Fazenda Bamerindus vira terra sem lei

A exatamente 20 quilômetros da curva do "S", na rodovia PA-150, em Eldorado do Carajás, onde 19 sem-terra morreram em confronto com a Polícia Militar, em 17 de abril de 1996, um outro conflito pode surgir a qualquer instante. A Fazenda Bamerindus, onde existem quatro projetos do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) - Oziel Pereira, Progresso, Barreira Branca e Vale do Mucura - virou uma terra sem lei, onde imperam o medo, as fraudes nos créditos agrícolas, o tráfico de drogas e de armas, a destruição da floresta e a pistolagem. A fazenda, que chegou a ser considerada uma das mais completas do País, pode se transformar em breve numa espécie de ?estado independente" no Sul do Pará, onde nem mesmo a polícia conseguirá entrar. Ali, supostos assentados plantam maconha no lugar das culturas tradicionais, enquanto trabalhadores são obrigados a deixar as terras sob a mira de armas. "O Incra reconhece que o problema já extrapola a questão da reforma agrária. O projeto do governo foi descaracterizado e virou caso de segurança pública", afirma o superintendente do Incra em Marabá, Darwin Boerner Júnior, que na semana passada reuniu-se com as polícias Federal, Civil e Militar para tentar encontrar uma solução para o problema. Entretanto, todos foram unânimes em afirmação que o caos só acabará se houver a interferência direta do Exército, como aconteceu em Serra Pelada, em 1998. "Todos têm pânico de entrar naquela região." A Fazenda Bamerindus foi dada ao Incra pelo Banco Central, depois da falência do banqueiro José Eduardo Andrade Vieira, ex-dono do Banco Bamerindus. Em seus 60 mil hectares, o governo sonhava em criar um dos maiores assentamentos do Brasil. Afinal, a propriedade tinha toda a estrutura necessária para o assentamento imediato. Mas, para atender ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), a área foi dividida em várias partes, perdendo-se totalmente o controle da situação. Hoje, ninguém sabe quem é assentado, fazendeiro, traficante ou pistoleiro. "Há uma mistura grande, que transformou aquilo em uma terra sem lei. Lá dentro, eles fazem as próprias leis", conta a delegada Elizete Cardoso, superintendente da Polícia Civil no Sul do Pará.Apesar de o governo ter decidido agora encarar o problema, ele não é novo. Desde o início do ano passado que técnicos do Incra fazem diversos alertas para a presidência do órgão, mostrando que o dinheiro público estava virando fonte de renda para um grupo pequeno de pessoas. "Despejamos milhões de reais na Bamerindus, enriquecendo meia dúzia de presidentes de associações", conta Boerner Júnior. A PF já abriu inquérito para apurar denúncias de aplicação de recursos do Programa Nacional de Agricultura Familiar (Pronaf) pelas Associações de Produtores Rurais Assentados nos Projetos Progresso e Oziel Pereira. Mas não é só dinheiro público que circula pela região. Informações levantadas pela polícia apontam indícios de que ladrões de bancos e de carros-fortes estão usando a Fazenda Bamerindus como esconderijo, principalmente na área do Oziel Pereira e Progresso, onde moram cerca de sete mil pessoas. Hoje, conforme relatórios da Polícia Federal, a situação é mais grave do que se possa imaginar. Centenas de colonos já foram retirados à força de seus lotes, que transformaram em pequenas fazendas dentro do projeto. "O Exército fez a demarcação da área, mas quando os militares saíram, eles retiraram os marcos e formaram as fazendolas", conta o superintendente do Incra na região. Para não deixar seus lotes, são obrigados muitas vezes a pagar taxas em dinheiro ou com gado. Mais de 54% da reserva florestal que deveria permanecer intacta, foi destruída, e a madeira nobre hoje abastece as serrarias de Eldorado do Carajás. MaconhaLevantamentos da PF e do Incra detectaram plantações de maconha que não só abastecem a região, mas alcançaram outros mercados no Sul do Pará. Até mesmo a sede da fazenda, que possuía nove suítes e dezenas de outras dependências, foi completamente destruída. A intenção dos moradores era que a casa fosse uma escola técnica, mas virou ruínas. As casas dos assentados expulsos de seus lotes - e construídas com financiamentos do Incra - estão hoje cobertas de mato. Para tentar impedir a continuidade da terra sem lei em que se transformou a fazenda, o governo planeja uma operação para retirar os não-assentados, apesar de não haver recursos no orçamento para esta finalidade. "Poderemos ter uma situação de confronto na região", alerta a delega Elizete Cardoso. "Precisamos agir rápido, mas com uma programação definida."

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