Cleia Viana/Agência Câmara
Cleia Viana/Agência Câmara

Faltou governo na derrubada do voto impresso; leia análise

O tema não é puramente uma questão de situação x oposição, mas seguramente Bolsonaro não foi capaz de garantir que seus partidos aliados estivessem em plenário para lhe dar o que tanto pregou

Humberto Dantas*, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2021 | 16h23

Na votação do voto impresso uma coisa, novamente, salta aos olhos: para o governo faltou GOVERNO. A despeito de como os partidos aderiram à causa, uma coisa é fato: muita gente faltou. Foram 65 ausências, e a média de abstenção em algumas legendas chama a atenção e mostra dificuldades que transcendem a atuação da justiça que Bolsonaro resolveu atacar. Utilizando as taxas de governismo por partido do Basômetro do Estadão, temos 11 legendas com percentagens superiores a 90 pontos de adesão às pautas do Executivo na Câmara - PL, PP, PSD, PTB, PSDB, MDB, NOVO, DEM, Patriotas, Republicanos e PSL. A taxa média de ausência partidária aqui foi de 14%. Já entre os partidos que tem 50% ou menos de média de governismo - PSOL, PT, PC do B, Rede, PDT e PSB - a média de ausência partidária foi de 5%. O tema do voto impresso não é puramente uma questão de situação x oposição, mas seguramente Bolsonaro não foi capaz de garantir que seus partidos aliados estivessem em plenário para lhe dar o que tanto pregou. A culpa é da justiça? Justiça seja feita, nesse caso: não. E parece que a intensidade do presidente pode ter lhe prejudicado.

A partir disso, olhemos também para as médias de SIM desses partidos mais ou menos governistas, pois mesmo que tivesse todos os ausentes ao seu lado, o voto impresso perderia. No G11 do governismo temos adesão média - média das médias - de 56% ao tema de ontem, enquanto no G6 da oposição isso cai para 10%. Bolsonaro acusa a justiça eleitoral de persuadir e fazer campanha contra sua ideia. A despeito de suas falhas e ativismos, a justiça, nesse caso, adotou uma posição técnica de impossibilidade de implementação do sistema, e fortaleceu a segurança de algo que criou e aperfeiçoou. Nada mais legítimo, em tese, que agir. Agora: se diante de um Executivo com tantos recursos a média de adesão por partido da base foi de menos de 60%, considerando aqui apenas as legendas que em média dão 90% ou mais de apoio, Bolsonaro mais uma vez perdeu o jogo em casa. Resultado: se a culpa é de Barroso, que ele seja convidado a assumir o ministério da articulação política. Ou ao menos dar aulas de articulação para quem lá está...

*Humberto Dantas é cientista político e pesquisador da FGV-SP

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