu ir embora. Como estava sem carro, o desembargador ofereceu uma carona no helicóptero que o havia levado até lá. "Com essa companhia eu não quero carona", respondeu. Antes de ir embora, ainda ameaçou tocar fogo nas suas colheitadeiras se as autoridades as requisitassem para realizar a colheita do arroz.Depois saiu a pé, pelo meio do arrozal. O comboio da PF passou bem ao seu lado, jogando poeira sobre o homem que durante anos liderou o movimento contra a demarcação.

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