Favela reproduz divisão entre tucanos e petistas

Moradores de maior renda da Vila Irmã Dulce, em Teresina, aderem à fala de Aécio sobre inflação; maioria, na base, defende Dilma e programas sociais

Rafael Moraes Moura, O Estado de S.Paulo

13 de outubro de 2014 | 02h00

Principal favela do Piauí, Estado que deu a maior votação proporcional à presidente Dilma Rousseff (PT) no 1.º turno, a Vila Irmã Dulce reproduz com precisão uma característica manifestada nas urnas: mais do que uma divisão geográfica do eleitorado, é no perfil socioeconômico que residem as diferenças entre quem votou na petista e no seu principal adversário, Aécio Neves (PSDB).

Na favela - onde cerca de 7 mil moradores receberam o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2003 no início da Caravana da Fome, evento ligado ao Fome Zero - o que se vê é uma minoria de eleitores tucanos no topo da pirâmide social da favela e que assimilaram o discurso de Aécio de combate à violência e à inflação, enquanto uma maioria petista, beneficiária de programas sociais, vota em Dilma por temer, como diz a propaganda do PT, que os avanços sociais sejam interrompidos. Foi esse o mote da visita da petista a Teresina na quarta-feira - quando discursou sobre o tripé Bolsa Família, Mais Médicos e Minha Casa Minha Vida para atacar a "visão elitista" do PSDB.

"O nordestino que não vota no PT tem falta de vergonha na cara", criticou a líder comunitária Francisca de Moura, de 40 anos, beneficiária do Bolsa Família. "Se você perceber, os adesivos de quem apoia o Aécio estão em carros de luxo."

Sua vizinha, Maria dos Santos, de 65 anos, está tentando regularizar o cadastro no Bolsa Família e é mãe de oito filhos - o caçula foi o primeiro a ganhar diploma de uma universidade federal. "Antes os pobres não tinham direito nem de comprar bicicleta. Hoje adquirem moto, fazem faculdade e andam de avião", disse, num comentário que lembra o discurso da própria Dilma.

Vantagem. É essa rede de proteção social a justificativa para Dilma ter amealhado 70,6% dos votos válidos no Estado, contra 14% de Aécio e de Marina Silva (PSB). O Piauí também elegeu Wellington Dias (PT) com ampla margem de votos contra José Filho (PSDB): 63% a 33%. O Estado possui a segunda maior cobertura do Bolsa Família: cerca de 458 mil famílias atendidas, um universo de 1,5 milhão de pessoas (47% da população). Só na Vila Irmã Dulce, Dilma teve 78,7% (3.146) votos, contra 11,9% (476) de Marina Silva (PSB) e 6,9% (276) de Aécio.

Em minoria, os eleitores tucanos são visivelmente os de melhor renda na favela. Caso do presidente da associação de moradores, José Leônidas da Silva, de 49 anos, que tem carro próprio, não recebe Bolsa Família e cuja renda mensal é de R$ 3 mil. "No atual governo ficou difícil botar carne bovina na mesa do pobre. Dilma tem de pedir desculpas pelo povo brasileiro."

Leônidas aprova, no programa de Aécio, a redução da maioridade penal. "Tem muito jovem na droga, na bandidagem e ninguém faz nada", afirmou. Ele também reclamou dos ataques de Dilma contra o governo FHC. "Dilma tem de esquecer o passado e viver o agora."

Se divergem sobre a avaliação dos candidatos, algo unifica esses moradores: a defesa do Nordeste, região que virou alvo de ataques por sua opção majoritária pelo PT. "O que fizeram com os nordestinos nas redes sociais foi desumano", disse Marina Moura, de 25 anos, presidente da associação da juventude da zona sul de Teresina. José Leônidas questiona: "Se o Nordeste é burro, o que dizer dos paulistas que elegeram um palhaço (Tiririca) para o Congresso?"

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