Faltam remédios e pesquisas sobre "doenças de pobres", acusa ong

A falta de pesquisas de remédios para doenças consideradas pouco rentáveis pela indústria farmacêutica contribui para a falta de assistência, que muitas vezes leva à morte, em países mais pobres. A conclusão está no documento "Desequilíbrio Fatal - A Crise em Pesquisa e Desenvolvimento de Drogas para Doenças Negligenciadas"- a versão em português foi lançada hoje pela organização Médicos Sem Fronteiras (MSF), na Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio. O documento foi lançado em inglês em outubro.As doenças negligenciadas às quais refere-se o título do relatório são as que atingem prioritariamente países pobres, como a malária e a tuberculose. Outras, como a doença de Chagas, a leishimaniose e a dengue, que não são registradas em países ricos, incluem-se no grupo das extremamente negligenciadas.Nesta sexta-feira, dois representantes da MSF encontram-se com o presidente da Fiocruz, Paulo Buss, para conversar sobre a criação de um organismo internacional que possa alterar essa situação. O objetivo é produzir novos medicamentos para as doenças "extremamente negligenciadas". Apesar de as populações dos países em desenvolvimento representarem 80% da população mundial, respondem por apenas 20% das vendas de remédios, um mercado que deve movimentar US$ 400 bilhões esse ano.Representante da MSF, Els Torneele afirmou que as doenças infecciosas afetam mais de 40 milhões de pessoas a cada ano. Dessas, 90% vivem no Hemisfério Sul. Outra estatística mostra que as doenças infecciosas e parasíticas respondem por 25% da carga de doenças em países pobres e 3% nos ricos. "Apesar dos avanços tecnológicos, pouquíssimas novas drogas são desenvolvidas para as doenças dos pobres", disse Els.Como exemplo disso, o relatório demonstra que dos 1.400 fármacos criados entre 1975 e 1999, apenas 13 são para doenças tropicais e quatro para tuberculose. Já para doenças cardiovasculares, 11% do total, 179 novos medicamentos surgiram. A diferença, aponta o documento, é que as primeiras afetam primordialmente os pobres. "Essa falha no mercado é também uma questão de política pública. A garantia de acesso (aos medicamentos) deve ser uma responsabilidade pública, com a ajuda do setor privado", disse Yves Champey, também do MSF. Dados da organização indicam que metade dos gastos em pesquisa e desenvolvimento, US$ 70 bilhões em 2001, são de cofres públicos. Para superar esse desequilíbrio, a MSF trabalha na criação de um organismo internacional, um desdobramento do grupo de trabalho Drogas para Doenças Negligenciadas (DND, em inglês), criado em 1999 - ano em que a MSF recebeu o Prêmio Nobel da Paz - como parte da Campanha de Acesso a Medicamentos Essenciais.Ao lado do Programa Especial para Pesquisa e Treinamento em Doenças Tropicais da Organização Mundial de Saúde (TDR, em inglês), do Instituto Pasteur e do Conselho da Índia para Pesquisas Médicas, a Fiocruz, que há dois anos vem participando do DND, deve ser um dos fundadores dessa nova organização, batizada de DNDi. O Brasil, por meio da Far-Manguinhos, é um dos poucos países em desenvolvimento capazes de produzir esses medicamentos.

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