Ed Ferreira/Estadão
Ed Ferreira/Estadão

Falta do que mostrar ameaça visita de presidente a Obama

Tanto Planalto quanto Casa Branca querem reunião, mas ausência de acordos relevantes poderá adiar viagem

CLÁUDIA TREVISAN, CORRESPONDENTE , O Estado de S.Paulo

27 Fevereiro 2015 | 02h04

WASHINGTON - Anunciada para setembro pelo chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, a visita de Estado da presidente Dilma Rousseff a Washington está longe de ser uma certeza. Conspiram contra ela um calendário carregado de recepções a outros líderes estrangeiros na Casa Branca e a dificuldade dos dois lados de construírem a tempo uma agenda substantiva a ser apresentada pela dirigente brasileira e seu colega americano, Barack Obama.

Fontes de ambos os países afirmam que há o desejo de realizar a visita, mas reconhecem que há obstáculos importantes em seu caminho. O principal deles é definir o que será anunciado. Tanto Dilma quanto a Casa Branca disseram não querer uma visita que tenha pompa e circunstância, mas desprovida de conteúdo.

"Eles ainda não têm uma agenda e estão procurando coisas que tenham significado", disse ao Estado Peter Hakim, presidente emérito do Inter-American Dialogue. Cético em relação à possibilidade de Dilma ir a Washington neste ano, Hakim lembra que a Casa Branca já tem duas visitas de Estado agendadas para o outono: o presidente da China, Xi Jinping, e o primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe. Os líderes da Coreia do Sul e da Indonésia também estarão no país para visitas oficiais -menos formais que as de Estado. Para completar, o papa Francisco irá aos EUA em setembro e se encontrará com Obama.

Previsão. Três outras fontes que acompanham de perto a relação bilateral consideram pouco provável a realização da visita neste ano e acreditam que ela poderá ocorrer em 2016. Mas ressaltam que isso não impedirá que os dois países intensifiquem o processo de normalização das relações iniciado depois da reeleição da presidente.

Os laços bilaterais foram esgarçados em 2013 com a revelação de que a Agência de Segurança Nacional (NSA) espionou comunicações da presidente, o que a levou a cancelar a visita que faria a Washington naquele ano. Do lado americano, o principal agente da reaproximação é o vice-presidente Joe Biden, com quem Dilma se reunirá domingo no Uruguai, onde os dois acompanharão a posse do presidente Tabaré Vázquez. Será o segundo encontro de ambos em dois meses. A assessoria de Biden disse ao Estado que serão discutidos todos os temas bilaterais relevantes.

O ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Armando Monteiro, escolheu os EUA como destino de sua primeira viagem internacional, decisão apresentada pelo governo brasileiro como símbolo da relevância dada à normalização das relações com o país. Monteiro e seus pares americanos começaram a trabalhar em medidas de facilitação do comércio bilateral, que são importantes, mas insuficientes para segurar a agenda de uma visita de Estado.

Um acordo de bitributação teria mais peso, mas sua negociação é complexa. Os dois países tentam há quatro décadas firmar um tratado nessa área, sem sucesso. A medida exigiria mudanças na legislação brasileira e enfrenta resistências pelo potencial impacto na arrecadação de impostos. A pressão do setor privado sobre Brasília para avançar nessa negociação cresceu nos últimos anos em razão da expansão dos investimentos nos EUA de empresas brasileiras, que se beneficiariam de um acordo. Os dois países discutem ainda cooperação nas áreas de energia e de educação, mas eles têm menos peso que a questão da bitributação.

Mesmo sem a visita, há chance de Dilma e Obama se reunirem à margem da Cúpula das Américas, em abril, ou da Assembleia Geral da ONU, em setembro.

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