Dida Sampaio/O Estado de S. Paulo
Dida Sampaio/O Estado de S. Paulo

Fazenda terá novo nome antes do G-20

Escolha antes de viagem para reunião das maiores economias do mundo, em novembro, é tratada como forma de acalmar o mercado

VERA ROSA, TÂNIA MONTEIRO E ADRIANA FERNANDES, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2014 | 02h05

BRASÍLIA - A presidente Dilma Rousseff pretende escolher o novo ministro da Fazenda antes da reunião de cúpula do G-20, marcada para os dias 15 e 16 de novembro, na Austrália. A intenção é acalmar o mercado, desfazer incertezas sobre investimentos e recuperar a credibilidade internacional, aparecendo no grupo das 20 maiores economias do mundo como a presidente disposta a fazer o dever de casa.

Dilma reuniu ontem, no Palácio da Alvorada, os ministros Guido Mantega (Fazenda), Aloizio Mercadante (Casa Civil) e Miriam Belchior (Planejamento), mais o secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin, para discutir as medidas econômicas que devem ser anunciadas pelo governo, na tentativa de segurar a inflação e aumentar o crescimento do País.

"Acredito que vamos encerrar o ano melhor", disse Mercadante ao Estado. "O período eleitoral é sempre de incerteza e especulação. Passada a eleição, a vida volta ao normal."

Auxiliares da presidente dizem que ela terá de fazer um ajuste fiscal capaz de dar mais eficiência aos programas para garantir emprego e renda e, ao mesmo tempo, apresentar metas consistentes para os próximos anos. A presidente já decidiu que o programa de concessões de infraestrutura sofrerá alterações para se tornar mais atrativo aos bancos privados.

O problema é o tamanho do ajuste. Dilma afirma que ele não será tão severo porque o Brasil está em melhor situação do que em 2003, quando Luiz Inácio Lula da Silva assumiu o governo. Em conversas reservadas, porém, até integrantes da equipe econômica afirmam que Dilma deve indicar logo um nome forte para a Fazenda, de preferência do mercado financeiro, para acalmar os investidores.

Trata-se de uma tentativa de reverter a crise de confiança que abala o governo no início do segundo mandato. Na lista dos cotados estão Rossano Maranhão, ex-presidente do Banco do Brasil e executivo do Safra; o presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco; e o economista Nelson Barbosa.

O PT prefere Barbosa, que foi secretário executivo da Fazenda no governo Dilma. O economista saiu em 2013 ao entrar em rota de colisão com Arno e com o próprio Mantega, mas se reúne periodicamente com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com quem também atuou no governo. Professor da Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo, Barbosa é colaborador do Instituto Lula.

Em meados do ano passado, Lula sugeriu a Dilma que trocasse Mantega pelo ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles. Ela, que nunca gostou da "ortodoxia" de Meirelles, não aceitou a sugestão.

Amarras. O escolhido estará mais amarrado à política econômica em curso, sem muito espaço para imprimir sua marca, pelo menos no período inicial do próximo mandato. Esse é um risco apontado por integrantes da área técnica do próprio governo, ouvidos pelo Estado, e pode se tornar um problema para a presidente achar um nome.

A manutenção das diretrizes atuais da política econômica e a opção pelo gradualismo para resolver os problemas mais imediatos, como o realinhamento de preços, foram indicadas durante a campanha e confirmadas no discurso da vitória. No domingo, Dilma afirmou que continuará tomando ações "localizadas" para impulsionar a atividade econômica - mesma política adotada nos últimos anos.

Embora a presidente não tenha divulgado oficialmente um programa de governo durante a campanha, a prorrogação de muitas medidas da atual gestão para 2015 já foram anunciadas e dificilmente serão revertidas pelo próximo ministro da Fazenda. Entre elas, estão a desoneração da folha de pagamentos, a política de subsídios com aportes para o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o Programa de Sustentação do Investimento (PSI) e a nova fase do programa Minha Casa, Minha Vida, todos com considerável impacto fiscal.

Com esse cenário, a implementação de mudanças mais substanciais pelo próximo ministro é vista pelos integrantes da área econômica como pouco provável, porque seria uma negação do que foi dito e defendido durante a campanha, principalmente nos momentos mais tensos do embate com o candidato tucano Aécio Neves e Arminio Fraga, economista indicado para ser seu ministro. Economistas do PT e do governo, entre eles Mercadante, têm repetido que a política econômica é bem-sucedida e levará o País para um novo ciclo de desenvolvimento.

O governo aposta que, depois desse período pós-eleição, de maior nervosismo do mercado, haverá uma acomodação e maior apetite dos investidores, principalmente os estrangeiros, pelo País. Para um integrante do governo, a hora é de "passar a régua".

BOLSA DE APOSTAS______________________________________

Nelson Barbosa

Prós: O ex-secretário executivo da Fazenda atuou dez anos nas gestões do PT. É respeitado no mercado por ser uma espécie de antítese das políticas de Mantega.

Contras: Deixou o governo em 2013 por discordar de medidas que foram avalizadas por Dilma. Sua volta depende do quanto ela está disposta a dar o braço a torcer.

Otaviano Canuto

Prós: Há 11 anos no Banco Mundial, foi secretário de Assuntos Internacionais da Fazenda no governo Lula. Ajudaria nas relações com investidores estrangeiros.

Contras: Apontou em entrevistas que o modelo de crescimento do governo Lula, adotado por Dilma e defendido na campanha, não tem dado resultados desde 2010.

Luiz Trabuco

Prós: O presidente do Bradesco seria uma opção para acalmar o mercado financeiro. Também resgataria a credibilidade fiscal com o fim da contabilidade criativa.

Contras: Depois da campanha contra os ‘banqueiros’ e a independência do Banco Central, a nomeação de um executivo de banco privado seria politicamente incoerente.

Rossano Maranhão Pinto

Prós: Ex-presidente do Banco do Brasil, é respeitado no mercado. Em 2011, Dilma quis levá-lo para a Secretaria de Aviação Civil, mas ele ficou como executivo do Safra.

Contras: O fato de também sair do mercado financeiro poderia provocar críticas no meio político. Em 2011, ele preferiu ficar no setor privado a atuar no governo.

Alexandre Tombini

Prós: O atual presidente do BC é mais ortodoxo que Mantega e que a própria Dilma. Por ser membro do governo, não teria empecilho político para assumir o cargo.

Contras: A presidente estaria mais propensa a mantê-lo no BC. É mais bem visto pelo mercado que Mantega, mas a inflação no teto da meta desgastou sua imagem.

Henrique Meirelles

Prós: Presidente do BC nos oito anos do governo Lula, tem proximidade com o petista e também é respeitado por tucanos. Conta com alta reputação no mercado.

Contras: Apesar de filiado a um partido da coligação de Dilma, não se engajou na campanha da petista. Só aceitaria o cargo se tivesse carta branca para conduzir a pasta.

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