Márcio Fernandes/Estadão - 13.08.2014
Márcio Fernandes/Estadão - 13.08.2014

Famílias de vítimas e PSB questionam hipótese de falha humana em acidente

Parentes dos pilotos do jato usado na campanha de Eduardo Campos e partido do então candidato querem mais explicações para conclusão de que comandante teve ‘desorientação espacial

Daiene Cardoso e Isadora Peron, O Estado de S. Paulo

16 de janeiro de 2015 | 17h46

Brasília - Familiares de vítimas e representantes do PSB questionaram nesta sexta-feira, 16, o resultado das investigações da Aeronáutica que apontou a sucessão de falhas humanas como causa do acidente aéreo que matou o então candidato ao Planalto e presidente da legenda, Eduardo Campos, e outras seis pessoas em 13 de agosto de 2014, durante a campanha eleitoral daquele ano.

Conforme revelou o Estado, a apuração do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) concluiu que o piloto Marcos Martins não tinha treinamento para a aeronave Cessna 560 XL, que ele falhou no uso do “atalho” para acelerar o procedimento de descida e que sofreu “desorientação espacial”, inclinando o jatinho em direção ao solo quando acreditava estar voando para cima. As investigações não apontaram indícios de falhas técnicas ou de operação do sistema aeronáutico. 

Surpresos com a conclusão da Aeronáutica, líderes do PSB cobraram explicações para o desligamento da caixa-preta de voz e querem saber a razão pela qual o piloto sofreu a “desorientação espacial” sem que os aparelhos do moderno Cessna Citation ou o copiloto Geraldo Magela Barbosa percebessem que o jatinho estava em movimento de descida, e não de subida. “Era preciso que os dois (piloto e copiloto) entrassem em desorientação. Mas até onde sei, os aparelhos não desorientam”, afirmou o vice-governador de São Paulo, Márcio França. 

Os dirigentes duvidam que um piloto com a experiência de Martins – e que havia sido elogiado por Campos – cometeria os erros apontados pela Aeronáutica. “Pode até ser, mas falha humana é uma conclusão simplista”, disse França. Procurada, a candidata derrotada à Presidência Marina Silva alegou não ter conhecimentos técnicos para se pronunciar. 

O PSB contratou um técnico em acidentes aeronáuticos para acompanhar as investigações e avaliar o resultado da apuração oficial. O partido vai pedir acesso aos relatórios do Cenipa – que serão divulgados a partir de fevereiro –, mas aguardará a conclusão do inquérito para se posicionar oficialmente. 

“Como morto não fala, tudo o que se imputar a quem morreu pode resolver para alguém, mas para nós não resolve”, disse o líder do PSB na Câmara dos Deputados e vice na chapa de Marina Silva, Beto Albuquerque. O deputado enfatizou que voou algumas vezes naquela aeronave e que nunca soube de atritos ou indisposição entre piloto e copiloto, como apontou o relatório da Aeronáutica.

‘Prematura’. Antônio Campos, irmão de Eduardo Campos, considerou que a investigação da Aeronáutica é “prematura”, uma vez que os laudos existentes são inconclusivos e o inquérito não foi encerrado. “Os laudos da Aeronáutica e do Cenipa tratam de possibilidades quanto a causa de acidentes e não são conclusivos”, afirmou Antônio Campos por meio de nota divulgada no Recife. “O Cenipa não está fazendo todas as perícias do caso e não pode ter uma visão global do acidente.” 

Ele informou que os inquéritos policial e civil ainda dependem do resultado de algumas perícias para serem concluídas. A expectativa é que a conclusão oficial seja anunciada em fevereiro, conforme promessa do procurador da República responsável pelo caso, Thiago Nobre. 

Uma pessoa próxima à família de Campos disse que eles não desconsideram que tenha havido falha humana, mas acreditam tratar-se de um tema delicado, porque uma queda de avião sempre acontece por uma série de motivos. 

Relatórios. O primeiro relatório do Cenipa terá recomendações de segurança para que os mesmos erros não se repitam e causem novos acidentes. Depois, será divulgado um relatório detalhado com todos os dados do voo e as conclusões sobre as causas da queda. 

Conforme apurado pelos investigadores, Martins não estava treinado para o Cessna 560 XL, uma aeronave sofisticada e nova, concluída em 2010. Ele, por exemplo, nunca tinha passado pelo simulador.

O jato caiu em Santos, no litoral paulista, por volta de 10h, Além de Campos, que estava em terceiro lugar na corrida presidencial, e dos pilotos, morreram no acidente quatro assessores do candidato. 

Durante a campanha, surgiram dúvidas sobre a propriedade do jatinho e suspeitas de que a aeronave teria sido paga com recursos de caixa 2. Oficialmente, três empresários pernambucanos, com ligações diretas e indiretas com o ex-governador, se apresentaram como compradores do jato Cessna Citation. / COLABOROU ANGELA LACERDA 

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