Farinha pouca

Pouco dinheiro faz partidos reverem candidaturas majoritárias em 2018

Vera Magalhães, O Estado de S.Paulo

18 Março 2018 | 03h00

Não é só a tendência de aglutinação de blocos políticos segundo afinidade ideológica e programática que deve determinar um enxugamento do quadro inicial de pré-candidatos a presidente. 

Existe um movimento menos visível, mas bastante palpável no interior dos partidos, por parte dos candidatos a deputado, que veem na ideia de lançar candidatos majoritários pouco viáveis eleitoralmente um gasto desnecessário de recursos financeiros – artigo de luxo numa eleição sem financiamento empresarial de campanhas.

Escapam da patrulha do baixo clero aqueles postulantes que injetarão recursos próprios nas candidaturas, como João Amoêdo, do Novo, ou o empresário Flávio Rocha, que ainda flerta com várias legendas e esboça pular na água fria da política – algo que outros com seu perfil já desistiram de fazer, como o apresentador Luciano Huck.

Vigora na urdidura das candidaturas pelos partidos o velho ditado que diz que farinha pouca, meu pirão primeiro.

A necessidade de usar o fundo partidário e o recém-criado fundo eleitoral para engordar a bancada na Câmara dos Deputados foi um dos fatores, por exemplo, que levaram Gilberto Kassab, o mais pragmático dos “cartolas" partidários, a desistir de vez de lançar Henrique Meirelles à Presidência.

Para o PSD, vigora o cálculo segundo o qual quanto mais deputados, maior o dinheiro futuro para custear o próprio partido. E, assim, aumenta seu cacife político qualquer que seja o governo eleito.

Sem candidatos majoritários nas principais praças – a aliança com os tucanos se repetirá em São Paulo, e em Minas, segundo colégio, o PSD já se associou a Márcio Lacerda –, sobra mais dinheiro para a disputa Legislativo.

A pressão dos parlamentares pela pouca farinha que sobrou para o pirão depois que a Lava Jato desmontou os moinhos se reproduz, também, nos Estados. Candidatos a governador que não se mostrarem viáveis nas pesquisas sofrerão imensa carga para desistir e procurar um porto seguro para aliança.

É o caso de Minas Gerais, onde a inesperada entrada de Antonio Anastasia no páreo ameaça desmontar vários palanques que vinham sendo erguidos com madeira fraca pelos aliados de sempre.

No plano nacional, um potencial beneficiário desse clamor dos candidatos à eleição proporcional por dinheiro pode ser Geraldo Alckmin. A falta de grana pode pesar para que mesmo partidos hoje reticentes a se aliar de novo ao PSDB, devido à falta de empolgação real com a candidatura do paulista, revejam a estratégia e optem pelo pragmatismo.

Será um dos fatores a serem levados em conta para essa decisão, além da avaliação política macro do cenário das pesquisas e das chances de cada um ir a um segundo turno que, sem Lula na cédula, se torna uma combinação aberta de dois nomes.

Com uma campanha mais curta na TV e nas ruas, essas decisões tendem a se afunilar para o bimestre junho-julho. O prazo para a troca de partidos e desincompatibilização de potenciais candidatos, em 7 de abril, já vai ajudar a dar uma esvaziada nos balões que hoje estão no ar.

A partir daí, com o quadro mais depurado, os partidos vão se sentar para baixar a bola da retórica e fazer contas no papel. Nesse momento, o mais provável é que a pulverização vista hoje, com até 15 presidenciáveis, de acordo com a abrangência da contagem, se reduza para algo mais próximo do que foi visto nas recentes disputas, um quadro mais enxuto.

É mais um paradoxo de um pleito em que os eleitores clamam pelo novo (em nomes, slogans e práticas), mas todas as regras postas conspiram para a manutenção de um certo status quo em que tempo de TV, alianças fortes e uso racional do pouco dinheiro na praça ainda devem fazer a diferença para determinar vencedores e vencidos.

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